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ORIENTE MÉDIO

O que está por trás do isolamento do Catar?

A justificativa de combate ao terrorismo usada por seis países para cortar laços com o Catar esconde uma antiga disputa de poder no Oriente Médio

O que está por trás do isolamento do Catar?
Ambições do Catar há muito incomodam a Arábia Saudita (Foto: Flickr)

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A Arábia Saudita cassou nesta terça-feira, 6, a licença da Qatar Airlines para operar em território saudita e ordenou o fechamento de todos os escritórios da empresa aérea no país. Trata-se de mais um capítulo da guerra diplomática tomou o Golfo Pérsico, após seis países da região cortarem laços diplomáticos com o Catar.

Liderados pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein, Egito, Iêmen e Líbia anunciaram o rompimento das relações diplomáticas com o Catar. A justificativa foi a acusação de que o Catar alimenta a instabilidade no Oriente Médio fornecendo apoio a grupos terroristas. A afirmação, no entanto, esconde um embate antigo entre a Arábia Saudita e o Catar, que tem entre seus principais fatores a aliança do país com o Irã, o principal rival saudita no Oriente Médio.

O fator Irã

Sob as águas do Golfo Pérsico que separam o Catar e o Irã, está localizada a maior reserva de gás natural do planeta. Com 9.700 km² ela guarda pelo menos 43 trilhões de metros cúbicos de reservas de gás. A parte que corresponde ao Catar é chamada Campo Norte, e a fatia do Irã se chama Parte Sul. Os dois países compartilham os direitos de exploração na região, um dos muitos laços que os unem. A abundante reserva de gás faz do pequeno Catar um dos países mais ricos do mundo.

Somado a isso, está a busca por uma política externa independente da hegemonia saudita que domina os vizinhos do Golfo. Em entrevista a Al Jazeera, Souzan Krdli, analista política especializada no Golfo Pérsico, explicou que mais do que exigir a fidelidade de Doha, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos querem dominar o Catar e fazer dele “um novo Bahrein”, subjugado em termos de política externa. “A Arábia Saudita e os EAU há muito se incomodam com o alcance a as ambições diplomáticas do Catar”, disse Krdli.

Esse incômodo alcançou um novo patamar nas últimas semanas. Um artigo publicado na mídia estatal do Catar citou uma aspa do chefe de Estado do Catar, o emir Tamim bin Hamad Al Thani, enaltecendo o Irã e classificando como “boas” as relações entre Doha e o governo de Israel. O governo do Catar classificou o artigo, que elogia os maiores inimigos sauditas, como fake news, mas não convenceu a Arábia Saudita e seus aliados. Essa situação piorou há poucos dias, após Thani telefonar para Hassan Rouhani para parabenizá-lo pela sua reeleição como presidente do Irã. A ação foi recebida como um claro ato de desafio à política saudita contra o Irã.

Além disso, o fato de o Catar apoiar grupos islâmicos voltados para a política, como a Irmandade Muçulmana, o Hamas e grupos rebeldes na Líbia e na Síria, configuram uma ameaça existencial à monarquias do Golfo Pérsico. Em 2014, por exemplo, a Arábia Saudita e o EAU chegaram a retirar temporariamente seus embaixadores do Catar por conta do apoio do país à Irmandade Muçulmana durante a Primavera Árabe.

Na Síria, o Catar tem sido o maior patrocinador das forças rebeldes que tentam derrubar o regime de Bashar al-Assad. O governo do Catar também financia a Al Jazeera, maior emissora árabe do mundo que frequentemente tece críticas contra a Arábia Saudita e outros países do Golfo Pérsico.

Para alguns analistas a ousada resposta da Arábia Saudita ao Catar foi impulsionada pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Em uma recente viagem à capital saudita Riad, Trump reafirmou a autonomia saudita para lidar com suas questões políticas, o que estimulou o país a tomar medidas que não cogitava durante o governo de Barack Obama. O corte das relações diplomáticas foi elogiado por Trump nesta terça-feira, 6. Em sua conta no Twitter, ele afirmou que a pressão sobre países árabes para combater o terrorismo “rendeu frutos” após os Estados do Golfo isolarem o Catar.

Há anos, vários países do mundo usam o combate ao terrorismo como bode expiatório para ações radicais de governos contra desafetos políticos. Desta vez, o alvo é o Catar. Embora seja dono de uma imensa riqueza, o rompimento diplomático com os vizinhos terá duras consequências para a economia do país. Isso porque, além de romper as relações, os seis países também fecharam seus espaços terrestres e aéreos, afetando rotas cruciais para a exportação e importação de produtos, como alimentos.

Efeito colateral

Para Sadegh Ghorbani, jornalista especializado em cobrir política externa do Oriente Médio, a ação saudita pode ter um efeito contrário inesperado, fortalecendo ainda mais o Irã. “A Arábia Saudita é uma  tábua de salvação para o Catar em termos de comércio exterior. Vamos esperar para ver se o Irã e a Turquia serão capazes de preencher esse vazio”, disse Ghorbani.

O Irã já se ofereceu para enviar suprimentos alimentícios para o Catar. O presidente do sindicato de agricultores do Irã, Reza Nourani, afirmou que os carregamentos podem chegar de navio a Doha em apenas 12 horas.

Segundo Mahjoob Zweiri, especialista em Oriente Médio da Universidade do Catar, é preciso um terceiro ator para mediar a crise. “É um cenário que não leva a nenhuma solução. Se isso continuar, vai fortalecer ainda mais o Irã na região. Não creio que é isso que Riad deseja”, disse Zweiri.

Fontes:
Época-Entenda por que o Catar é alvo de sanções da Arábia Saudita e mais seis países
Vox-Saudi Arabia’s diplomatic war with Qatar, explained
Al Jazeera-Qatar-Gulf rift: The Iran factor
DW-Trump apoia esforços da Arábia Saudita para isolar Catar

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