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CIBER-CÉREBRO

O controle de máquinas através do pensamento

Avanços na neurotecnologia podem redefinir o conceito do que é ser humano

O controle de máquinas através do pensamento
Tecnologia BCI mostra que o controle através do pensamento é algo possível (Foto: Flickr/amyleonard)

A tecnologia costuma ser classificada como algo em constante transformação. Para William Kochevar a afirmação é verdadeira. Paralisado do pescoço para baixo desde que sofreu um acidente de bicicleta, Kochevar hoje consegue se alimentar sozinho usando a própria mão.

O feito notável é possibilitado por eletrodos implantados no ombro direito de Kochevar, mas a verdadeira mágica acontece muito mais acima. Kochevar controla os movimentos usando a força do pensamento. Sua intenção de mover o braço é refletida em uma atividade neural em seu córtex motor, os sinais são detectados por implantes acoplados ao cérebro e processados em comandos para ativar os eletrodos em seus braços.

Embora tecnologias como esta pareçam saídas de filmes de ficção, mas sistemas de interface cérebro-computador como o BrainGate (utililzado por Kochevar) evidenciam que o controle através do pensamento é algo possível.

Hoje, centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo têm implantes cocleares que permitem que elas escutem ao converter sons em sinais elétricos e enviá-los para o cérebro. Um grupo de cientistas já conseguiu até mesmo “injetar” informações no cérebro de macacos para instruí-los em atividades através de pulsos elétricos.

Tais fatos mostram que os avanços da tecnologia da interface cérebro-computador (BCI, na sigla em inglês) caminham um ritmo acelerado, assim como o interesse despertado por ela. O Vale do Silício começou a se interessar pelo tema.

O Facebook, por exemplo, sonha com postagens cujo texto foi escrito via pensamento. A startup de tecnologia Kernel arrecadou US$ 100 milhões para investir em neurotecnologia. Elon Musk criou a empresa Neuralink, destinada a pesquisar o tema. Ele diz que, se a humanidade quiser sobreviver ao advento da inteligência artificial, terá que, por assim dizer, “atualizar sua versão”. Outros empreendedores interessados no assunto vislumbram um mundo onde as pessoas se comunicam telepaticamente com as outras e com máquinas ou adquirem capacidades sobre-humanas, como ouvir sons em frequências tão altas que ouvidos comuns não seriam capazes de escutar.

Tais poderes, se um dia se tornarem realidade, estão a décadas de distância. Mas muito antes disso, a tecnologia BCI pode abrir as portas para outras aplicações notáveis. Elas podem ser usadas para estimular o córtex visual para ajudar pessoas cegas, forjar novas conexões neurais em vítimas de acidente vascular cerebral (ACV) ou monitorar o cérebro em busca de sinais de depressão.

Ao transforma a atividade de neurônios em um recurso a ser aproveitado, a tecnologia BCI pode mudar o conceito de ser humano. No entanto, este processo é bloqueado por três barreiras: tecnológica, científica e comercial.

A tecnologia BCI requer implantes acoplados diretamente ao cérebro. E os que existem atualmente têm uma série de inconvenientes. Eles precisam atravessar o crânio, geram respostas do sistema imunológico e se comunicam com apenas algumas centenas dos 85 bilhões de neurônios existentes no cérebro humano.

Há também a barreira científica. Pesquisadores ainda sabem muito pouco sobre o funcionamento do cérebro, especialmente em relação a funções complexas, como a formação da memória. Embora haja avanço nas pesquisas com animais, realizar experimentos em humanos é algo complexo.

A terceira barreira é a comercialização. Leva tempo, dinheiro e experiência para que dispositivos médicos sejam aprovados. E a venda destes dispositivos somente decola se o consumidor achar viável e encontrar uma função prática para os mesmos – um simples assistente de voz é um meio mais simples de digitar sem usar palavras do que um implante no cérebro, por exemplo.

Tudo isso sugere que o caminho para o futuro imaginado pelos pioneiros da neurotecnologia é árduo, porém possível. Tais questões não são urgentes, mas o interessante é a comprovação de que elas não são apenas imaginação.

Fontes:
The Economist-Using thought to control machines

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