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ARA SAN JUAN

O submarino que não veio à tona e o país que não para de afundar

Desaparecimento do ARA San Juan completou oito meses. Na Argentina, falta verba para procurá-lo, e falta quase tudo mais

O submarino que não veio à tona e o país que não para de afundar
O ARA San Juan é o assunto que domina o dia a dia na praça de Maio (Foto: Hugo Souza)

“O mar, mãe de todas as criaturas da terra, sempre traz à luz o testemunho do que aconteceu em suas entranhas”.

(Foto: Hugo Souza)

(Foto: Hugo Souza)

É o que está escrito numa grande faixa, uma das maiores que estão estendidas de fora a fora no alto e pesado gradeado que protege a Casa Rosada, ou seu inquilino de turno, da imensa insatisfação social que toma conta da Argentina. Esse cartaz, em particular, é sobre um drama em particular, particularmente doloroso para 44 famílias argentinas, ainda que não saia da mente e do coração de todo o povo do país: o desaparecimento do submarino ARA San Juan no oceano Atlântico, tragédia que completou oito meses no último 15 de julho. Há poucas semanas, familiares dos 44 tripulantes do submarino acorrentaram-se àquele gradeado, como informou este Opinião e Notícia, exigindo a retomada das buscas, interrompidas por falta de verbas.

(Foto: Hugo Souza)

(Foto: Hugo Souza)

Por mais que a Argentina esteja passando por sua mais grave crise econômica desde os dolorosos anos do início da década de 1990, é o ARA San Juan o assunto que domina o dia a dia na praça de Maio. São incontáveis (reproduzimos parte delas nesta reportagem) as manifestações de apoio às famílias dos 44 tripulantes que não voltaram à tona; de repúdio à incapacidade, ou apatia, ou descaso do Estado argentino para encontrar respostas para o que aconteceu, pelo menos para não poupar esforços nesse sentido.

É precisamente isso, pressionar o governo Macri a esgotar os esforços de busca pelo Ara San Juan, o que pretendem os familiares dos marinheiros desaparecidos que montaram uma barraquinha minúscula, com apenas três cadernos abertos (em contraste com as enormes barracas coloridas de azul e branco que vendem quinquilharias turísticas na praça de Maio) em meio a tantas faixas, cartazes, mensagens, desenhos e tudo mais que o povo pôs ali para não deixar que o tempo, tão inclemente quanto o mar, acabe por fazer esquecer que o submarino não voltou.

A morte e ‘a lei da vida’                                                                                                                                   

(Foto: Hugo Souza)

(Foto: Hugo Souza)

Várias outras faixas no gradeado de contenção das massas buliçosas na praça de Maio levam os nomes de alguns dos marinheiros desaparecidos com o ARA San Juan, têm suas fotos, algumas com os filhos pequenos, e a mesma mensagem repetida várias vezes: “Seguimos esperandolos”.

Ninguém mais espera encontrá-los vivos, no entanto. As famílias reúnem assinaturas para uma petição pública exigindo a assinatura de um decreto presidencial para a contratação, pelo governo argentino, de uma empresa estrangeira especializada em buscas em águas profundas, na esperança de que descobrir o que de fato aconteceu possa amenizar quem sabe um milionésimo de sua profunda dor.

(Foto: Hugo Souza)

(Foto: Hugo Souza)

É pelo direito de saber, algo tão elementar, mas que segue tão negado nesta América Latina. A mais recente “atitude” do governo Macri sobre o caso foi que o ministério da Defesa irá auditar todos os reparos feitos no ARA San Juan nos anos do kirchnerismo…

No dia em que se completaram oito meses do sumiço do ARA San Juan, um dos maiores jornais de Buenos Aires publicou uma extensa reportagem sobre as consequências humanas, de resto, da crise sem fim, da inflação, do desemprego, e dos “ajustes” de Macri, para completar o cenário de profunda carestia entre quem vive do trabalho. Na região metropolitana de Buenos Aires, diz a reportagem, já há lugares “onde as pessoas só comem uma vez por dia”.

“É um retorno ao passado”. Naquela grande faixa acerca do ARA San Juan, onde está escrito que o mar, mais cedo ou mais tarde, traz a verdade à luz da superfície, está consignado também algo mais sobre o drama dos marinheiros e de suas famílias, mas também sobre o drama da Argentina em geral, ora de volta aos “ajustes” tão inclementes quanto o tempo e o mar. Ou quem sabe sobre outro país, talvez vizinho, que também não para de afundar:

“O silêncio e a mentira são a tumba da verdade e da justiça. Haverá justiça! Hoje e sempre! Porque essa é a lei da vida”.

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