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O misterioso homem no jardim de Abbottabad

'Manhunt', de Peter Bergen, narra operação que culminou com a morte de Osama bin Laden no Paquistão

O misterioso homem no jardim de Abbottabad
Livro de Peter Bergen peca em ignorar a possibilidade de que bin Laden tenha sido abrigado por autoridades paquistanesas (AP)

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Um relato convincente da caçada a Osama bin Laden exige duas coisas: detalhes cativantes sobre como a missão foi realizada, e respostas a perguntas difíceis que persistem a respeito do caso. Peter Bergen, um ex-jornalista de televisão que certa vez se encontrou com o líder da Al Qaeda, tem um talento para retratos intimistas. Sua narrativa tem autoridade, embora às vezes pareça excessivamente influenciada pelas autoridades norte-americanas que garantiram o acesso do autor a seu tema.

Manhunt: The Ten-Year Search for Bin Laden—from 9/11 to Abbottabad (“Caçada: A Busca de Dez Anos por Bin Laden – do 11/09 até Abbottabad”) está repleto de observações satisfatórias. Bergen entrou no último lar de Bin Laden, um complexo em Abbottabad, no norte do Paquistão, antes dele ser demolido em fevereiro. Ele descreve as salas escuras do refúgio e dá uma boa noção de como o homem mais procurado do planeta passou seus últimos anos.

Boa parte da vida de Bin Laden parece ter sido tediosamente suburbana. Ele era um meticuloso anotador e, diz Bergen, apenas uma vez contou uma piada. Suas muitas esposas eram frequentemente ciumentas e algumas vezes infelizes. Um líder notoriamente avarento, no final ele estava tão sem dinheiro que mal conseguia pagar o seu pessoal. A família de 11 adultos e crianças se mantinha com duas cabras por semana, o mel de uma colméia no jardim e aveia Quaker de uma loja local. Os investigadores também descobriram xarope de Avena, “uma espécie de Viagra natural, feito de aveia selvagem”.

O relato de Bergen das perseguições de bin Laden também é altamente legível. Depois de ter seguido um mensageiro da Al Qaeda suspeito conhecido como “o Kuwaitiano” até Abbottabad no final de 2010, os espiões norte-americanos sentaram-se por seis meses e observaram. Usando aviões-robô, eles estudaram os ocupantes do complexo e contaram as peças de roupa na linha de lavagem para adivinhar quantos adultos viviam na casa. Suas suspeitas foram levantadas pelo lixo que foi queimado no quintal, e não simplesmente descartado; a falta de uma conexão de internet em uma casa cara; e moradores que evitavam o contato local. O mais interessante era uma figura misteriosa, que realizava caminhadas matinais em seu jardim, debaixo de uma lona grande.

 

 

Barack Obama está agora promovendo sua corajosa decisão de enviar soldados para realizar a missão, ao invés da escolha mais fácil de jogar uma bomba. Bergen pinta um quadro muito positivo do presidente, sua equipe e todos os envolvidos na caçada. Mesmo um acidente com um helicóptero na noite do ataque não perturbou a eficiente operação dos soldados norte-americanos. Eles mataram bin Laden (prisão e julgamento praticamente não foram considerados) e todos os outros homens adultos no prédio, entrando e saindo do território paquistanês sem aviso ou resistência.

Tudo isso, e uma boa escrita, mantêm as páginas virando rapidamente. Mas o livro de Bergen às vezes se torna decepcionante. Um escritor mais crítico teria prestado mais atenção não somente à caça, mas também à questão de por que bin Laden conseguiu escapar da captura por tantos anos. Alguma autoridade paquistanesa, talvez um agente corrupto dos Serviços de Inteligência (ISI), o protegeu? Isso é importante: se bin Laden estava de fato em um refúgio dos ISI, isso ajudaria a explicar por que as relações entre os Estados Unidos e o Paquistão têm se tornado tão perigosamente confrontativas nos últimos 18 meses.

Muitas evidências circunstanciais apontam para a cumplicidade do Paquistão. Bin Laden e sua família passaram mais de cinco anos em uma cidade militar repleta de generais reformados. Uma segurança pessoal bastante modesta (ele não tinha guarda-costas e sua família utilizava telefones celulares) sugere que ele se sentia à vontade, talvez protegido por outros. Sua casa estava a menos de 1,5 km da mais prestigiada academia militar do Paquistão, e os vizinhos relatam um controle regular de suas casas por homens de segurança. Líderes norte-americanos, como Hillary Clinton, haviam dito anteriormente que os paquistaneses poderiam estar abrigando bin Laden, assim como protegem líderes do Talibã afegão. Obama recusou-se a alertar as autoridades paquistanesas do ataque.

No entanto, Bergen rejeita firmemente a idéia de cumplicidade oficial do Paquistão, e acrescenta que a análise do material encontrado no esconderijo não oferece nenhuma evidência em contrário. Ele não pára para descrever como militares do Paquistão muitas vezes colaboram com os extremistas. Ele também não menciona um humilhante ataque da Al Qaeda a uma base naval em Karachi semanas depois do assassinato de bin Laden – suspeita-se que esse ataque também foi ajudado por pessoas dentro do Paquistão. O livro de Bergen está cheio de detalhes, mas ele passeia muito rapidamente pelo complicado lado paquistanês da história. A versão completa dessa história ainda não foi escrita.

Fontes:
The Economist - Hide, but you can’t run

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