Início » Internacional » O crescente antissemitismo nos EUA
REFLEXO DO NACIONALISMO

O crescente antissemitismo nos EUA

O massacre na sinagoga em Pittsburgh revelou um crescente sentimento antissemita nos EUA, um reflexo da retórica nacionalista do governo de Donald Trump

O crescente antissemitismo nos EUA
Trump, por outro lado, não concorda que tenha influência no antissemitismo (Foto: Andrea Hanks/White House)

O tiroteio em uma sinagoga em Pittsburgh, o ataque antissemita com o maior número de vítimas na história dos EUA, abalou a crença dos judeus nos valores fundamentais da sociedade americana, em que pessoas de todas as raças e religiões não são discriminadas e têm os mesmos direitos como cidadãos. Em uma época em que uma política desagregadora vem disseminando o preconceito contra muçulmanos, mexicanos e árabes, os judeus começaram também a se sentirem ameaçados.

Em uma manhã de sábado, 27 de outubro, a sinagoga estava repleta de pessoas que assistiam a cerimônia religiosa do sabá, quando um homem armado com um fuzil semiautomático AK-15 e pistolas invadiu o local, matou 11 pessoas e feriu seis, enquanto fazia comentários antissemitas. Em seguida, disse a um policial, “quero matar todos os judeus”.

Ao longo da história, o antissemitismo foi acompanhado por movimentos extremistas nas mais diversas sociedades, ou foi usado como instrumento político pelos os que exploram o ressentimento contra minorias e o pensamento radical.

Embora tenha condenado com veemência o ataque à sinagoga, chamando o antissemitismo de “um mal histórico, um veneno cheio de ódio”, o discurso político e a retórica nacionalista ​​do presidente Donald Trump, que provoca discórdias e incita a violência, está incentivando a radicalização do país.

Episódios como o incidente em Charlottesville, na Virgínia, que resultou na morte de uma mulher ao protestar contra a presença de supremacistas brancos, que marcharam pela cidade cantando slogans antissemitas, são um reflexo dessa retórica nacionalista.

Porém, o presidente Trump não recua em suas posições, nem admite que contribui para esse clima hostil. Em uma mensagem no Twitter postada na segunda-feira, 29, ele fez mais um de seus ataques agressivos aos jornalistas.

“Há uma raiva em nosso país causada em parte pelos artigos da mídia incorretos e, até mesmo, fraudulentos. A Fake News Media, os jornalistas, os reais Inimigos do Povo, precisam pôr fim a essa atitude de antagonismo e relatar os fatos corretamente.”

A mensagem significou mais uma tentativa do presidente de explorar as tensões e culpar um inimigo pela situação, como uma forma de consolidar seu poder, eximindo-se, ao mesmo tempo, de qualquer responsabilidade.

Além do tiroteio em Pittsburgh, um homem que se identificou como simpatizante de Trump enviou, na semana de 22 de outubro, pacotes pelo correio contendo material explosivo endereçados ao ex-presidente Obama, a Hillary Clinton, a políticos de destaque do Partido Democrata e à sede da CNN, todos críticos da política de Trump. Em Kentucky, um homem branco matou dois negros em um ataque racista.

Segundo a Anti-Defamation League, em 2017 houve um aumento de 57% de atos antissemitas, em comparação com o ano anterior, como discursos de ódio em escolas e faculdades, cenas de vandalismo e ameaças de bombas.

Políticos de direita, entre eles membros importantes do Partido Republicano, têm usado material antissemita em suas campanhas políticas. Em 2016, em uma crítica à elite do mundo globalizado, um cartaz da campanha eleitoral de Trump mostrou, ao lado de Hillary Clinton, retratos do financista e filantropo George Soros, da ex-presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, e de Lloyd Blankfein, CEO do Goldman Sachs. Todos três judeus.

Depois que um dos pacotes com material explosivo endereçado a George Soros foi descoberto em 22 de outubro, o líder da maioria da Câmara dos Deputados, o republicano Kevin McCarthy, excluiu uma mensagem postada no Twitter em que acusava Soros, o ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, e Tom Steyer de tentar influenciar as próximas eleições legislativas em benefício dos democratas. Os três são judeus.

Há pouco tempo, o deputado republicano de Iowa, Steve King, apoiou Faith Goldy, uma candidata de extrema-direita à prefeitura de Toronto, segundo a qual o Canadá está sob a ameaça de um “genocídio da maioria branca”, e que usa material antissemita em sua campanha política.

Os recentes incidentes em Pittsburgh e em outros lugares suscitam perguntas urgentes quanto à relação entre a retórica inflamada que atrai os extremistas e a violência.

Em entrevista à CNN, Mark Hetfield, executivo-chefe da Hebrew Immigrant Aid Society, disse que há uma crescente aceitação do discurso de ódio no país, que se traduz em violência contra judeus, imigrantes, refugiados, latinos, ou contra outras minorias desprezadas pelos supremacistas brancos e por grupos de extrema-direita.

Fontes:
CNN-The Pittsburgh killings targeted Jews — and America's soul

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *