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O multiculturalismo alemão falhou?

Livro polêmico e declaração de Angela Merkel revelam preocupação dos alemães com a imigração

O multiculturalismo alemão falhou?
Angela Merkel tentou entrara no espírito do momento, declarando que o “multiculturalismo havia falhado absolutamente”

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Há poucos meses, os alemães se vangloriavam de sua seleção de futebol multicultural. Eles não chegaram a vencer a Copa do Mundo, mas tiveram um belo desempenho com seu zagueiro de origem ganesa, seu meio-campista com ancestrais turcos, e seu atacante polonês. A Alemanha “aberta para o mundo” certamente se valeu de uma grande propaganda. No entanto, agora, o que se vê é um Alemanha anti-imigrantes, anti-islâmica e saudosa dos anos 1940. Por quê? E qual delas é a verdadeira Alemanha?

O responsável por estragar o clima harmônico é Thilo Sarrazin, autor de um livro polêmico (“Deutschland schafft sich ab” ou “A Alemanha se autosabota”), que defende a tese de que a população alemã está emburrecendo biológica, cultural e profissionalmente, graças aos imigrantes. O livro foi rapidamente esquecido, mas o sentimento anti-imigração cresceu como uma bola de neve, e deu origem a um debate feroz sobre o que fazer com os 16 milhões de imigrantes que vivem hoje no país, especialmente os 4 milhões de muçulmanos. Mesmo os que atacam Sarrazin reconhecem que ele pôs o dedo na ferida: a Alemanha claramente não está integrando seus imigrantes social e economicamente. Muitos abandonam a escola e vivem do seguro-desemprego. Uma preocupante minoria forma “sociedades paralelas” e alguns poucos planejam ferir seus vizinhos alemães.

De acordo com pesquisas recentes, a população alemã acentua o lado negativo. Muitos são favoráveis a uma “grande restrição” das práticas religiosas, um terço acredita que o país está abarrotado de estrangeiros, e um décimo dos alemães diz que gostaria de um Führer (embora não aquele Führer) forte. Alguns políticos conservadores tomaram para si o papel temendo que a onda fosse aproveitada por populistas irresponsáveis. Horst Seehofer, primeiro ministro da Bavária, e líder da União Social Cristã, filial regional do partido do governo, a União Democrática Cristã (CDU) deu o maior passo entre os políticos respeitáveis: “a Alemanha não é uma terra de imigração”, declarou ele, “e certamente não precisa de mais imigrantes de backgrounds culturais diferentes”, leia-se turcos e árabes.

Angela Merkel tentou entrar no espírito do momento, declarando que o “multiculturalismo havia falhado absolutamente”. Sobre os trabalhadores temporários, cujos descendentes formam grande parte da população de imigrantes, a chanceler declarou: “Fomos ingênuos e acreditamos que eles não ficariam no país, mas não foi o que aconteceu”. Tais declarações eram fatos disfarçados de epifanias para se adequar ao clima popular. Mas o populismo não é a praia de Merkel. Mesmo declarando o fracasso do multiculturalismo, ela admitiu que o Islã é “parte da Alemanha”.

A ambivalência da chanceler é uma peça-chave para o entendimento do estado atual da Alemanha. A verdade é que por muitos anos, o país esperou que os trabalhadores da Turquia e de outros países deixassem a Alemanha, como convidados educados. Depois flertou com a ideia do “multi-kulti”, na qual os estrangeiros poderiam viver no país sem pertencer inteiramente a ele. Recentemente os alemães, ou ao menos a classe política nacional, passou a aceitar que a Alemanha era um “país de imigrantes”, com a obrigação de integrar inteiramente os estrangeiros na vida nacional. Merkel fez disso a principal característica de seu mandato, realizando “encontros de integração” e desenvolvendo um plano nacional de integração, que prevê cursos de alemão e encaminha os trabalhadores diretamente para os empregos. O novo consenso é de que a imigração é uma “via de duas mãos”, que exige esforços tanto dos anfitriões quanto dos imigrantes.

O presidente Christian Wulff usou o aniversário da reunificação para reafirmar o papel do Islã na sociedade alemã de maneira mais convincente que a chanceler (recentemente, numa viagem à Turquia, ele lembrou a população local de que o cristianismo tem lugar no país). Os negócios do país estão ansiosos por mais imigrantes, de qualquer lugar que seja, desde que tenham habilidades que possam ser usadas. O governo trabalha numa lei que facilitará o reconhecimento dos milhões de imigrantes, para que eles possam fazer algo mais que limpar casas. No entanto, o governo deve se apressar: o seguro social facilita que muitos imigrantes fiquem à toa, e as escolas devem trabalhar mais para acelerar o processo de aprendizado das crianças estrangeiras. Mas a ideia de que Sarrazin descobriu um problema que as autoridades vinham ignorando é falsa.

A falha das autoridades foi na verdade fazer com que a população alemã aceitasse as mudanças que vêm acontecendo. Esse cenário é preocupante, pois revela um aumento no distanciamento entre os cidadãos e os políticos, que se manifesta no número cada vez maior de abstenções eleitorais, no declínio dos dois principais partidos (o CDU e os Social-Democratas), e um aumento na ação política fora do sistema partidário, como em Stuttgart, onde um ambicioso projeto ferroviário foi atrapalhado por meses de protestos nas ruas.

O debate atual questiona as condições em que os imigrantes serão aceitos. Serão instruídos a abraçar a leitkultur (cultura dominante) alemã, como pedem alguns conservadores? Parece um pedido razoável, mas soa como arrogância para muitos imigrantes. Os muçulmanos serão forçados a escolher entre sua prática religiosa ou a adoção de uma identidade alemã?  Isso seria nada razoável e autodestrutivo. Ou irão os políticos defender o toma-lá-dá-cá, destacando benefícios e obrigações que tornarão a imigração tolerável para ambos os lados?  Os líderes alemães tinham a visão correta antes da polêmica de Sarrazin. É importante colocá-la em prática, e defendê-la.

Leia mais:

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O fim oficial da Primeira Guerra Mundial

Fontes:
Economist - Is multi-kulti dead?

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