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O ensino de ‘valores ocidentais’ na China

Daniel A. Bell, que ensina teoria política na universidade Tsinghua, explica política chinesa contra valores ocidentais

O ensino de ‘valores ocidentais’ na China
É claro que o governo poderia reverter essas tendências, mas os líderes da nação sabem muito bem que um sistema educacional moderno precisa aprender o máximo que puder do exterior (Reprodução/Internet)

Ninguém está surpreso com os freios que o governo chinês impõe contra as liberdades civis e as políticas “de estilo ocidental”. Mas pode ser novidade para algumas pessoas o recente apelo para o fortalecimento da ideologia marxista nas universidades e a proibição de “materiais pedagógicos que disseminam valores ocidentais em nossas salas de aula”.

De acordo com o artigo de Daniel A. Bell no New York Times, esses regulamentos são absurdos, já que isso significaria proibições não apenas das ideias de John Stuart Mill e John Rawls, mas também de pensadores como Karl Marx e Friedrich Engels.

Segundo o autor, os pronunciamentos contra a influência dos valores ocidentais contradizem o que está realmente acontecendo no ensino superior na China. Houve campanhas recorrentes contra a interferência estrangeira desde os anos 1980, no entanto, a tendência tem sido consistente: mais ligações internacionais com universidades ocidentais, mais meritocracia e menos ideologia política na seleção e promoção de professores.

É claro que o governo poderia reverter essas tendências, mas os líderes da nação sabem muito bem que um sistema educacional moderno precisa aprender o máximo que puder do exterior.

Daniel A. Bell ensina teoria política há mais de uma década na universidade Tsinghua, uma das universidades mais renomadas da China. Ele afirma que continua surpreso com a quantidade de liberdade que tem em sala de aula.

A única exceção aconteceu pouco depois que ele chegou a Pequim, em 2004. Ele queria dar um curso sobre marxismo, mas disseram que isso não seria aconselhável, já que a interpretação dele poderia ser diferente da ideologia oficial. Direitos humanos e democracia são assuntos possíveis, mas não o marxismo. Ele diz que aprendeu a contornar essa restrição, ensinando o material, sem colocar a palavra “marxista” no título do curso.

Entretanto, a pesquisa é mais desafiadora. Ele afirma que pode publicar livros e artigos em inglês sem nenhuma interferência, mas quando eles são traduzidos para o mandarim, os censores fazem seus trabalhos.

Um livro do autor do artigo sobre a ascensão da política do confucionismo estava previsto para ser publicado em 2008, mas a obra não poderia ser publicada por causa das Olimpíadas de Pequim. Nada remotamente crítico sobre política contemporânea da China poderia ser publicado enquanto o mundo inteiro estivesse vendo o país. Outro ano “sensível” foi o de 2009, por conta do 60º aniversário da fundação da China moderna. No início de 2010, a Expo Mundial de Xangai que estava por vir deu uma desculpa para a demora. Para a surpresa dele, o livro foi de fato publicado durante um breve período político “não tão sensível” no mesmo ano.

Ultimamente, o regime de censura se intensificou. Desta vez, o principal motivo é a campanha anticorrupção do presidente Xi Jinping, que produz verdadeiros inimigos que querem minar a liderança atual. Por isso, há ainda mais restrições do que o habitual em publicações políticas, mesmo sendo acadêmicas.

Apesar do que as pessoas dizem em público, ele diz que ainda não encontrou um único intelectual chinês – socialista, liberal ou Confúcio – que argumente em discussão privada a favor da censura de trabalhos acadêmicos. A censura só serve para alienar intelectuais.

Ele diz que seus próprios alunos costumam dizer que a reforma política deve ocorrer com base no atual sistema político, e não contra ele. Mas quanto mais eles são impedidos de discutir esses pontos de vista, mais desencantados eles vão ficar, e isso significa problemas em longo prazo. A abertura, segundo o autor, só pode se beneficiar do sistema.

Daniel A. Bell conclui que acredita que as coisas vão se flexibilizar eventualmente. Mas que ele estava muito mais confiante sobre isso há 10 anos.

 

Fontes:
The New York Times-Teaching ‘Western Values’ in China

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