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DESIGUALDADE ECONÔMICA

O cabo de guerra entre economia e política nos EUA

O que é mais importante no cenário político dos EUA, a desigualdade de renda ou a estagnação econômica da classe média?

O cabo de guerra entre economia e política nos EUA
Donald Trump fez da desigualdade de renda um dos principais temas de sua campanha (Foto: Pixabay)

Existe uma relação dicotômica entre a economia e a política nos Estados Unidos. A desigualdade de renda é maior do que em outros países e a eleição presidencial recente foi interpretada como uma vingança dos menos favorecidos, que encontraram um defensor em Donald Trump.

O candidato republicano que fez da desigualdade de renda um dos principais temas de sua campanha, também defendeu o aumento de impostos para os ricos e prometeu que restauraria a regulamentação financeira mais rígida. No entanto, desde a eleição, Trump nomeou um gabinete com um patrimônio líquido estimado em mais de US$6 bilhões. O presidente eleito convidou CEOs de grandes empresas para aconselhá-lo sobre política econômica. E preencheu postos-chave na Casa Branca com antigos executivos do Goldman Sachs. A riqueza dos assessores e dos principais colaboradores do governo não incomoda os eleitores, como muitos dos partidos de esquerda gostariam.

Na verdade, alguns argumentam que o foco na desigualdade prejudicou as chances de vitória dos democratas. A fase crítica do aumento da desigualdade de renda ocorreu há dez anos. As pesquisas de opinião pública indicam que os americanos dão menos importância à desigualdade, em comparação com as oportunidades econômicas. E os eleitores têm razão em se preocuparem com a estagnação econômica da classe média. A renda semanal média, que acompanha a inflação, não mudou no período do ano 2000 a 2014. Mas os preços dos seguros de saúde aumentaram.

Um artigo recente de Raj Chetty da Universidade de Stanford e de seus colegas mencionou “o sonho americano perdido”. Em 1970, mais de nove em cada dez jovens de 30 anos ganhavam mais, segundo o índice de inflação, do que seus pais com a mesma idade. Em 2014, esse número reduziu-se à metade.

Nessa lógica de raciocínio os democratas concentram-se em ajudar os pobres e a taxar os ricos, ignorando os sentimentos justificados da classe média. Mas há uma contrapartida a esse argumento político. A redistribuição de renda do governo também contempla os trabalhadores da classe média, com o oferecimento de benefícios sociais aos que não têm uma qualificação profissional adequada. Essa redistribuição de renda explica como Trump concorreu à presidência como um candidato populista e defensor de enormes cortes de impostos para os salários mais altos.

A ideia que o governo tem explorado a classe média talvez explique a condução da política, porém não tem uma base real na qual se apoiar. A política federal beneficia mais os assalariados da classe média do que os pobres. Um exemplo é a dedução de impostos no pagamento das taxas de juros das hipotecas. Essa dedução é um pouco maior do que as taxas de juros cobradas pelo Earned Income Tax Credit (EITC), um programa de concessão de crédito voltado para assalariados de baixa renda. Mas beneficia apenas quem tem condições de ter casa própria. Além disso, quanto maior for o valor da hipoteca, mais generosas são as deduções.

Outro exemplo é a isenção de impostos no seguro de saúde fornecido pelo empregador. Ao contrário da dedução de impostos das taxas de juros das hipotecas, essa isenção beneficia muitos trabalhadores pobres. Porém, por sua vez, ajuda ainda mais a classe média e essa desigualdade tem se acentuado nos últimos anos devido ao aumento do custo dos seguros.

Fontes:
The Economist-Inequality or middle incomes: which matters more?

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1 Opinião

  1. Markut disse:

    Ironia das ironias. Aos poucos, vem aflorando uma explicação aparentemente plausivel, para justificar a vitória, nas eleições, desse magnata psicopata.
    A coisa é mais complexa do que parecia e envolve este ambiente global, tumultuado, radical e violento, em que estamos todos mergulhados.

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