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UMA VIDA SEM DIREITOS

Mulheres na Arábia Saudita: uma vida de opressão

O paradoxo da Arábia Saudita, um dos países que mais oprime as mulheres, ser eleita para a Comissão dos Direitos das Mulheres da ONU

Mulheres na Arábia Saudita: uma vida de opressão
Situação das sauditas não é uma prioridade da comunidade internacional (Foto: King Khalid Foundation)

Em abril deste ano, a Arábia Saudita foi eleita para um mandato de quatro anos na Comissão dos Direitos das Mulheres da ONU. A ascensão ao posto ocorreu apenas uma semana após uma jovem saudita de 24 anos ser capturada em um aeroporto de Manila, nas Filipinas, quando tentava fugir para Austrália. Ela foi levada de volta à força para seu país de origem.

Dina Ali Lasloom fugiu da Arábia Saudita para o vizinho Kuwait. De lá, ela pegou um voo para a Austrália, com escala em Manila. Ela fugia de um casamento forçado imposto pela família e planejava pedir asilo na Austrália para iniciar uma vida nova em Sydney. Os planos, no entanto, foram por água abaixo. Assim que Dina desceu do avião em Manila viu três homens se aproximando. Eles a pegaram a força, confiscaram seu passaporte e a levaram para um hotel, onde ficou confinada até que seus tios chegassem à cidade para levá-la de volta para casa.

Antes de ser pega, Dina pediu o celular emprestado de uma turista canadense e gravou um vídeo desesperado pedindo por ajuda. “Meu nome é Dina Ali e sou uma mulher saudita que fugiu da Arábia Saudita para a Austrália em busca de asilo”, diz ela na gravação, afirmando temer violência por parte de parentes que vieram captura-lá. “Por favor, me ajude. Estou gravando esse vídeo para obter ajuda e provar que sou real, estou aqui”. Em seguida ela é levada por agentes do aeroporto, chorando e argumentando que nenhum dos homens que vieram buscá-la era seu pai e que seria ferida caso retornasse ao país de origem (confira aqui o momento em que ela tenta argumentar). De nada adiantou, ela foi levada para o hotel.

Os tios de Dina chegaram a Manila, buscaram a sobrinha no hotel e a levaram à força para um voo da Saudi Arabia Airlines com destino à capital saudita Riad. Os passageiros do voo relataram à Reuters terem visto uma mulher sendo forçada a entrar no avião enquanto gritava. “Eu escutei uma mulher gritando. Então vi dois ou três homens carregando-a Eles não eram filipinos. Pareciam árabes”, disse à Reuters uma mulher filipina que não quis se identificar. Desde então, Dina não foi mais vista. Ativistas acreditam que ela esteja em uma prisão para mulheres.

Infelizmente, o caso de Dina não é um fato isolado. A Arábia Saudita é um dos países mais rígidos do mundo para mulheres. O sistema patriarcal obriga a uma segregação perversa entre gêneros. As mulheres sauditas são obrigadas a ter um guardião homem (que pode ser o pai, o marido ou até o próprio filho). Neste sistema, ela precisa da autorização do seu guardião para basicamente tudo: estudar, viajar, casar ou ter acesso a serviços públicos. Desta forma, elas são tratadas como “menores de idade permanentes”. Não é a toa que, em média, mil mulheres fogem do país todos os anos.
A Arábia Saudita também proíbe as mulheres de dirigir e caso ela tenha alguma renda própria, esta é controlada, investida e dada de volta a ela em pequenas frações por seu guardião. Além disso, todos os anos, mulheres sauditas são condenadas por crimes relacionados à moral, como, por exemplo, ser flagrada na companhia de um homem que não seja seu parente, ser acusada por um homem da família de tentar fugir de casa ou de desobedecer a família. Este último é um crime passível de encarceramento imediato. “O mais terrível é que, uma vez que uma mulher é presa em alguma instituição, ela só pode ser libertada sob a custódia de um parente homem, do contrário pode ficar a vida inteira na prisão ou em um abrigo do governo”, disse, ao New York Times, a ativista saudita Hala al-Dosari.

O uso das mulheres como moeda de barganha também é comum. No mesmo dia em que Dina foi capturada em Manila, o presidente filipino, Rodrigo Duterte, desembarcou em Riad para uma visita oficial. Aparentemente, para a Duterte, a liberdade de uma mulher parecia passível de sacrifício para agradar o governo de um país onde trabalham cerca de 760 mil filipinos.

A situação das mulheres sauditas não é uma prioridade da comunidade internacional. Dificilmente, o assunto veio à tona na visita oficial da família Trump ao país. Na visita, Ivanka Trump se reuniu com um grupo de mulheres sauditas e disse a elas ter observado um progresso “encorajador” na questão dos direitos das mulheres sauditas. O encontro foi liderado pela princesa Reema Bint Bandar al-Saud, vice-presidente para assuntos femininos do Ministério dos Esportes. O cargo da princesa é altamente questionável em um país onde as mulheres são proibidas de praticar esportes.

Durante a visita, Trump fechou um acordo de US$ 110 bilhões com o governo saudita para a venda de armas. Enquanto isso, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita se comprometeram a doar apenas US$ 100 milhões para o fundo para mulheres criado por Ivanka.

O descaso se torna ainda mais chocante diante a eleição do país para a Comissão dos Direitos das Mulheres da ONU. “A Arábia Saudita provavelmente tem os piores resultados em todo o mundo na área de liberdade religiosa e direitos das mulheres. Eleger a Arábia Saudita para proteger os direitos das mulheres é como escolher um incendiário para chefe dos bombeiros”, criticou o diretor executivo da Ong ONU Watch, Hillel Neuer.

A Arábia Saudita não deve ser tratada apenas como um país conservador, com valores diferentes que devem ser respeitados. Tamanha repressão às mulheres requer uma resposta internacional urgente.

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3 Opiniões

  1. Miasar Abrahim disse:

    “Um milhão de mulheres abortam todos os anos na França. Elas abortam em condição arriscada por causa da clandestinidade (…)” cartacapital.com.br.
    “(…) A Arábia Saudita é um dos países mais rígidos do mundo para mulheres (…)mil mulheres fogem do país todos os anos.” (parágrafo 5).

    Será mesmo???

  2. Diego Rodez disse:

    Eh mesmo uma cultura completamente diferente! Cada país tem seus costumes…

  3. Izabel Reis disse:

    Quanto sofrimento impostos as mulheres sauditas…. Deus tenha misericórdia da Dina Ali ….

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