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Terror muçulmano

O Islã precisa de um Martinho Lutero?

'Erasmus', blog de religião da 'Economist', debate a possibilidade de um reformador islâmico para silenciar vozes violentas do universo muçulmano

O Islã precisa de um Martinho Lutero?
Martinho Lutero deu início à Reforma Protestante (Reprodução/Getty)

É possível que o Islã experimente algo parecido com uma Reforma Protestante, ou que produza seu próprio Martinho Lutero? O assunto é abordado de forma bastante inteligente na última edição da revista americana Foreign Policy.

O recente atentado em Paris torna a questão urgente porque algumas pessoas estão apontando a tragédia como prova de que o Islã é violento por natureza, intolerante e incapaz de aceitar o ideal ocidental da liberdade de expressão. Na medida em que essa visão ganha força, muitos muçulmanos concluem que, em face de tamanha hostilidade, não há motivo para tentar explicar sua fé ou buscar a compreensão dos vizinhos. De modo que as apostas são muito altas.

Lutero levantou sua voz contra o abuso do poder clerical pelas autoridades católicas do seu tempo: as maneiras pelas quais os sacramentos (os rituais que necessitam de um padre) eram manipulados para fins maquiavélicos, doutrinas eram distorcidas, e pessoas comuns negadas a oportunidade de buscar a verdade religiosa por si próprias. Lutero dispunha da autoridade de um monge católico bem treinado, versado na Bíblia e na história da Igreja. Ele não estava rejeitando toda a autoridade religiosa, ou a ideia de um sacramento como um ritual em que Deus está presente. Se tivesse tomado essa visão intransigente, ele provavelmente não teria encontrado muitos seguidores.

A resposta muçulmana

A primeira resposta dos muçulmanos para a ideia de um Lutero islâmico é geralmente argumentar que os abusos que incomodavam o protestante nunca surgiram no Islã, porque o Islã não tem sacramentos ou sacerdotes que se interpõem entre homem e Deus e monopolizam rituais. Ao mesmo tempo, muitos muçulmanos salientariam que uma “reforma” ou “renovação” de sua religião, no sentido de cortar vertentes indesejáveis e voltar à inspiração original do Islã, tem sido um tema recorrente em sua história; e eles provavelmente concordariam que algum tipo de reforma se faz extremamente necessária agora.

Argumentos apaixonados contra o terrorismo, decapitações e o abuso de poder estão sendo ouvidas dentro do mundo islâmico, apesar de receberem menos publicidade do que as vozes violentas. Há, por exemplo, a postura corajosa de Hamza Yusuf, um estudioso nascido nos EUA com um vasto número de seguidores no coração da terra islâmica. Ele denuncia o Estado Islâmico, seus objetivos e métodos. Nas últimas semanas, cerca de 300 mil pessoas têm usado a internet para ouvi-lo condenar, em termos rigorosamente islâmicos, a alegação de que aqueles terroristas são autênticos representantes do credo sunita. Sua voz vem de dentro do islã acadêmico e tradicional, assim como Lutero vinha de dentro do cristianismo sacramental, e muitas pessoas estão ouvindo.

O Islã não será reformado por gente de fora, pois ele é profundamente imune à pressão externa. Mas pode e vai mudar a partir de dentro, com gerações sucessivas reinterpretando tradições e textos fundadores. Ninguém pode prever o caminho que a mudança vai seguir no Islã porque não há um único caminho histórico ao longo do qual ele deve ou não progredir.

Fontes:
Economist - Where change comes from
Foreign Policy - Islam will not have its own Reformation

5 Opiniões

  1. Roberto1776 disse:

    Quanto mais leio sobre o Cristianismo, mais me apavoro.
    Ainda bem que o Ocidente conseguiu se livrar do Estado Cristão. Provavelmente seria tão aterrorador quanto o islamismo.
    Basta qualquer líder religioso ter um mínimo de autoridade e já começam os abusos.
    Lembro que Joseph Smith (fundador do mormonismo – menos de 2% da população americana) e principalmente Brigham Young, seu sucessor, tinham como objetivo fundar na costa oeste dos Estados Unidos (Utah, Arizona, Califórnia e Nevada, etc.) um estado Mórmon cujo nome seria DESERET, sonho que não se concretizou.
    Para as religiões não causarem mais mal do que já causaram e ainda causam basta não lhes dar poder político.
    Infelizmente, dilma não parece saber disso (vide nomeação do valdemar para ministro de seu segundo desgoverno).

  2. Claudio Cesar Pontes disse:

    O autor usou o caso da reforma protestante como exemplo de evolução “sócio-eclesiástica” (pois é… mais um neologismo)… Não está sendo discutido a personalidade de Lutero, ou sua santidade -risos-, Lutero era um homem de seu tempo, com todas as limitações de que alguém, nascido no século XVI poderia ter. Muito provavelmente não seriamos menos extremistas que os islâmicos se a igreja católica não tivesse levado um chacoalhão da reforma.
    Ao invés de decapitarmos os infiéis, jogaríamos eles na fogueira hahaha

  3. Regina Caldas disse:

    Nada mais contraditório do que um blog que leva o nome de Erasmus, sugerir um Lutero para promover a reforma do Islamismo. Lutero foi o oposto de Erasmus. Contemporâneos, Erasmus foi um homem culto, pacificador e sereno. Enquanto Lutero pregava abertamente a violência e a guerra para impor a conversão, além de ser intolerante. Ambos desejavam uma reforma da Igreja.

  4. Rabugento disse:

    E quem disse que Lutero também era santo? Vejam o que dizia o proprio reformador:

    “A Alemanha deve ficar livre de judeus, aos quais após serem expulsos, devem ser despojados de todo dinheiro e jóias, prata e ouro, e que fossem incendiadas suas sinagogas e escolas, suas casas derrubadas e destruídas (…), postos sob um telheiro ou estábulo como os ciganos (…), na miséria e no cativeiro assim que estes vermes venenosos se lamentassem de nós e se queixassem incessantemente a Deus”. – “Sobre os judeus e suas mentiras” de Martinho Lutero.

    O historiador Robert Michael escreve que Lutero estava preocupado com a questão judaica toda a sua vida, apesar de dedicar apenas uma pequena parte de seu trabalho para ela. Seus principais trabalhos sobre os judeus são Von den Juden und Ihren lügen (“Sobre os judeus e suas mentiras”), e Vom Schem Hamphoras und vom Geschlecht Christi (“Em Nome da Santa linhagem de Cristo”) – reimpressas cinco vezes dentro de sua vida – ambas escritas em 1543, três anos antes de sua morte.23 Nesses trabalhos Lutero afirmou que os judeus já não eram o povo eleito, mas o “povo do diabo”. A sinagoga era como “uma prostituta incorrigível e uma devassa maléfica” e os judeus estavam “cheios das fezes do demónio,… nas quais se rebolam como porcos” Lutero aconselhou as pessoas a incendiarem as sinagogas, destruindo os livros judaicos, proibir os rabinos de pregar, e apreender os bens e dinheiro dos Judeus e também expulsá-los ou fazê-los trabalhar forçosamente. Lutero também parecia aconselhar seus assassinatos, escrevendo “É nossa a culpa em não matar eles.”

    Essas palavras inspiraram um dos maiores monstros que a história já conheceu: Adolf Hitler…

  5. Claudio Cesar Pontes disse:

    Ótimo texto… Mas quanto a uma possível reforma acho improvável. No caso do cristianismo, a igreja católica era um jugo pesado pra seus próprios membros. No caso do Islã, a maioria dos “aspectos não desejados” recaem sobre os “infiéis” e não sobre seus seguidores.

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