Início » Internacional » Lixo se torna um desfio político na Rússia
MANEJO DE RESÍDUOS

Lixo se torna um desfio político na Rússia

Moradores protestam contra plano de manejo de resíduos do governo, afirmando que consiste em retirar lixo das capitais para lançar no interior

Lixo se torna um desfio político na Rússia
Kremlin tenta modernizar o antiquado sistema de descarte de lixo do país (Foto: Twitter/Alex Thomson)

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Nos últimos meses, Ilya Tsaryov juntou-se repetidas vezes a dezenas de outras pessoas em frente a uma grande cruz de madeira na floresta perto de sua cidade natal, Likino-Dulyovo, para observar a polícia e os tratores.

Os moradores locais querem impedir a construção de uma usina de processamento de lixo em uma floresta de turfa úmida que, segundo eles, alimenta os rios locais e abriga espécies em extinção. Porém, os manifestantes enfrentaram violentas repressões, com relatos de policiais espancando e prendendo manifestantes. Em uma ocasião, na semana passada, um homem idoso teve o braço quebrado após ser arrastado.

O moradores de Likino-Dulyovo, uma cidade a três horas de carro a leste de Moscou, viram-se catapultados para uma das maiores ondas de protestos que a Rússia tem visto nos últimos anos. Desde janeiro, quando as reformas nacionais sobre a eliminação de resíduos entraram em vigor, dezenas de milhares de pessoas em todo o país expressaram sua posição contra as medidas que eles temem inundar suas cidades, poluir o meio ambiente e tornar suas casas inabitáveis.

A aprovação do presidente Vladimir Putin chegou em seu ponto mais baixo em mais de uma década por causa do declínio dos padrões de vida. Consciente disso, o Kremlin concedeu raras concessões aos manifestantes provinciais, incluindo a suspensão da construção de uma catedral em Ekaterinburg que teria destruído um parque local. O trabalho para construir uma proposta de mega-lixão no que hoje é floresta de pinheiros em Shiyes, uma vila abandonada a 20 horas de trem a nordeste de Moscou, foi temporariamente interrompida depois que moradores de cidades vizinhas ocuparam um campo de protesto por seis meses.

Essa abordagem contrasta com a posição do Kremlin em relação aos partidários da oposição política em Moscou, alguns dos quais enfrentam a prisão por “distúrbios em massa” durante recentes protestos contra as eleições municipais. Alexei Navalny, um crítico proeminente do governo, foi condenado a 30 dias de prisão por encorajar os protestos na capital e, sob custódia, foi alvo de tentativa de envenenamento, segundo relataram seu advogado e médico nesta semana.

Putin tentou abordar a questão dos resíduos em junho, durante sua anual aparição em um programa televisivo no qual responde perguntas por telefone. Na ocasião, o lixo foi um dos três tópicos mais abordados. “Geramos 70 milhões de toneladas de resíduos. E ninguém recicla o lixo industrialmente. Espero que possamos resolver esse problema. Eu estarei cuidando disso”, disse Putin.

Mas os planos para renovar a indústria de resíduos continuam em ritmo acelerado, à medida que o Kremlin tenta modernizar o antiquado sistema de descarte de lixo da Rússia, no qual menos de 5% são reciclados. Sob o novo regime, o governo pretende armazenar menos resíduos em aterros e construir instalações para reciclar ou queimar.

Na prática, no entanto, os empreiteiros são incentivados pelas taxas que recebem pela disposição do lixo em volume, em vez de classificá-lo para reciclagem, o que os encoraja a construir aterros sanitários. A Rússia ainda precisa aprovar medidas que compensem ou reconheçam pessoas que moram perto de novos aterros sanitários, disse Boris Morgunov, reitor da Faculdade de Ecologia da Escola Superior de Economia de Moscou.

A questão é particularmente aguda em torno de Moscou, cuja população de 20 milhões de habitantes produz quase 20% do lixo da Rússia e onde os aterros sanitários locais estão transbordando. Planos para transportar o lixo da capital para fora dos limites da cidade deram um vislumbre do que está lançando a capital contra o seu interior muito mais pobre.
“Moscou está despejando lixo nas outras regiões”, disse Tsaryov. 

A cidade está tentando reduzir o problema introduzindo um plano de reciclagem abrangente a partir do próximo ano. Autoridades afirmam que o terreno em Likino-Dulyovo será usado para uma moderna usina de reciclagem. Mas a confiança do público nas autoridades é tão baixa que Tsaryov está convencido de que o local se tornará mais um depósito.

Tsaryov disse que seus pedidos às autoridades caíram em ouvidos surdos. As autoridades locais o encorajaram a resolver a questão no tribunal, um passo que, segundo ele, permitiria efetivamente a construção da usina, dando aos trabalhadores tempo para cortar a floresta. Tampouco conseguiu ligar para Putin em junho. “Enviamos milhares de mensagens e chamadas. Nada passou. Queremos que Putin saiba sobre isso, mas eles não estão deixando as informações chegarem a ele”, disse ele.

Fontes:
Financial Times-Russia’s rubbish mountain piles pressure on Putin

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *