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ELEIÇÕES NA ARGENTINA

O começo do fim do kirchnerismo?

Candidato da oposição surpreende nas urnas e leva eleições ao segundo turno, com grandes chances de vencer a disputa e tirar o kirchnerismo da Casa Rosada

O começo do fim do kirchnerismo?
Resultado decepcionante do candidato apoiado pela presidente Cristina Kirchner pode indicar que o kirchnerismo está perto do fim (Foto: Presidência da Argentina)

Para quem ainda duvidava  da postura defensiva que os governos populistas da América Latina vêm tendo de adotar, o balde de água fria que o eleitorado argentino arremessou sobre o peronismo de Cristina Kirchner no primeiro turno das eleições presidenciais do país, no último domingo, 25, certamente afastou qualquer dúvida.

Nem o apoio explícito do ex-presidente Lula e do boliviano Evo Morales garantiu que Daniel Scioli — o candidato escolhido a dedo pela presidente argentina –, garantisse uma vitória em primeiro turno. Scioli terá de disputar um segundo turno com o desafiante Mauricio Macri, do partido Cambiemos. Pela primeira vez na história recente, o partido governista, Frente para a Vitória, também perdeu o controle da província de Buenos Aires, lar de um em cada quatro eleitores.

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Foi a pior noite para os governistas desde que o casal Kirchner assumiu o poder em 2003 (Em 2007 Cristina sucedeu seu marido, Néstor Kirchner, que morreu três anos mais tarde). A partir do próximo governo, que começa oficialmente em 10 de dezembro, o kirchnerismo não controlará mais o Congresso e precisará negociar acordos com a oposição para aprovar leis.

As manchetes dos jornais argentinos – a maioria dos quais é anti-Kirchner – indicavam a decepção dos governistas,  apesar de Scioli ter terminado à frente do rival: “Surpresas!”, exclamou o Clarín. “Macri triunfante”, proclamou o Perfil. “Comoção no kirchnerismo”, disse o tabloide Muy. “Desastre eleitoral para o kirchnerismo”, observou o La Prensa.

A vantagem de apenas 2,5 pontos que Scioli leva para o segundo turno indica que ele terá de batalhar duro em regiões chave do país para garantir uma vitória.  A principal batalha acontecerá em Buenos Aires – um reduto anteriormente peronista onde Scioli era governador. No maior choque da noite, a corrida para substituí-lo foi ganha pelo campo da oposição liderado por Mauricio Macri. A vencedora, María Eugenia Vidal, estava em êxtase: “Hoje, nós fizemos o impossível possível. Estamos fazendo história”, disse.

O terceiro colocado na disputa presidencial, Sergio Massa, um peronista dissidente que ganhou 21% dos votos, agora pode desempenhar o papel decisivo na segunda rodada. Tendo proclamado-se a favor da mudança, tudo indica que ele está inclinando-se para a oposição. Mas ele disse que vai pensar por vários dias, elaborar uma lista de prioridades e, em seguida, entrar em negociações sobre qual lado apoiar.

Fim da ‘onda rosa’ na América Latina?

A situação regional mudou dramaticamente desde que os Kirchner assumiram a Casa Rosada em 2003. Isso aconteceu no ponto alto da chamada “onda rosa”, na qual líderes populistas de esquerda tomaram o poder na região, entre eles Hugo Chávez na Venezuela em 1998 , Lula no Brasil em 2002, Evo Morales na Bolívia em 2005 e Rafael Correa no Equador, em 2006.

Na maior parte dos últimos dez anos, esses líderes se beneficiaram de economias fortes graças ao aumento dos preços das commodities e à forte demanda da China, que financiou expansões de políticas de seguro social, de redução da pobreza e a criação de empregos. Mas uma recessão e investigações crescentes de corrupção e má gestão erodiram o apoio desses líderes.

A maioria das administrações esquerdistas ainda está segurando as pontas, mas muitas estão por um fio. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que tem enfrentado protestos de rua e a maior inflação do mundo desde a morte de Chávez, encara eleições parlamentares difíceis em dezembro. Dilma está lutando contra o impeachment, um escândalo de corrupção e a recessão. O Equador foi sacudido por protestos neste verão e cortou suas previsões de crescimento. Apenas Morales parece relativamente incólume.

Na Argentina, a direita está otimista após a virada de domingo. Mas a esquerda ainda não está totalmente fora do pário. A campanha do segundo turno será um dos maiores testes até agora da resistência do movimento populista na América Latina.

Fontes:
The Guardian - Peronist setback in Argentina may mark breaking of Latin America's 'pink wave'
o Globo - Reviravolta de Macri pode indicar o fim do kirchnerismo

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