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Atentado em Paris

Morte à sátira

Terroristas islâmicos miram em novo alvo: os cartunistas franceses

Morte à sátira
Atentado de quarta-feira em Paris é o pior em 50 anos (Reprodução/AFP)

Foi o tipo de ataque que o governo francês vinha temendo há meses. Nesta quarta-feira, 7 de janeiro, homens armados invadiram a sede parisiense do Charlie Hebdo, um jornal satírico conhecido por publicar charges polêmicas sobre o Islã, e mataram ao menos dez pessoas. Dois policiais também foram mortos. O presidente François Hollande, que chegou rapidamente ao local, não teve dúvidas: foi “um ataque terrorista” de “extrema barbárie”. Foi também o pior atentado em solo francês há mais de 50 anos.

A escolha do alvo não foi aleatória. Há anos o Charlie Hebdo se orgulha de colocar a liberdade de expressão acima do politicamente correto. Em 2006, reimprimiu caricaturas do profeta Maomé, que causaram consternação quando foram publicadas originalmente em um jornal dinamarquês. Cinco anos depois, o jornal francês publicou uma edição inteira provocativamente intitulada “Charia” Hebdo, que dizia ter sido “editada” pelo profeta. Uma noite antes da sua publicação, a redação do jornal em Paris foi incendiada.

Desde então, os escritórios do jornal e alguns dos seus chargistas têm estado sob proteção policial. Mas isso não foi suficiente para impedir que dois terroristas, portando armas semi-automáticas, invadissem a sede e matassem jornalistas, incluindo Stéphane Charbonnier (conhecido como Charb), famoso editor e chargista do jornal. Acredita-se que um dos policiais mortos era seu guarda-costas. Bernard Maris, um economista do Banco da França que visitava a redação, também foi morto.

Em texto publicado no Pen Centre inglês, o escritor Salman Rushdie, condenado à morte pelo regime iraniano por seu romance “Os versos satânicos”, declarou seu apoio ao Charlie Hebdo e defendeu a “arte da sátira”, que chamou de “uma força a favor da liberdade contra a tirania, a desonestidade e a estupidez”.

“‘Respeito pela religião’ se tornou um código para ‘medo da religião’. Religiões, como todas as outras ideias, merecem críticas, sátira e, sim, nosso desrespeito sem medo”, disse o escritor.

Revolta generalizada na França

Com os terroristas ainda em fuga e um alerta de terror acionado em seu mais alto nível, os franceses se perguntam por que e como este ataque mortal foi possível. A França não é estranha ao terrorismo, que no país esteve mais ligado à sangrenta guerra de independência da Argélia e suas consequências. Em 1995, oito pessoas morreram em um ataque contra o metrô e mais dois morreram em um ataque similar no ano seguinte. Mais, recentemente, a França reforçou a segurança depois de ser apontada como um alvo da Al-Qaeda por vários pretextos, incluindo a sua introdução, há cinco anos, de uma proibição da burca, o véu que cobre o rosto, e as suas intervenções militares contra incursões jihadistas na África.

A globalização do jihad

Analistas calculam que este ataque, no entanto, é de uma natureza diferente. Há temores sobre a existência de cidadãos franceses que retornaram de treinamento jihadista na Síria e no Iraque. O governo estima que cerca de 1.000 franceses foram lutar pelo Estado Islâmico, já voltaram ou estão a caminho de volta. No outono passado, o governo reforçou a sua legislação antiterrorismo, numa tentativa de travar esta tendência. Mas manteve-se consciente de que um possível ataque por jihadistas de nacionalidade francesa poderia ocorrer a qualquer momento.

No resto da Europa, a reação foi uma mistura de choque e uma sensação doentia de familiaridade. Os assassinatos mergulharam o continente no conflito entre liberdade de expressão, sensibilidades religiosas e o radicalismo muçulmano, empurrando a França para o epicentro desta discussão.

Fontes:
The Economist - Death to satire

1 Opinião

  1. Ludwig Von Drake disse:

    Ditado popular ouvido há muitos anos no interior de Minas, diz que não se deve chutar cachorro sarnento e depois reclamar quando ele lhe morde o pé.

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