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Eleições norte-americanas

Obama, o vermelho?

Há pouco mais de dois meses, o candidato do Partido Republicano à presidência dos EUA, John McCain, garantiu ao jornal Kansas City Star que Barack Obama é mais de esquerda do que o único senador declaradamente socialista dos EUA.

Houve o disse-me-disse de costume, como não poderia deixar de haver em qualquer campanha eleitoral norte-americana que se preze. Nos EUA, a corrida à Casa Branca costuma ser marcada por trocas de calúnias e difamações, acusações e desmentidos que devem fazer o presidente do nosso TSE engolir em seco. Boatos contribuíram diretamente para a derrota de John Kerry para George Bush em 2004.

O tal senador socialista apresentado por McCain como o anti-parâmetro ideológico não é exatamente um legítimo representante da extrema esquerda. Não se trata de um comunista infiltrado no Capitólio para combater o sonho americano. É apenas Bernie Sanders, senador independente pelo estado de Vermont, que diz buscar inspiração para sua atuação política na social-democracia escandinava.

Ainda assim, depois da alusão feita por McCain, não importa mais o fato de que Sanders está longe, muito longe de ser um bolchevique tomando de assalto o Palácio de Inverno. O que fica — e o que vale — é a sensação de que Obama está mais perto do que ele de fazer da Casa Branca um soviete.

Caso cole, é uma imagem que pode ter efeitos catastróficos para quaisquer pretensões eleitorais em um país onde, hoje, a palavra “socialista” soa algo como “norte-coreano”.

Mas a nata do conservadorismo norte-americano está empenhada em provar que o aparente exagero que emana da comparação feita por McCain tem o seu fundo de verdade, ou seja, que a “mudança” proposta por Obama iria muito além das pequenas diferenças que existem de fato entre os programas dos partidos Democrata e Republicano.

A intenção é convencer o eleitorado de que por trás do homem que se apresenta apenas como um candidato “liberal” está alguém que, uma vez eleito, irá fazer valer a agenda da esquerda radical a partir da presidência dos EUA.

Em geral, para apresentar Obama desta forma, os conservadores se valem de um velho estratagema do mundo da política partidária: vasculham a vida e a trajetória pública do seu  adversário em busca do que consideram más companhias.

O caso mais notório foi o do suposto “mentor” do candidato democrata. Em seu livro “Sonhos do meu pai”, Obama se refere reiteradamente a um amigo e conselheiro que chama de “Frank”. O misterioso homem seria Frank Marshall Davis, identificado como membro do CPUSA, o Partido Comunista dos EUA.

Quem espalhou a informação foi Cliff Kincaid, editor do site Accuracy in Media (AIM) — uma espécie de observatório dos meios de comunicação — e velho crítico da suposta condescendência com o esquerdismo que seria epidêmica entre as TVs e os jornais norte-americanos. O artigo de Kincaid intitulado “O mentor comunista de Obama” se tornou um destes fenômenos da internet que acabam chegando a nove em cada dez caixas de e-mail. 
       

'Ligações perigosas'

Fala-se muito também da proximidade de Obama com o padre Michael Pfleger, adepto da “teologia da libertação”, a controversa corrente da igreja católica que tenta convidar marxistas e cristãos para sentarem na mesma mesa. Outro aliado incômodo para a candidatura democrata é Bill Ayers, co-fundador da organização anti-imperialista Weatherman, que nos anos 1960 e 1970 chegou a colocar bombas em prédios públicos dos EUA.

Diante disto, soa como palavras vazias o sermão do pastor da igreja de Obama, Jeremiah Wright, no qual o reverendo disse que os norte-americanos colheram os atentados de 11 de setembro de 2001 em razão do que plantaram no cenário internacional.

Há ainda a alegada “ligação perigosa” de Obama com a ACORN, sigla em inglês para Associação das Organizações Comunitárias para Reforma Já. Para efeito de apresentação oficial, trata-se de uma das maiores organizações comunitárias sem fins lucrativos dos EUA, que reúne cerca de 175 mil famílias de baixa e média renda e tem representações em mais de 80 cidades do país, distribuídas em 38 estados, contando ainda com sedes no Canadá, Peru e República Dominicana.

Para os republicanos, no entanto, a ACORN é uma rede de grupos empenhados em minar as bases do capitalismo, tendo se especializado ao longo das suas quatro décadas de existência em arrecadar dinheiro dos contribuintes para financiar atividades radicais e projetos políticos da extrema-esquerda.

Mas, de concreto mesmo, só o fato de que a ACORN está metida em esquemas de fraude eleitoral em 15 estados norte-americanos, o que não prova nada a respeito de sua matriz ideológica. Caso provasse, que dizer das falcatruas nas eleições de novembro de 2000, que garantiram a vitória de Bush sobre Al Gore?

Sendo como for, os democratas entendem que a ACORN não é boa companhia, e o partido vem afirmando e reafirmando que seu candidato foi apenas advogado da associação. Mas a própria direção da ACORN fez as vezes do adversário ao divulgar que Obama treinou suas lideranças, e que seus membros trabalharam como voluntários nas campanhas das quais o atual candidato democrata participou até aqui.

Tudo isto, aliás, é a amplificação na campanha presidencial de acusações que vêm desde 2004, quando Obama foi eleito senador pelo estado do Illinois sob a advertência de que era um marxista de formação — informação jogada ao vento em tom de aviso por seu então adversário republicano, Alan Keyes.

Em julho deste ano, uma edição da influente revista New Yorker trouxe na capa uma caricatura de Obama e de sua mulher, Michele, caracterizados como inimigos dos EUA e comemorando a chegada ao salão oval da Casa Branca: ele com trajes muçulmanos, ela com uma metralhadora pendurada nas costas. Havia uma foto de Osama bin Laden pendurada na parede, e a bandeira norte-americana queimava na lareira.

O Partido Democrata protestou, e a New Yorker se apressou em dizer que se tratou de uma sátira da imagem que os adversários de Obama tentam atribuir à sua candidatura. A campanha de McCain, por sua vez, anunciou que considerava a capa de mau gosto. Demagogia?

No fundo, no fundo, poucos acreditam em um governo dos EUA orientado segundo parâmetros verdadeiramente de esquerda, mesmo que seja encabeçado por alguém cujo “mentor” teria obedecido a ordens vindas diretamente de Moscou nos anos da Guerra Fria.

Mas o fato é que, em novembro, o preconceito com a cor da pele de Barack Obama — que já foi a preocupação número um dos democratas — será menos determinante do que a cor que os eleitores norte-americanos atribuirão à “mudança” que ele tanto propõe.

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2 Opiniões

  1. faria disse:

    Obama "branqueou" nos assuntos internos e externos. Por ser um negro nao americano, não tem raizes que o aninhe à militancia politica afro-americana, mais chegada ao "Partido dos Panteras Negras". Cada vez mais se parece com Gorbachov e sua Prestroika. Uniao para mudar, nao mudando nada. Vai perder pro MacCain o mais democrata dos republicanos.

  2. Levi Machado Filho disse:

    Obama de fato é de esquerda. É de uma esquerda real, do Século XXI. O q não podemos é tomar com parâmetro as esquerdas brasileiras, que vivem até hoje no século XIX ou, quiçá, em 1917. Retrato do atraso e da falta das liberdades individuais.

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