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Multiculturalismo na Holanda: eleições parlamentares levantam discussão

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As eleições parlamentares ocorridas no país esta semana fazem emergir questões relacionadas ao multiculturalismo historicamente associado à Holanda e especificamente ao preconceito contra os muçulmanos em território holandês.

A Holanda elegeu seus 150 deputados, num escrutínio de que participaram 24 partidos.

Os democratas-cristãos holandeses, com Jan Peter Balkenende à frente, perderam três de seus assentos no Parlamento, e agora têm 41 cadeiras.

A grande surpresa foi que o Partido pela Liberdade, de extrema-direita, conseguiu nove cadeiras no Parlamento – um número significativo – e pode vir a influenciar as decisões políticas.

O que se deve destacar é que o Partido pela Liberdade, liderado pelo deputado Geert Wilders, é conhecido pela campanha contra a imigração que vem promovendo, e pela hostilidade de sua postura diante dos muçulmanos do país.

O nome de Wilders freqüentemente é associado ao de Pim Fortuyn, um ativista que lutava contra o extremismo muçulmano e a favor dos direitos dos homossexuais, entre outras causas.

Líder do partido conservador LTF, que era contra a imigração, foi assassinado em 2002 durante a eleição para o parlamento neerlandês por Volkert van der Graaf, um ativista da esquerda ecológica.

Após a morte de Fortuyn, o partido que ele liderava conseguiu nada menos que 26 assentos no Parlamento.

A legenda liderada por Wilders levantou campanhas contra a construção de escolas religiosas e mesquitas, e ainda defendeu a proibição do uso do véu pelas mulheres muçulmanas.

Na última quarta-feira, Geert chegou a declarar à televisão holandesa que precisamos de mais decência neste país, mais educação e menos Islamismo.

A coligação que liderava a Holanda entrou em colapso no mês de junho em função de uma discussão sobre a nacionalidade da deputada liberal Ayaan Hirsi Ali.

Ela anunciou que abdicaria de seu lugar no Parlamento e que abandonaria o país, para partir para os Estados Unidos, após uma campanha feita pela ministra da Imigração, Rita Verdonk, para lhe retirar a nacionalidade.

Ayaan nasceu em Mogadíscio, na Somália, em 1964. Ex-muçulmana, ficou famosa e passou a ser perseguida e ameaçada de morte após fornecer o argumento para o documentário Submission, de Theo van Gogh – assassinado em novembro de 2004 após receber várias ameaças de morte – e pelo livro Fábrica de Filhos, em que Ayaan critica a mutilação genital, à qual foi submetida aos cinco anos de idade, num ritual curiosamente desaprovado pelo seu pai e conduzido por sua avó – curiosamente porque é comum a crítica de que as mulheres submetidas à mutilação genital geralmente são obrigadas pelos homens a fazerem a operação.

Como se vê, nem sempre é o que acontece.

Ayaan Hirsi Ali

Ayaan era deputada do parlamento holandês quando filmou Submission.

Ela viveu na Arábia Saudita, no Quênia e na Etiópia, e fugiu para a Holanda quando estava prestes a se casar com um rapaz escolhido pelo seu pai.

Ayaan teria mentido ao fornecer dados para pedir asilo político aos Países Baixos em 1992, o que teria motivado a ministra Verdonk a tentar privá-la de sua nacionalidade.

O documentário utiliza imagens fortes de uma mulher machucada e fraca física e moralmente, que aparece usando uma desafiante burca transparente, com trechos do Alcorão como se estivessem tatuados em suas costas para criticar os maus-tratos à mulher dentro do Islã.

O filme aborda a questão do casamento combinado pelos pais que impede que a própria mulher escolha seu marido, passando por cima dos sentimentos dela; dos abusos sofridos em silêncio sem que a mulher tenha a quem recorrer, e da submissão a Alá, ironizada no texto do documentário, de dez minutos de duração. O documentário pode ser visto aqui,em inglês, com legendas em espanhol.

Polêmica do uso do véu islâmico continua

Assim como em outros países europeus – França, Alemanha e o Reino Unido – as vestimentas típicas do islamismo são foco de discussões e controvérsia na Holanda.

