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DEBANDADA

Milhares de jovens estão abandonando a Rússia

Fenômeno já tem até apelido: 'poravalism', que pode ser traduzido como 'movimento da hora de cair fora'

Milhares de jovens estão abandonando a Rússia
Cerca de 1,8 milhão de russos deixaram o país entre 2000 e 2014 (Foto: Flickr)

Milhares de pessoas, principalmente jovens de alta escolaridade, estão deixando a Rússia nos últimos anos. Os russos criaram um apelido para o fenômeno: poravalism, que pode ser traduzido como “movimento da hora de cair fora”.

Um das que deixou o país foi a ativista ambiental Evgenia Chirikova, que vive na Estônia há dois anos e meio devido à perseguição política fruto de suas críticas ao presidente Vladimir Putin.

Chirikova se tornou ativista há 11 anos, quando conheceu a reserva natural da floresta Khimki, junto com a sua família. A floresta fica em Moscou e conta com carvalhos centenários e borboletas raras. Na época, a família de Chirikova tinha se mudado para a região para fugir do agito da cidade grande e ficar mais próxima da natureza.

Durante um passeio pela floresta, Chirikova viu cruzes vermelhas pintadas em diferentes carvalhos e bétulas, indicando que seriam cortadas. Ao voltar para casa, a ativista ligou para as autoridades para relatar um possível crime ambiental de alguma empresa. No entanto, ela descobriu que o desmatamento tinha sido aprovado pelo governo para que uma rodovia fosse construída.

“Eu estava grávida, planejando um piquenique com minha filha mais velha e meu marido, quando vi uma coisa estranha. Havia cruzes vermelhas pintadas em diversos carvalhos e bétulas. Me perguntei por que essas árvores perfeitamente saudáveis precisariam ser cortadas”, disse Chirikova, em entrevista à BBC.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, teria aprovado a decisão, assinando um decreto – já como primeiro-ministro – que flexibilizava a proteção à floresta para permitir obras de “transporte e infraestrutura”, segundo membros do Ministério de Recursos Naturais.

Diante disso, Chirikova deixou seu emprego como engenheira e organizou uma oposição ao projeto. Logo na primeira manifestação do grupo “Salve a Floresta Khimki” 5 mil pessoas se reuniram e recolheram 50 mil assinaturas – um dos maiores atos em prol do meio ambiente na Rússia. Dessa forma, o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento e o Banco Europeu de Investimento pararam de financiar o projeto da rodovia.

Represália

Chirikova foi presa em diferentes oportunidades, enquanto outros ativistas e jornalistas foram perseguidos e agredidos. O editor do jornal de Khimki, Michail Beketov, que cobriu o movimento, teve o seu cachorro assassinado, o carro incendiado e foi agredido fisicamente, sofrendo sequelas no cérebro e perdendo a habilidade de falar. Poucos anos depois, morreu por causa de um ataque cardíaco.

A ativista ambiental relatou que Beketov foi agredido de forma tão brutal que perdeu alguns dedos, teve a perna amputada e parte do crânio foi retirada por causa de pancadas de uma barra de ferro.

“Minhas pernas começaram a tremer tão violentamente que sentei no chão do hospital. Pela primeira vez, eu estava realmente com medo. Qualquer um que tivesse capacidade de fazer isso com outra pessoa não tinha nenhum princípio moral. Eu me dei conta de quão mafioso era o regime que tinha tomado o poder no meu país”, disse a ativista.

No caso de Chirikova, os ataques sofridos foram através de suas filhas, com as autoridades afirmando que a ativista agredia as crianças e não as alimentava adequadamente. “Um cara do serviço secreto apareceu no meu prédio e pediu para meus vizinhos assinarem um documento dizendo que eu era uma péssima mãe”, conta Chirikova.

O pavor começou a tomar conta da família de Chirikova. A filha mais velha não queria mais ir para a escola por causa de homens mascarados que ficavam observando ela durante o caminho. Quando alguém batia na porta, as crianças se escondiam debaixo da cama por medo. A família se mudou para um bairro no centro de Moscou, mas as ameaçavas continuaram por telefone.

“Eu ficava acordada de madrugada, imaginando o que faria se fosse presa e minhas filhas, mandadas para um orfanato. No fim, foi isso que me fez tomar a decisão de sair do país”, revelou Chirikova.

Porém, mesmo que seus esforços tenham rendido um prêmio internacional, Chirikova não conseguiu impedir a construção da rodovia que liga Moscou a São Petersburgo. Mesmo assim, acredita que os planos originais mudaram para que uma menor área ambiental fosse destruída.

Fuga da Rússia

Cerca de 1,8 milhão de russos deixaram o país entre 2000 e 2014, segundo Alina Polyakova, diretora de pesquisa para a Europa no Think Tank Atlantic Council, um centro de análises políticas em Washington. Segundo Polyakova, a migração tem crescido, principalmente entre jovens com alta escolaridade, o que é uma “ameaça significativa à segurança nacional da Rússia”.

