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O SONHO DA DESNUCLEARIZAÇÃO

Mesmo com compromisso entre Trump e Kim, ameaça nuclear permanece

Atualmente, nove países contam com aproximadamente 15 mil ogivas nucleares, e os investimentos no setor, ao invés de cair, têm subido nos últimos anos

Mesmo com compromisso entre Trump e Kim, ameaça nuclear permanece
O planeta ainda está distante de se ver livre das bombas atômicas (Foto: Flickr/Gaspard)

Em 12 de junho de 2018, quando no Brasil se comemorava o Dia dos Namorados, Kim Jong-un e Donald Trump, no primeiro encontro entre mandatários dos EUA e da Coreia do Norte em décadas, firmaram um compromisso no qual o ditador norte-coreano, de forma genérica, se comprometeu a trabalhar pela desnuclearização da Península Coreana. O encontro entre os dois foi classificado como “histórico” pela imprensa internacional, e o compromisso foi celebrado como um passo em direção ao fim da ameaça nuclear.

Especialistas em política internacional que acompanham as negociações, contudo, alertam que o compromisso assumido por Kim, embora significativo do ponto de vista simbólico, não garante que as promessas feitas no texto serão cumpridas.

Isso porque, além de não traçar metas específicas e de não apontar as formas como se daria a checagem da entrega das armas nucleares, a Coreia do Norte almeja também a desnuclearização da Coreia do Sul, o que impediria que os bombardeiros norte-americanos atualmente lá dispostos permanecessem na península. Condição que Trump dificilmente aceitará.

Há desconfiança também quanto à real intenção de Kim em se despojar das armas nucleares. Analistas suspeitam que o gesto pode ser uma tentativa do norte-coreano de ganhar tempo, se livrando das sanções econômicas impostas, e apontam, ainda, que o país subiu perigosamente de patamar no conceito das nações ao ser chamado para negociar de igual para igual com os EUA – e isso logo depois de Trump abandonar uma reunião com a cúpula do G7, o grupo das nações de maior PIB do mundo.

De toda forma, ainda que a Coreia do Norte desista de seu programa nuclear, o planeta ainda estará distante de se ver livre das bombas atômicas. Atualmente, é sabido que nove países contam com aproximadamente 15 mil ogivas nucleares, e os investimentos no setor, ao invés de cair, têm subido nos últimos anos. Para entender a situação, é preciso retroceder a 1968, quando, em Nova Iorque, foi assinado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP).

Guerra Fria e o TNP

Filmes como “Dr. Fantástico”, “Moscou contra 007” e “Intriga internacional” retratam bem o panorama: entre o término da Segunda Guerra e o fim dos anos 1980, o mundo viveu sob a sombra de uma guerra nuclear iminente. Estados Unidos e União Soviética iniciaram uma corrida armamentista sem precedentes, cada um desenvolvendo bombas nucleares mais mortíferas que as anteriores. Foi no auge desta tensão, em 1968, que os líderes das nações com maior poder de fogo do mundo se reuniram para frear os ânimos, assinando o TNP.

O tratado estabeleceu uma linha divisória que, para muitos analistas, é demasiado arbitrária: os países que antes de 1968 já possuíssem armas nucleares poderiam mantê-las, contanto que se comprometessem a não compartilhar a tecnologia com outras nações; já os Estados que não tinham bombas atômicas estavam proibidos de desenvolvê-las.

Não por coincidência, o TNP favoreceu os países com maior poder bélico: Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França e China, todos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

Pela assimetria do acordo, diversos países se negaram a assiná-lo. Israel, Paquistão, Índia, Coreia do Norte e África do Sul foram ainda mais longe, peitando o TNP e buscando alcançar a tecnologia necessária para construir bombas atômicas. Destes, só a África do Sul, em 1989, abriu mão voluntariamente de seu arsenal bélico. Os demais, a despeito das sanções econômicas impostas por potências como os EUA, negaram-se a entregar as armas.

Após exaustivas negociações, ficou determinado que, à medida que mais países aderissem ao acordo, as potências nucleares gradativamente abririam mão de suas armas atômicas.

Depois disso o TNP prosperou de forma modesta, mas dúvidas e suspeitas ainda pairam. A Agência Internacional de Energia Atômica segue com dificuldades para comprovar se os signatários estão cumprindo as condições do acordo, nações em regiões de conflito insistem em desenvolver armas nucleares e sobram acusações de ambos os lados de que países como os EUA, Inglaterra e Rússia têm sistematicamente desrespeitado o tratado.

O investimento em armas nucleares

Porque países como Paquistão, Índia, Irã, Israel e Coreia do Norte, com tantas questões econômicas e sociais que pedem urgente resposta, preferem investir bilhões de dólares em desenvolvimento nuclear?

As respostas só são precisas se analisadas caso a caso, mas, de forma genérica, trata-se de uma questão estratégica: países com arsenal nuclear dificilmente são atacados diretamente por outras nações.

Como explicou ao portal Nexo Geraldo Zahran, professor de relações internacionais da PUC de São Paulo e coordenador do Observatório Político dos Estados Unidos,“um país que detém armas nucleares dificilmente as usará ofensivamente, mas a simples posse de poucas ogivas praticamente impede que o país seja alvo de uma invasão ou ação militar direta”.

Daí o porquê de países como Israel e Irã, situados no núcleo de disputas étnicas, econômicas e religiosas, terem ousado desrespeitar o TNP. A explicação se aplica também ao Paquistão e Índia, rivais históricos desde o desmantelamento do Império Britânico na região. E à própria Coreia do Norte, que com o fim da URSS perdeu o respaldo de grandes potências.

O problema é que, na ânsia de se blindar de ataques estrangeiros e garantir a manutenção do status quo das potências bélicas, uma nova corrida armamentista pode estar em fase de ensaios.

De acordo com o site russo Sputnik News, um relatório apresentado pelo Instituto Internacional de Estudos para a Paz (SIPRI, na sigla em inglês), que monitora a situação dos armamentos nucleares pelo mundo, os países signatários do TNP seguem desenvolvendo novas armas nucleares e modernizando seus arsenais.

Para se ter uma ideia, em 2017 o Congresso norte-americano autorizou investimentos de US$ 400 bilhões de dólares nos próximos 10 anos para o aprimoramento nuclear. Um ano antes, em 2016, um Reino Unido em plena crise de capitais injetou mais R$ 165 bilhões para renovar suas bombas atômicas. As informações são do periódico espanhol El País.

Neste cenário, em um planeta que conta com cerca de 15 mil ogivas nucleares, “não há motivação suficiente para Kim Jong-un” abandonar seu programa nuclear, disse Alexandra Bell, diretora das políticas do Centro de Controle de Armas e Não Proliferação e especialista em controle de armas do Departamento de Estado dos EUA durante o governo de Barack Obama, ao jornal The Washington Post. O encontro com Trump, assim, com toda sua pompa hollywoodiana, pode não ter passado de simples encenação.

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