Início » Internacional » O polêmico leilão da estátua de Tutancâmon
IMPERADOR EGÍPCIO

O polêmico leilão da estátua de Tutancâmon

Autoridades do Egito tentam proibir a venda da estátua do faraó Tutancâmon, a principal atração do leilão em julho da Christie’s

O polêmico leilão da estátua de Tutancâmon
A casa de leilão espera alcançar a cifra de US$ 5 milhões com a venda da estátua (Foto: Christie’s)

Quando a casa de leilões Christie’s anunciou a venda de uma escultura do faraó Tutancâmon de 3 mil anos em um leilão em Londres, as autoridades egípcias alarmaram-se.

O Ministério de Antiguidades do Egito informou que está tentando impedir a venda até a conclusão das investigações sobre a origem da estátua de quartzito marrom, que representa o rosto do faraó como o deus Amon. A Christie’s espera vendê-la por mais de US$ 5 milhões, um preço alto para o mercado de antiguidades.

Mas a estátua do faraó Tutancâmon é uma peça rara entre os objetos do Antigo Egito. Além dos famosos tesouros de seu túmulo, as poucas estátuas do faraó fazem parte dos acervos dos grandes museus do mundo. Que colecionador não gostaria de tê-la em sua coleção particular?

A Christie’s garantiu que a venda é perfeitamente legal e que os detalhes da peça constavam do catálogo do leilão enviado às autoridades egípcias. “A Christie’s segue com rigor as normas dos tratados bilaterais e das leis internacionais de proteção do patrimônio cultural”, observou um porta-voz da casa de leilões.

Autoridades do Egito, Grécia e Turquia argumentam que, apesar das restrições impostas pelas convenções internacionais e do exame criterioso dos museus e das casas de leilões em relação à documentação dos objetos antigos que lhes são oferecidos, peças adquiridas ilegalmente ainda são comercializadas no mercado de arte mundial.

Nos últimos cinco anos, o Egito recuperou 1.500 objetos contrabandeados para diferentes países, além de mais de 22 mil moedas. Em 2011, muitos objetos antigos foram saqueados no Egito durante a Primavera Árabe, um movimento político que depôs o ditador Hosni Mubarak.

Os artefatos foram roubados de museus do Cairo e do Museu Nacional de Malawi, no Alto Egito. “Em meio ao caos que se seguiu à derrubada de Mubaraki, houve um aumento nas escavações ilegais em locais históricos”, disse Shaaban Abdel Gawad, diretor-geral do Ministério de Antiguidades do Egito.

O Ministério de Antiguidades inspeciona com regularidade a origem dos objetos do Antigo Egito à venda nos mercados internacionais e exige seu retorno quando descobre que foram contrabandeados ou vendidos depois da lei aprovada em 1983, que proibiu o comércio e a exportação de antiguidades.

Em 2016, a casa de leilões Bonhams, em Londres, devolveu oito placas de madeira com inscrições em alto relevo que tinham sido roubadas de uma mesquita no Cairo. Dois anos depois, Bonhams devolveu um raro manuscrito islâmico do século XIV. “Acompanhamos as vendas de antiguidades nas casas de leilões e nos sites de vendas na internet”, disse Gawad.

Gawad orgulha-se de ter recuperado o sarcófago banhado a ouro datado do século I a.C. de Nedjemankh, um sacerdote do deus Herychef, vendido com uma documentação falsa ao Metropolitan Museum de Nova York, em 2017. O museu devolveu o sarcófago em meados de fevereiro com um pedido de desculpas ao governo do Egito.

Maria Miñana, especialista em obras de arte antigas do programa de combate ao tráfico ilegal de bens culturais da Unesco, disse que é muito raro que museus e instituições públicas adquiram objetos de origem obscura ou com documentação suspeita.  

No entanto, as obras antigas que não constam dos inventários das instituições culturais ou do banco de dados de objetos roubados da Interpol são difíceis de localizar. Miñana citou, como exemplo, peças encontradas em escavações ilegais em zonas de conflito na Síria, Iraque, Líbia e Egito e contrabandeadas para o exterior. 

“Os artefatos provenientes de zonas de conflito são vendidos no mercado negro. Colecionadores particulares inescrupulosos mantêm as obras de arte antigas compradas no mercado negro em suas casas, onde estão protegidas das investigações de especialistas em comércio ilegal de objetos culturais e da polícia”.

Abdel Gawad gostaria que mais países adotassem leis semelhantes ao projeto de lei aprovado pelo governo da Alemanha em 2016. Segundo a lei, os comerciantes de antiguidades precisam apresentar uma licença de exportação do país de origem do objeto a ser vendido e documentos que comprovem que foram importados legalmente.

Com uma opinião mais radical, Monica Hanna, uma egiptóloga egípcia, defende a proibição da venda de antiguidades. “Assim como o comércio de diamantes extraídos das minas em zonas de conflito financiam as atividades de grupos rebeldes, a venda de objetos antigos pode ter a mesma função”, disse.

Em 2017, as autoridades italianas confirmaram que o Estado Islâmico (Isis) havia saqueado sítios arqueológicos na Líbia e vendido os objetos roubados para grupos do crime organizado no sul da Itália em troca de armas.

 “Em um círculo vicioso, o mercado legal de obras de arte antigas alimenta um comércio ilegal. É um mercado que movimenta grandes somas de dinheiro e, por isso, atrai figuras do crime organizado que contrabandeiam as obras e falsificam os documentos de posse e transferência de propriedade”, observou Hanna.

Fontes:
Financial Times-Tutankhamun auction raises questions of provenance

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *