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Paquistão

Mistura de calor e devoção é fatal em Karachi

Um artigo de opinião do 'New York Times', de Mohammed Hanif, discute a relação entre as mortes por conta da onda de calor no Paquistão e o começo do Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos

Mistura de calor e devoção é fatal em Karachi
Durante o sagrado do Ramadã, algumas pessoas relutam em pedir por água, outros hesitam em oferecê-la (Foto: Pixabay)

Durante o verão em Karachi, a capital paquistanesa, muitas pessoas têm a prática de colocar um refrigerador de água na rua para os transeuntes. Em vários lugares, não há uma única fonte pública de água potável. Vendedores ambulantes, seguranças, catadores de lixo e empregadas correm de um emprego para outro, e muitas vezes param para tomar uma bebida nestes refrigeradores.

Durante o Ramadã, que começou na semana passada, a maioria para de colocar o refrigerador. Há uma Ordem de Respeito pelo Ramadã, que diz que você pode ser enviado para a prisão por alguns meses se você comer ou beber durante as horas de jejum, ou se você der a alguém algo para comer ou beber. Para os paquistaneses, manter o refrigerador fere a sensibilidade de quem jejua.

Muitas das mil pessoas que morreram na recente onda de calor em Karachi, morreram por conta desta sensibilidade: algumas pessoas estavam relutantes em pedir por água, enquanto outros estavam hesitantes  em oferecê-la. O autor diz que mesmo que elas pudessem passar por cima de suas inibições, não havia água para beber. Afinal, durante este mês, você pode andar muito sem encontrar um gole de água. E além disso, Karachi tem se desenvolvido de uma forma que você também pode andar muito sem encontrar qualquer sombra para se refrescar.

Karachi é conhecida por matar seus moradores, mas o clima nunca tinha sido a sua arma de escolha. Ela é a terceira maior cidade do mundo, e sua população quase dobrou nos últimos 15 anos, para 20 milhões. As pessoas vão para lá para sobreviver, mesmo sabendo que pode ser um lugar perigoso. Elas deixam seus lugares de origem para viver na beira de esgotos em favelas não planejadas. Karachi abriga refugiados de países diversos como Afeganistão e Mianmar. Uma razão para tantos virem para a cidade é que o clima tinha sempre sido hospitaleiro. O inverno é apenas um boato, enquanto o verão é quente e úmido, mas normalmente suportável. A temperatura mais alta registrada durante a onda de calor atual em Karachi foi de 45°C. Outras cidades no Paquistão têm registrado temperaturas de 50°C, sem nunca sofrer o tipo de catástrofe que atingiu a cidade. Mas é difícil de encontrar sombra e uma pausa do trabalho em Karachi – mesmo no mês do Ramadã, o trabalho de uma megacidade deve continuar.

Como a maioria esmagadora dos que morreram era pobre, ninguém está pedindo uma investigação ou repensando a forma como a cidade está crescendo. As vítimas não são mártires, de acordo com autoridades religiosas, mesmo que elas tenham morrido durante o mês sagrado, muitos durante o jejum. Os meios de comunicação expressam indignação, mas com com os apagões: partindo do princípio de que, com energia suficiente, essas pessoas não teriam deixado os seus quartos com ar-condicionado e teriam tido água gelada para beber. Mas não foi realmente a falta de energia elétrica ou mesmo o calor que matou essas milhares de pessoas. O que as matou foi a devoção forçada consagrada pela lei, além do desprezo de Karachi para com os trabalhadores pobres.

 

Fontes:
The New York Times-In Karachi, a Fatal Mix of Heat and Piety

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