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RÚSSIA

O difícil quarto mandato de Putin

A recessão econômica, a instabilidade política e a insatisfação popular ameaçam o sucesso do quarto mandato presidencial de Vladimir Putin

O difícil quarto mandato de Putin
Putin foi eleito com 77% dos votos, o maior número de votos já registrado desde o colapso da URSS (Foto: Kremlin)

O carro usado por Vladimir Putin em sua posse causou sensação entre os espectadores acostumados a vê-lo circulando em uma simples Mercedes. Em 7 de maio, uma grande limusine preta de fabricação russa transportou Putin de seu gabinete no Kremlin ao imponente salão dourado onde os czares eram coroados. O carro, como sussurrou um de seus 5 mil convidados à posse, simbolizou a mensagem principal do discurso de Putin no qual ele destacou que, graças à sua liderança, a Rússia estava se transformando em uma superpotência moderna e autossuficiente.

Agora que “os sistemas de segurança e defesa estão garantidos”, disse Putin, o progresso do país o fará alcançar “alturas inatingíveis para outros”. Sem fazer menção ao Ocidente, Putin concentrou-se nos assuntos internos e declarou que “acreditava com firmeza que só uma sociedade livre era capaz de inovar e evoluir”. Suas palavras soaram como uma indiferença desdenhosa aos protestos de milhares de jovens, que haviam feito manifestações em diversas cidades do país dois dias antes de sua posse gritando o slogan, “Putin não é nosso czar”.

Em Moscou, os manifestantes enfrentaram não só a brutalidade das tropas de choque, como também a violência dos cossacos, uma unidade paramilitar das forças armadas, e de militantes do NOD, um movimento político de extrema-direita, com fitas de São Jorge, um símbolo nacional da vitória dos russos na Segunda Guerra Mundial, presas nas lapelas ou nas camisas. Em poucos minutos, a polícia prendeu Alexei Navalny, o líder da oposição que organizara a manifestação, enquanto os cossacos e as tropas de choque batiam nos manifestantes desarmados. Cerca de 1,6 mil pessoas foram presas em todo o país.

O uso das unidades paramilitares dos cossacos mostrou que o governo está decidido a enfrentar os movimentos de oposição com o uso da força. É possível também que tenha sido uma encenação política para mostrar que os verdadeiros patriotas russos não apoiam os partidários de Navalny. O poder de Putin se apoia na desunião do povo russo que, ao contrário dos armênios que se uniram em um movimento pacífico para derrubar o primeiro-ministro Serzh Sarksyan, não defendem uma causa comum. Enquanto os manifestantes caminhavam pelas ruas de Moscou gritando “a Rússia será livre!”, alguns russos sentados no terraço do Tekhnikum, um bistrô sofisticado, bebiam vinho branco e faziam um brinde: “a Rússia já é livre”.

A mistura de um apego ao uso tradicional da violência na repressão política e a modernização urbana no estilo europeu é um elemento-chave no sistema político autoritário de Putin. Essa estratégia permite que ele atraia tanto a classe média nas grandes cidades, quanto a população conservadora e mal remunerada das pequenas cidades e dos vilarejos da região rural da Rússia.

Putin foi eleito com 77% dos votos, o maior número de votos já registrado por um presidente após o colapso da União Soviética. A vitória confirma seu papel de líder máximo da Federação da Rússia e responsável pela união do país.

Mas o único adversário que poderia ameaçar seu poder, Navalny, foi proibido de se candidatar à eleição presidencial em março, com base em argumentos falsos. O regime autocrático do governo combate a oposição e a dissidência política e, em consequência, a liberdade de expressão. Funcionários públicos e de empresas estatais foram pressionados a comparecer às urnas, assim como os eleitores comuns. Segundo o analista político Kirill Rogov, o resultado da eleição indica uma mudança para um autoritarismo ainda mais rígido, no qual o poder do governante será mantido pelo uso da violência, em vez de dinheiro e propaganda política.

Putin enfatizou em sua campanha eleitoral e no seu discurso de posse a importância da modernização tecnológica para o progresso do país. O primeiro decreto de seu novo mandato instituiu medidas para a promoção do bem-estar social, como a melhoria nos serviços de saúde pública e da educação, além do aumento da renda dos cidadãos. Medidas difíceis de serem postas em prática devido à estagnação econômica, à imposição de sanções pela União Europeia e os Estados Unidos, e à corrupção endêmica.

A maioria das famílias foi afetada pela crise econômica com preços mais altos e renda menor. Por sua vez, os russos de classe média alta têm mais dificuldade de enviar dinheiro para o exterior e de educar os filhos no ocidente. Como resultado, é provável que os conflitos sociais se exacerbem. As pessoas com influência política regional estão se sentindo cada vez mais marginalizadas e vulneráveis. Esse cenário indica um possível aumento na instabilidade política, que dificultará ainda mais o crescimento econômico. Seu novo carro à prova de balas, um suposto símbolo do progresso do país, não protegerá Putin de enfrentar um caminho acidentado em seu quarto mandato presidencial.

 

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Fontes:
The Economist-Fresh challenges for Vladimir Putin in his supposedly final term

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