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Dia Internacional da Mulher

Mutilação genital feminina: conheça a origem dessa prática brutal

No Dia Internacional da Mulher, o O&N fala com Maurício Santoro, da Anistia Internacional, sobre a origem desse bárbaro procedimento que anualmente afeta milhares de meninas

Mutilação genital feminina: conheça a origem dessa prática brutal
Em pleno século XXI, milhares de meninas ainda são submetidas à mutilação genital (Reprodução/Getty)

A mutilação genital feminina (MGF) é uma prática brutal, feita em meninas de cinco a 13 anos. Ela consiste em retirar total ou parcialmente a genitália feminina e costurar o local, deixando apenas dois pequenos buracos, um para a menstruação, outro para a urina.

A prática tem efeitos devastadores na saúde da mulher, como hemorragias, problemas urinários, infecções, dores no ato sexual e infertilidade, além de problemas sérios no parto. Muitas mulheres afirmam que após a mutilação passaram a sentir dores pelo resto da vida. A Organização Mundial de Saúde (OMS) acredita que há hoje no mundo cerca de 125 milhões de mulheres vítimas dessa mutilação. Até 2030, estima-se que mais 30 milhões de meninas podem ter o mesmo destino.

Na data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, o Opinião e Notícia entrevistou Maurício Santoro, assessor de direitos humanos da Anistia Internacional, para saber como, em pleno século XXI, tantas meninas ainda são submetidas a esse bárbaro procedimento.

De onde vem a MGF? Ela tem alguma raiz religiosa?

Não há um registro claro de quando essa prática teve início, mas sabe-se que foi no Egito. Apesar de estar muito associada ao Islã, ela é anterior à religião muçulmana.

Por que ela é feita? 

Em alguns casos, ela é vista como um processo de higienização da genitália feminina, considerada impura em algumas culturas. Ela também está associada à cultura machista contra o prazer sexual feminino, e é usada para impedir que a mulher cometa adultério.

Essa prática tem alguma relação com o casamento arranjado? É um pré-requisito?

São coisas diferentes, mas podem estar associadas. As noivas mutiladas são mais desejadas por causa da crença de que elas seriam menos propensas a cometer adultério.

Em que continentes/países ela é mais comum?

A maioria dos países que ainda sustentam a MGF fica no continente africano, mas também há casos no Iêmen e no Iraque. Há ainda registro dela na Ásia e em países europeus, feita por imigrantes.

Como a mutilação é feita?

A mutilação costuma ser feita por mulheres mais velhas da família. São retirados o clitóris e parte dos grandes lábios, costurando-se o restante. Esse procedimento é feito em condições precárias, com grande risco de infecção e morte, pois as meninas são mutiladas quando ainda são muito pequenas. É algo completamente diferente da circuncisão masculina, que é feita por médicos e não traz nenhum mal à saúde do homem.

Na maioria dos países onde a MGF acontece, ela é ilegal. Há alguma punição para os praticantes?

A grande questão é que, na maioria das vezes, ela é feita em áreas rurais e isoladas, por pessoas com baixo nível de escolaridade, que têm um tipo de cultura muito centrado nessas tradições. É difícil monitorar e punir.

Você acha que a atenção internacional seria maior caso se tratasse da castração masculina?

Eu acredito que sim. A gente teve no passado as castrações masculinas, às vezes para fins ligados às artes. A voz mais fina dos homens era valorizada no mercado musical. Os eunucos também praticavam a castração por fins sociais e políticos. Mas isso, hoje em dia, é inimaginável.

Em 2011, um projeto da Anistia Internacional teve sucesso em Masungbala, Serra Leoa. Após uma série de reuniões, a comunidade local decidiu banir a prática de MGF sem o consentimento, em meninas com menos de 18 anos. Nos anos seguintes, houve algum outro caso de sucesso semelhante?

Temos alguns casos, como o Egito, que tornou crime a MGF e tem feito um esforço para combatê-la. Também temos ajuda de ativistas. Hoje em dia há uma tendência internacional de combate à MGF, que, inclusive, passou a ser considerada uma violação dos direitos humanos, e não uma prática cultural legítima.

O fim da MGF é uma das metas da ONU. Você é otimista quanto à erradicação da prática?  

Sim. Eu gosto da comparação com o enfaixamento dos pés das mulheres chinesas. Durante muito tempo, na China, as meninas tinham os pés quebrados e enfaixados, porque eram consideradas atraentes as mulheres de pés pequenos. Também era um gesto brutal. Essa prática acabou sendo banida, não é mais feita na China há várias décadas. Assim como isso foi possível, a gente pode imaginar que um dia a mutilação genital feminina vai ser banida.

 

Confira abaixo um gráfico da Reuters listando os países que praticam a MGF:

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2 Opiniões

  1. Vitafer disse:

    Que absurdo!

  2. SERGIO RICARDO disse:

    É DE SENTIR A DOR…
    DEVERIA HAVER UM MEIO DE PUNIÇÃO MAIS IMEDIATA!!!!!!!!

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