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Quando se fala em petróleo, quase automaticamente pensamos no Oriente Médio, região de intermináveis conflitos políticos e com imensas reservas do chamado “ouro negro”. Esquece-se, no entanto, que vastas quantidades de petróleo estão presentes nas Américas, mais perto do que imaginamos.
A província de Alberta, no Canadá, dispõe da segunda maior reserva comprovada de petróleo do mundo. Trata-se de uma área do tamanho do estado americano da Flórida, que guarda 174 bilhões de barris do combustível fóssil mais cobiçado do planeta, que, segundo acreditam alguns estudiosos, já atingiu o seu pico de produção.
“Os países consumidores de petróleo e as companhias estão passando por um período onde precisam pensar estrategicamente onde eles poderão conseguir petróleo quando esta reserva chegar ao fim”, disse Simon Dyer, analista de políticas ambientais, para o documentário Toxic Alberta, feito para a rede de conteúdo online VBS.
Diante da escalada do preço do petróleo no mercado mundial — cujo valor de US$ 150 já não soa tão absurdo quanto se poderia supor há poucos meses — terras canadenses podem se constituir como uma interessante fonte para se obter este recurso energético. Mas, diferente do que possa parecer, extrair o petróleo da região não é tão simples assim, já que o óleo se encontra em meio às chamadas oil sands, ou areias betuminosas.
Segundo o professor do departamento de Geologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Cláudio Valeriano, o betume é um dos componentes do petróleo, dentre os quais existem substâncias mais leves, como a gasolina, e outras mais pesadas, como o óleo diesel. O mais pesado de todos é o betume, que tem uma consistência de piche e que já perdeu todas as suas frações voláteis. “Nas areais betuminosas, portanto, só existe esse resíduo, que é muito difícil de extrair porque ele não escorre, não flui como o petróleo”, analisou Cláudio Valeriano.
Bem aqui, em terras brasileiras, contamos também com um dos maiores volumes mundiais de xisto, uma rocha rica em betume cuja separação é similar ao que ocorre com as areias canadenses. Segundo estimativas, só na formação Irati, localizada nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Goiás, o país tem reservas de 1,9 bilhão de barris de óleo e 68 bilhões de metros cúbicos de gás combustível.
Criada em 1954, a Superintendência Industrial de Xisto (SIX) da Petrobras atua na exploração do xisto betuminoso na região de São Mateus do Sul, Paraná. A empresa brasileira processa diariamente 7.800 toneladas de xisto betuminoso, que geram 3.870 barris de óleo.
A extração do betume em Alberta é feita a céu aberto –- cerca de 80% acontece desta forma — ou através de mineração, quando o betume é encontrado sob a superfície. O processo mais comum é a retirada das areias por enormes caminhões, que seguem em direção às plantas de beneficiamento. Lá é feita a separação do betume através do calor, quando ele se liquefaz. Quando a substância se encontra em locais mais profundos, é preciso utilizar vapor, solventes e fogo para fazer o betume fluir até o local onde ele será bombeado até a superfície.
Para se obter um barril de betume, é preciso processar duas toneladas de areia e, de acordo com dados da própria indústria envolvida, cada barril de óleo necessita de dois a cinco barris de água para amolecer o betume. De acordo com matéria publicada na revista Economist, na edição de março deste ano, o processo de transformação das areias betuminosas em combustível é responsável pela emissão de três vezes mais gases causadores do efeito estufa do que um barril de petróleo convencional é capaz de produzir.
De acordo com o governador de Alberta, Ed Stelmach, a província canadense tem se esforçado para reduzir o impacto ambiental da produção de betume. “A utilização de água [envolvida no processo] sofreu uma redução significativa. O investimento em seqüestro e acúmulo de carbono nos ajudará a atingir nosso objetivo de diminuir a intensidade de emissões até 2020”.
Apesar das aparentes tentativas das autoridades locais para reduzir os impactos ambientais em Alberta, no último dia 24 de julho, 11 ativistas da ONG Greenpeace foram presos na província de Alberta. Eles haviam invadido a propriedade da Syncrude Aurora Oilsands e bloquearam um cano que, segundo eles, escoava água residual contaminada para o mesmo lago onde 500 patos haviam morrido no início de 2008. Os manifestantes levaram um cartaz que dizia World’s Dirtiest Oil: Stop the Tar Sands (“O Petróleo mais sujo do mundo: parem as extrações na areias betuminosas”).
Promessa de oportunidades
O que uma cidade com 65 mil pessoas e temperatura média de -20ºC no mês de janeiro, durante o inverno, pode oferecer? A resposta é revelada no documentário Toxic Alberta, feito para a rede de conteúdo online VBS. A série mostra o que tem ocorrido em Fort McMurray e nas regiões que cercam as areais betuminosas do Canadá.
Em meio a uma espessa camada de neve, em um estacionamento para trailers, um trabalhador, que não quis se identificar, conta: “Eu vivia em um apartamento lá na minha cidade, não estava indo a lugar algum, não conseguia dar uma guinada na minha vida. Tenho mulher e filhos, mas não conseguia mantê-los. Foi quando me falaram: ‘Ei! Sei que você detesta o que estas empresas estão fazendo por aqui, mas posso pagar o suficiente para que consiga sustentar sua família e consiga viver feliz em sua casa’. Todo homem tem seu preço, cara”.
Com um salário médio de $ 7,750 dólares canadenses por mês e uma crescente oferta de empregos em companhias como Chevron, Exxon, Suncor, Syncrude, Shell e BP -– que não querem ficar fora da corrida pelo petróleo –- trabalhadores correm para conseguir o seu lugar ao sol. Há apenas 20 anos, Fort McMurray abrigava uma pequena população de 25 mil pessoas. Hoje, segundo o governador de Alberta, já passam de 65 mil, com previsão de atingir 100 mil em um futuro próximo.
Com o inchaço da região, que não tem sequer moradia suficiente para comportar todos os novos residentes, o mercado imobiliário sofreu uma forte valorização, com o aluguel de apartamentos de apenas um quarto custando de $ 1,5 mil a $ 1,8 mil dólares canadenses por mês. “As pessoa que eu conheço, que moram em Edmonton [capital de Alberta], estão sentindo no seu próprio orçamento a valorização dos imóveis. Os aluguéis estão quintuplicando, eles falaram. O custo de vida está subindo na mesma proporção que os salários”, relatou o professor Cláudio Valeriano, que conhece bem a região.
Prostituição, drogas e criminalidade já são uma grave realidade em Fort McMurray, que até pouco tempo atrás era pacata e esparsamente habitada. “Continuamos com um plano de atuação agressivo e fortes investimentos financeiros para manter e melhorar os serviços e a infra-estrutura que os moradores de Alberta -– de diferentes gerações e outros recém-chegados –- solicitam e merecem”, afirmou Ed Stelmach. Segundo ele, que não especificou valores, centenas de milhões de dólares foram investidos, apenas nos últimos dois anos, neste sentido.
Resta saber se a ganância pelo petróleo não colocará em risco uma das regiões mais belas e democráticas do mundo, como é o caso do Canadá.