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Política internacional

O massacre de Srebrenica

As lições que a Europa deveria aprender com o maior assassinato em massa desde a Segunda Guerra Mundial

O massacre de Srebrenica
Cerca de 8 mil homens e adolescentes muçulmanos foram executados (Foto: Divulgação/Michael Büker)

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Em um vídeo filmado quando as tropas do Exército Bósnio da Sérvia invadiram Srebrenica em 11 de julho de 1995, sob o comando do general Ratko Mladic, o comandante avança em direção às forças de paz holandesas da ONU cuja “área segura” acabara de ocupar. Enquanto oferecia balas às crianças muçulmanas, seus soldados preparavam-se para capturar os pais e os irmãos mais velhos, homens em idade de lutar na guerra. Cerca de 8 mil homens e adolescentes muçulmanos foram executados, a pior atrocidade na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Vinte anos depois, sentado no banco dos réus do tribunal de crimes de guerra de Haia, Ratko Mladic ainda tem a mesma expressão teimosa e desafiadora no olhar. Ele critica a atitude do tribunal; em sua opinião ele não é um criminoso de guerra, e sim um defensor de seu povo e uma vítima de uma conspiração do Ocidente. Muitos de seus compatriotas o apoiam: uma pesquisa de opinião pública realizada há pouco tempo na Sérvia revelou que, embora 54% das pessoas entrevistadas concordem que houve um crime brutal em Srebrenica, 70% negam que foi um genocídio. Ainda mais terrível é o fato de a Rússia, a pedido da Sérvia, ter vetado a resolução do Conselho de Segurança da ONU, apoiada pelos ingleses, lamentando o genocídio.

Agora, as lições do massacre de Srebrenica são evidentes. Mladic agiu com impunidade, porque os Estados Unidos e a Otan não chegaram a um consenso se iriam bombardear os sérvios. Os acontecimentos em Srebrenica romperam o impasse e os bombardeios das forças aliadas resultaram no Acordo de Dayton, que encerrou a guerra civil na Bósnia.

A intervenção abriu caminho para a adoção pela ONU da doutrina de “responsabilidade de proteção dos direitos humanos”, segundo a qual as nações têm o dever moral de intervir em casos de genocídios em outros países. A investigação judicial do massacre reforçou a credibilidade do tribunal da Iugoslávia e, a seguir, o caso foi encaminhado ao Tribunal Penal Internacional (TPI). Por sua vez, o processo de adesão à União Europeia (UE), em tese, promoveria a ordem pacífica na Europa entre os candidatos a países membros, inclusive a Bósnia e a Sérvia.

No entanto, nada funcionou como previsto. A situação política da Bósnia-Herzegovina, com suas duas entidades semi-autônomas, a República Sérvia e a Federação da Bósnia, ainda é instável, com focos de corrupção e uma democracia precária. Além disso, as negociações de adesão à UE não prosseguiram. A dinâmica do projeto europeu está em declínio. O ritmo de trabalho do TPI é extremamente lento e seus julgamentos são muitas vezes rejeitados nos países dos acusados. Depois do Iraque e da Líbia, a intervenção humanitária militar tem sido um fracasso (apesar de alguns sucessos, como em Serra Leoa). As atrocidades cometidas na Síria diminuem o impacto do massacre em massa de muçulmanos em Srebrenica, mas o mundo continua a agir como um espectador.

As potências ocidentais são culpadas pelo massacre. Suas hesitações e falta de vigor nas decisões convenceram Mladic que poderia fazer o que quisesse. Algumas das crises atuais, como a da Síria, assemelham-se à da Bósnia em 1995. Mas os que têm poder de intervir hesitam ou começam disputas inúteis que retardam a ação. Talvez essa seja a principal lição de Srebrenica: os governos precisam estar atentos aos primeiros sinais de assassinatos em massa, para que possam agir o mais rápido possível. Se esperarem que os cadáveres preencham os noticiários da televisão e que os eleitores cobrem decisões, é possível que seja tarde demais.

Fontes:
Economist-Stop genocide early

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