As estatísticas oficiais da Rússia mostram que 350 mil pessoas deixaram o país apenas em 2015, um número dez vezes mais do que 2010. Tendo migrado para Berlim, na Alemanha, Asya Parfenova, de 33 anos, era jornalista em Moscou, e integrou o movimento de Observação das Eleições, em 2012 e 2013. Na época, Parfenova escreveu sobre pessoas que aparentemente votaram mais de uma vez, além de urnas suspeitas.

“Sou provavelmente a única dos meus amigos que participaram da observação das eleições que nunca esteve na cadeia. Gosto de regras claras, e não temos isso na Rússia. O governo está sempre vendendo a ideia de estabilidade, mas na verdade o país é o lugar menos estável possível no momento, porque ninguém consegue prever o que vai acontecer amanhã ou como as leis vão passar a ser interpretadas – e isso é muito ruim para os negócios”, disse Parfenova, que hoje administra um Escape Room – um jogo onde os participantes ficam trancados em um quarto e precisam resolver enigmas para escapar.

O termo poravalism virou uma gíria, de acordo com o crítico de música Artemy Troitsky, que também saiu da Rússia e passou a viver na Estônia. Em 2011, diferentes intelectuais e membros da oposição participaram de protestos contra fraudes eleitorais. No mesmo ano, Troitsky enfrentou diferentes processos por difamação, deixando a Rússia também pela preocupação com os filhos.

“Passava mal com as coisas que meus filhos acabavam ouvindo na escola. Minha filha me disse que ‘fascistas estavam prestes a invadir o país e que tínhamos que nos defender’, e que Putin era uma ótima pessoa etc. etc.”, revelou, contando ainda que ainda sente saudades da Rússia, mesmo visitando o país em algumas oportunidades.

As mais novas gerações, porém, não são tão apegadas ao país, segundo Troitsky, que afirmou que apenas um quarto dos filhos dos seus amigos ainda vive na Rússia. Enquanto isso, a maioria está estudando ou trabalhando fora do país, com Londres sendo um dos destinos mais populares.

Remanescentes

Nadya Tolokonnikova foi presa aos 22 anos, quando integrava a banda Pussy Riot e foi presa, junto com outras duas artistas, por cantar “Virgem Maria, mãe de Deus, nos livre de Putin” na Catedral de Moscou. Perguntada sobre o amor que sente pela Rússa, Tolokonnikova respondeu: “Isso é como perguntar o que você ama em sua mãe. É simplesmente minha mãe, e não consigo imaginar minha vida sem ela”.

Tolokonnikova passou dois anos presa em um campo de detenção, onde passava cerca de 16 horas costurando uniformes policiais. Depois de ser libertada, fundou o site de notícias independentes MediaZona, focado no sistema Judicial, além de ter criado o movimento Zona Prova, que luta por melhores condições para detentos. Mesmo assim, seguiu vivendo no país.

“A língua é o fator número um, porque me sinto uma idiota tentando expressar meus pensamentos em uma língua diferente. Você não consegue usar detalhes, nuances e melodia em uma língua estrangeira da mesma forma como faz com a sua. Isso é precioso para mim. Além disso, há a cultura, os ícones e a religião. O cinema e a literatura. O povo russo é selvagem, perigoso, criativo e extremamente corajoso”, explica Tolokonnikova.

Segundo Tolokonnikova, a maioria que acompanha seus trabalhos têm menos de 35 anos e estão impacientes por mudanças. Segundo Tolokonnikova, as pessoas que protestaram contra a corrupção em diferentes cidades russas neste ano são motivo de esperança.

“São os verdadeiros patriotas. Não o tipo de patriota apoiador de Putin, que prefere viver no exterior e ganhar dinheiro com a indústria de petróleo e gás. As pessoas que estão protestando nesse momento contra Vladimir Putin querem tornar a vida melhor para o seu país. Eles querem desenvolver a economia, a arte, a mídia. Querem ter canais de TV melhores, não só essa maquina de propaganda oficial que a televisão é hoje”, finaliza Tolokonnikova.

Fontes:
BBC - Por que milhões de jovens com alta escolaridade estão abandonando a Rússia

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2 Opiniões

  1. Jorge Hidalgo disse:

    certamente, o “camarada” putin pode explicar muitas coisas…eu sei que vc está aí…ex KGB…que bandidão…pena que nós aqui na “terra brasilis” não temos a Estônia para ir…para onde iremos??? guianas???? peru??? equador??? ah, por favor!!!!

  2. Fernando Maria disse:

    Achei bastante interessante! Mas alguém sabe me explicar por que a Rússia também faz parte dos BRICS? achei o estado sempre muito mais desenvolvido do que os outros países dos BRICS, por isso não entendo muito bem por que os jovens abandonam o país…

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