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Celebridade do tráfico

O perigoso romantismo em torno de Joaquín ‘Chapo’ Guzmán

Nova fuga do traficante mexicano gera mais fascínio do que indignação. Por quê?

O perigoso romantismo em torno de Joaquín ‘Chapo’ Guzmán
'El Chapo' Guzmán na cidade de Almoloya, em 1992 (Foto: Fabrizio León Diez/ Wikipédia)

Como explicar o fascínio em torno de Joaquín “Chapo” Guzmán, líder do cartel mexicano de Sinaloa, um dos maiores do mundo? Apesar de os chefões do tráfico terem menos importância hoje do que na época do colombiano Pablo Escobar (1949-1983), a notícia de que “Chapo” havia fugido, pela segunda vez, de uma prisão de segurança máxima no México no último sábado, 11, foi destaque nos principais jornais mundiais.

Assim como as multinacionais de sucesso, os cartéis souberam descentralizar suas estruturas, diluindo o poder no topo, de modo que seus líderes se tornaram dispensáveis na administração dos negócios. Por que, então, as peripécias do “baixinho”, como Guzmán é chamado, ainda provocam tanto alvoroço?

Leia também: ‘El Chapo’ foge da prisão (de novo) e humilha governo do México

A mitologia em torno de “Chapo” não surgiu do dia para noite. Sua história, ou pelo menos a forma como ela é contada, tem elementos familiares: um menino pobre que cresceu vendendo laranjas numa zona rural de Sinaloa, e que foi parar no cartel de Guadalajara quase que por acaso. Apesar da crueldade atribuída à sua organização criminosa, no imaginário popular “Chapo” é distanciado dela, sendo conhecido mais por sua mente empresarial do que por sua violência.

Sua capacidade de sedução, principalmente entre a população pobre do México, se deve a sua imagem de bandido ao estilo Robin Hood. Seu cartel atua em regiões amplamente negligenciadas pelo governo, enquanto ele é conhecido por distribuir dinheiro e construir moradias para os pobres, além de ser uma pessoa que dispensa luxos pessoais.

Especialistas também apontam para sua esperteza de homem de negócios. Ele teria antecipado o futuro do narcotráfico ao diversificar as drogas vendidas e valorizar as rotas em seu comando mais do que a natureza da mercadoria que passa por elas, permitindo o contrabando de produtos diversos.

Propaganda pessoal

“Chapo” também é conhecido por histórias anedóticas. Apreciador da boa comida, ele costumava frequentar restaurantes populares com seus capangas. Ao final de uma refeição, cumprimentava cada um dos presentes, pagava a refeição de todos e deixava uma gorjeta generosa para os garçons. Quando sua mulher engravidou, mandou-a para um dos hospitais mais caros de Los Angeles. Apesar de ser monitorada pelas autoridades americanas, a moça conseguiu entrar e sair pela porta da frente, sumindo de vista assim que voltou ao México.

Lista da Forbes

A fortuna pessoal de “Chapo” é estimada em US$ 1,25 bilhão, o que o coloca entre os bilionários da revista “Forbes” e também facilita a compra do silêncio e da cumplicidade de centenas de pessoas ao longo dos anos.

Sua nova fuga é uma vergonha para o governo mexicano de Enrique Peña Nieto, que há um ano dizia que seria “imperdoável” deixar “Chapo” escapar novamente. Em 2014, apesar dos insistentes pedidos das autoridades americanas, Peña se recusou a extraditar o criminoso porque achava que mantê-lo preso no México era importante para a soberania nacional. Esse orgulho patriótico virou humilhação.

Mas não se engane. Apesar da fuga cinematográfica e de toda a mitologia em torno de sua figura, “Chapo” é o maior responsável por uma empresa criminosa que mata quem estiver em seu caminho. Com tamanha repercussão dada a sua última fuga, a esperança é que ela sirva, no mínimo, para abrir um debate franco sobre a legalização das drogas. Essa parece ser a única forma de arrancar o mal pela raiz.

Fontes:
Folha - O que significa a nova fuga de 'Chapo' Guzmán?

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