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REFORMULAÇÃO

Merkel, Macron e a ‘refundação’ da União Europeia

Conseguirá o casal ‘Mercron’ promover uma ‘refundação’ a quatro mãos de um bloco com 28 membros?

Merkel, Macron e a ‘refundação’ da União Europeia
Merkel e Macron parecem estar querendo liderar a ‘refundação’ da UE (Foto: Ghislain Mariette/Présidence de la République)

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O Reino Unido jamais fez parte da Zona do Euro, mas no último quarto de século fez parte da União Europeia, desde a assinatura do Tratado de Maastricht, em 1993. A rigor, ainda faz, porque o processo de desligamento da ilha do bloco ainda não foi concluído, com previsão para sê-lo em 2019. Mas o Reino Unido é hoje um estado-membro do bloco como aquele ex-jogador de futebol em atividade, como um membro de algum conselho editorial, ou como, digamos assim, a rainha da Inglaterra: na UE o Reino Unido já não apita lá grande coisa, por conta da decisão tomada pelo povo britânico em julho de 2016.

De modo que a mesa de três lugares onde até pouco tempo sentavam-se as três maiores potências da Europa, para decidir sobre a Europa, agora volta a ter só duas cadeiras, como as que foram de Churchill e De Gaulle após a derrota do Terceiro Reich, com a diferença de que agora é a chanceler Angela Merkel quem se senta na cadeira que um dia foi do velho Winston, frente a frente com o presidente europeísta da França, Emmanuel Macron.

E é nessa condição, bilateral, que os rumos da União Europeia têm sido traçados nos últimos meses: só depois nas instâncias, instituições e poderes supranacionais da UE; primeiro, em reuniões a portas fechadas entre Merkel e Macron – sobre imigração, moeda única, extrema direita, todos os grandes temas europeus que demandam urgente atenção ante o cenário de desordem mundial -, enquanto Theresa May anda às voltas com as burocracias, prazos e demais dores de cabeça do Brexit, além de tentando se entender com Donald Trump.

Bilateral, com o desmantelamento da “troika”, mas não bipolar. Ao contrário: desenha-se uma aliança franco-alemã como nunca antes na história desse continente, como diria o outro, por mais que o passado recente tenha produzido neologismos como “Merkozy” ou “Merkollande”.

Em seu primeiro discurso no Parlamento Europeu, feito em meados de abril desse ano, Macron falou mesmo em risco de “guerra civil” na Europa entre a democracia liberal e o autoritarismo, caso a União Europeia não consiga, afinal, manter a união. É sob essa consigna que em pouco mais de um ano no poder o presidente francês já fez mais de 30 viagens pela Europa com o objetivo de promover a “refundação” da União Europeia.

UE: bem-vindo à era ‘Mercron’

Já quando da eleição de Macron, no primeiro semestre de 2017, já se dizia na Europa que o novo poderoso casal da União Europeia, o casal “Mercron”, tinha a incumbência de combater os “populistas anti-europeus” e colocar a UE, cheia de problemas, de volta nos trilhos. Mas é só agora, um ano depois – em parte por causa do calendário eleitoral na Alemanha e dos quatro meses que a chanceler reeleita levou para conseguir formar o governo -, que Merkel e Macron parecem mais decididos a tocar aquela “refundação” a não mais que quatro mãos de um bloco de 28 países, como mostram dois encontros recentes, os dois na Alemanha, no âmbito da frente franco-alemã do, e para, o século XXI.

O primeiro aconteceu em abril, em Berlim. Na ocasião, Merkel e Macron discutiram a possibilidade de formação de um novo parlamento e de um orçamento separado, ambos para a zona do Euro, que reúne 19 dos 28 países da UE, inclusive com um ministro responsável por cuidar da moeda única. O segundo aconteceu na semana passada, no castelo de Meseberg, cenário de acordo com a pompa do que foi declarado por Macron ao fim das conversas, dizendo que “esta é a segunda etapa do euro” e que a Europa havia feito “uma escolha pela civilização”.

Além da transformação das possibilidades discutidas antes em compromissos, e do avanço das discussões sobre uma unificação bancária na UE, Alemanha e França se entenderam em Meseberg sobre ações contra a “crise migratória”: transformar a já existente Frontex (Agência Europeia de Gestão da Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas) numa verdadeira polícia de fronteira comum, além de criar um gabinete europeu de asilo com o objetivo de unificar as práticas nos Estados-membros nesse ponto nevrálgico para o futuro da Europa.

Após o encontro em Meseberg, o jornal alemão Frankfurter Allgemeine foi cético: “longe vai o tempo em que bastava um acordo entre França e Alemanha para que houvesse movimento na Europa”. No início de junho, o presidente do Movimento Europeu-França, Yves Bertoncini, havia dito ao brasileiro Globo:

“Se ele olhar para o espaço celeste e se comportar como um navegador, sua iniciativa poderá funcionar. O risco é que se enxergue como um planeta. Na França, ele é um monarca republicano, o presidente francês acumula quase todos os poderes. Por vezes, ele é um pouco imperial. Mas na Europa não funciona assim, é preciso ser bem mais horizontal. Mesmo que França e Alemanha pesem mais por sua importância econômica e sua tradição diplomática, a forma deve ser ajustada”.

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