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CRISE HUMANITÁRIA

O que levou o Zimbábue a uma escassez de alimentos?

A crise econômica no Zimbábue causada por um governo incompetente e corrupto provoca uma grave escassez de alimentos no país

O que levou o Zimbábue a uma escassez de alimentos?
ONU alertou para o risco de a população ser vítima de fome extrema no próximo ano (Foto: Tatenda Macheka/WFP)

O mercado de Tsiga, o bairro mais populoso de Harare, capital do Zimbábue, atraía um grande número de clientes com suas barracas de venda de milho, farinha, óleo de cozinha e outros produtos básicos.

Hoje, o mercado é o reflexo da grave crise econômica de Zimbábue. Os clientes são cada vez mais raros, as mercadorias subiram de preço e há escassez de alimentos.

“A situação está muito difícil. As pessoas só conseguem comer uma refeição por dia”, disse Chengetai Takaindisa, uma comerciante local.

O Zimbábue enfrenta sua pior crise econômica desde o golpe de Estado em 2017, que derrubou o ditador Robert Mugabe. Desde que Emmerson Mnangagwa assumiu a presidência em substituição a Mugabe, a população sofre cortes diários de energia elétrica, enfrenta longas filas para comprar combustível e a inflação corroeu o poder de compra.

O país também enfrenta uma grave escassez de alimentos. Em agosto, o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas alertou para o risco de a população ser vítima de fome extrema no próximo ano.

Segundo estimativas, 8,5 milhões de pessoas, mais da metade da população, serão atingidas pela escassez de víveres no início de 2020. Antes um problema mais crônico em regiões rurais, agora a crise irá afetar 3 milhões de pessoas de áreas urbanas. O governo começou a comprar grãos no exterior para suprir a demanda interna, mas os recursos financeiros são escassos.

Os desastres naturais agravaram a situação econômica. Este ano, dois ciclones destruíram grandes áreas agrícolas e a forte seca dizimou a colheita de grãos.

“Mas a crise é resultado, sobretudo, de uma política econômica desastrosa”, disse Wandile Sihlobo, economista-chefe da Agricultural Business Chamber da África do Sul.

A nova moeda, o dólar zimbabuano, sofreu uma desvalorização de mais da metade de seu valor desde que foi criado no início deste ano. De acordo com dados oficiais, a inflação anual atingiu 289% em agosto.

“Os preços sobem todos os dias”, disse Takaindisa. Sua receita diária de cerca de Z$ 50 (US$ 3,30) só lhe permite comprar duas garrafas de óleo de cozinha.

Mnangagwa defendeu a introdução do dólar zimbabuano  como uma forma de corrigir os desequilíbrios na economia. “A recuperação econômica requer tempo, paciência e perseverança”, disse em um discurso recente.

A infraestrutura do país está decadente. O péssimo estado das ferrovias e as estradas esburacadas dificultam a entrega de toneladas de milho compradas no exterior.

A crise atraiu a atenção para a administração do Command Agriculture, um projeto de subsídio agrícola. O projeto fornece insumos como combustíveis e fertilizantes para que os agricultores possam cumprir as metas de produção. Porém, seu desempenho tem sido alvo de críticas.

Em razão do pouco controle sobre os programas de financiamento agrícola, políticos da oposição alegam que o Command Agriculture beneficia os amigos corruptos do presidente Mnangagwa.

Na opinião de Tendai Biti, ex-ministro da Economia e deputado da oposição, o governo está “redefinindo as práticas de corrupção no Zimbábue” por meio do projeto.

Há suspeitas também de irregularidades no sistema de pagamentos para a empresa Sakunda, um fornecedor de combustível de propriedade de um amigo de Mnangagwa.

A empresa Sakunda fornece combustível no Zimbábue em parceria com a Trafigura, uma empresa multinacional de comércio de commodities. Mas a Trafigura nega qualquer envolvimento da joint-venture para distribuição de combustível no país com as atividades da Sakunda no Command Agriculture.

As alegações de corrupção no Command Agriculture causaram indignação entre a população. “O projeto não visa ao bem-estar dos zimbabuanos. É um esquema político que favorece os membros do alto escalão do governo”, afirmou Tawanda, um morador de Tsiga.

“Os redutos eleitorais na região rural do partido governista Zanu-PF beneficiam-se com os insumos do Command Agriculture. Alguns agricultores ligados ao partido recebem os insumos e os revendem por um preço bem acima do valor de mercado”, acrescentou Tawanda.

Leia também: Por que o Zimbábue baniu moedas estrangeiras?

Fontes:
Financial Times-Drought and mismanagement push Zimbabwe to brink of famine

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2 Opiniões

  1. Roberto Henry Ebelt disse:

    E pensar que essa coisa comunista era Rodésia de primeiro mundo. Malditos comunas. E ainda falam mal dos “colonizadores”.

  2. Wylamar disse:

    A crise em Zimbábue é um efeito da corrupção dentro de sua extrutura de governo, bem as péssimas distribuição de renda no governo para os mais pobres e por cima vem os desastres naturais, como epidemias e o salário pr habitante é muito baixo.
    https://www.xn--fenmenosnaturaisnaterra-wjc.com

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