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A obra e a vida de Joseph Conrad

Nova biografia descreve a vida e a obra de um dos mais importantes escritores de língua inglesa

A obra e a vida de Joseph Conrad
Em 1894, Conrad desistiu da carreira no mar e publicou seu primeiro livro, A loucura do Almayer (Foto: Wikipedia)

Joseph Conrad foi um fenômeno. Nascido de pais poloneses em 1857 em uma província do império russo, hoje situada na Ucrânia, ele foi batizado com o nome de Jozef Teodor Konrad Korzeniowski. O francês foi a sua segunda língua e só aprendeu inglês aos 21 anos. No entanto, é considerado um dos maiores escritores de língua inglesa.

Em 1948, F.R. Leavis, um crítico literário da Universidade de Cambridge, comparou-o em seu livro The Great Tradition a escritores consagrados da literatura inglesa como Jane Austen, George Eliot e Henry James. Oito anos depois, o crítico literário Walter Allen escreveu que Nostromo era indiscutivelmente “o maior romance em inglês do século”. O livro de Conrad, O coração das trevas, inspirou o filme Apocalypse Now, uma obra-prima de Francis Ford Coppola lançado em 1979.

No entanto, os leitores intimidam-se ao se depararem com o estilo complexo e prolixo de Conrad. É uma pena, porque muitos de seus romances e contos merecem serem lidos e relidos. Como Maya Jasanoff, professora de história da Universidade de Harvard, escreveu em seu novo livro, The Dawn Watch: Joseph Conrad in a Global World, muitos dos temas abordados por Conrad “na virada do século XX” refletem as inquietações e perigos do mundo globalizado atual.

Órfão aos 11 anos, quando os pais morreram nos campos de trabalhos forçados na Sibéria, Conrad foi criado por um tio. Mas aos 16 anos viajou para Marselha, onde começou sua carreira de marinheiro. Com 21 anos, foi contratado como tripulante de um navio inglês e, mais tarde, já promovido a capitão viajou pelo mundo, sobretudo pelos arquipélagos e penínsulas do Sudeste Asiático, onde muitos de seus livros são ambientados. Conrad, escreveu Jasanoff, “pertenceu à última geração de marinheiros”, que ele chamava de “aristocracia”. Em seus livros, “o navio inglês era um exemplo de conduta moral”.

Em 1894, Conrad desistiu da carreira no mar e publicou seu primeiro livro, A loucura do Almayer. Dois anos depois, casou com Jessie George, fixou-se em Kent, teve dois filhos e dedicou o resto de sua vida a escrever.

Em The Dawn Watch, Jasanoff descreve as viagens que fez, uma delas em um navio de carga francês pelo oceano Índico e outra à República Democrática do Congo, em sua tentativa de mergulhar no universo complexo da vida de Conrad. E com a habilidade, a autora traça paralelos entre as obras de Conrad e a literatura do século XXI.

Embora não tão cosmopolita como hoje, na década de 1890 Londres tinha uma população de 50 mil europeus vindos do continente. Os revolucionários russos e os nacionalistas irlandeses inspiraram o livro O agente secreto ambientado em uma Londres suja, dickensiana, uma história de conspiração e terrorismo, na qual uma bomba explode no momento errado e mata um inocente. Assim, como agora, as ameaças do anarquismo e do terrorismo estimularam o sentimento anti-imigração.

Em uma leitura não tão amena como em O agente secretoLord Jim, publicado sete anos antes, é um relato da decisão de um marinheiro inglês, Jim, de fugir de seu navio carregado de peregrinos muçulmanos ameaçado de naufragar. Atormentado pelo remorso, Jim tenta recomeçar a vida, mas sempre fracassa, como um castigo por sua conduta indigna.

O coração das trevas, publicado em 1902, dois anos depois de Lord Jim, inspirou-se na viagem de Conrad ao Congo Belga, onde presenciou o tratamento desumano dos africanos e a exploração do comércio de marfim. No livro, o capitão Marlow, a bordo de um navio penetra no interior da África, em busca de Kurtz, um comerciante de marfim que vivia entre os africanos em meio a boatos de cultos bárbaros.

Em Nostromo, publicado em 1904, a ação se passa na cidade de Sulaco, um porto na república fictícia de Costaguana na América do Sul. Na história de um homem que rouba uma barcaça carregada de prata, Conrad projeta seu cinismo político e o medo de um futuro dominado por “interesses materiais”.

A autora escreveu que começou a explorar o mundo de Conrad “com a bússola de um historiador, o roteiro de um biógrafo e com um instrumento de navegação de um leitor de ficção”. O escritor Anthony Powell descreveu Conrad como “uma figura enigmática. Quanto mais lemos a seu respeito, menos o conhecemos”. Esta biografia não tem a pretensão de decifrar o enigma da personalidade de Conrad, mas é um ótimo incentivo à leitura de seus livros.

 

Fontes:
The Economist - Joseph Conrad, the first novelist of globalisation

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