Lenços e véus que cobrem o rosto já são proibidos a juízas e funcionárias da administração pública e em transportes e escolas públicas da Holanda, conforme afirmou a ministra Rita Verdonk à agência Reuters em 10 de novembro último.

 

Recentemente, no entanto, o Parlamento holandês chegou a estudar uma proposta de proibição do uso da vestimenta islâmica em qualquer lugar público do país – radicalidade que seria inédita na Europa, já que nunca houve no continente uma proibição nacional.

Em dezembro de 2005 foi aprovada pelo Parlamento a proposta de Geert Wilders de proibir que as pessoas cubram o rosto, em parte por questões de segurança.

Apesar de cerca de 5% da população holandesa serem compostos de muçulmanos, estima-se que em todo o país apenas 50 mulheres utilizem essa vestimenta, que cobre todo o corpo incluindo o rosto, ou o niqab – véu que cobre todo o rosto exceto os olhos.

Quando recebeu a tarefa de avaliar o projeto, a ministra Rita Verdonk já havia alertado para o fato de que ele esbarraria em questões relacionadas às liberdades individuais, já que a idéia estava relacionada a questões religiosas.

A proposta acabou sendo vetada em 18 de novembro último. Segundo a revista Economist desta semana, o banimento (do uso de qualquer símbolo religioso em escolas francesas, de acordo com a revista uma lei que focou mais na proibição do uso do véu islâmico) fez do lenço (véu) um sinal de orgulho para as meninas muçulmanas.

A Economist diz ainda que, apesar de a Holanda ter suas razões para ficar na defensiva com relação aos muçulmanos, devido ao assassinato de Pim Fortuyn e de Theo van Gogh, a vestimenta não parece um bom ponto de onde partir.

A publicação diz que em outras partes da Europa esse assunto se tornou uma questão para políticos manipularem.

Apesar de todas as questões relacionadas à imigração que têm vindo à tona, o comentário geral é de que, às vésperas das eleições parlamentares holandesas, os líderes dos partidos se concentraram mais nas reformas do que na questão da imigração.

Fontes:
O Estado de S. Paulo - Parcial dá vitória apertada a partido governista holandês
M&C News - Europe Features - No coalition in sight in Dutch election 'battlefield'
Economist - Islam in Europe: Hostility at home
Reuters -- Governo holandês promete reprimir uso de burcas islâmicos
Economist - No burqa bans
Veja entrevista com Ayaan Hirsi Ali -- parte 1
Veja entrevista com Ayaan Hirsi Ali -- parte 2

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4 Opiniões

  1. Israel disse:

    Sendo a minha opinião etnocêntrica ou não, é absurdo o tratamento dado as mulheres islâmicas.

    Recomendo que assistam ao video do Youtube.

  2. Tatyane disse:

    Essa questão levantada é muito profunda. Não é facil falar sobre multiculturalismo quando não está envolvido nele. No Brasil não enfrentamos o mesmo que pessoas na Holanda enfrentam, por isso pode ser fácil julgar. Mas entendo com toda a certeza as razões de tais impedimentos das pessoas se cobrirem assim, no Brasil não temos ameaças terroristas, temos outras coisas, mas não é o mesmo que na Europa. Não há milhares de pessoas entrando no Brasil por ano como há na Holanda e Europa. Há muitas questões envolvidas nessa discussão: respeito ao culto religioso, respeito à cultura, segurança nacional, integração. Há um problema com algumas pessoas, elas não conseguem se integrar, e por isso criam conflitos não só com os demais que são diferentes, mas muitas vezes entre os seus de sua prórpia cultura… É realmente uma loucura total um país com tantas pessoas que querem lá morar, além de não haver tanto espaço pra tantas pessoas, trabalho para satisfazer a todos, habitação, lazer, religião, há a questão de aceitação de si próprio na sociedade e das diferenças que existem na mesma sociedade… Para se discutir essa questão seria necessário muito estudo e pesquisa…

  3. Bruna C. dos Santos disse:

    Bom, Tayane, pelo menos a matéria é uma pequena contribuição à discussão, né… Bjos.

  4. Roberto disse:

    Civilizção é civilização. Bárbarie é barbárie! Vejam a entrevista de Wafa Sultan no Youtube!

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