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Terapia genética

Oi mães, oi pai

Uma técnica voltada para a eliminação de doenças mitocondriais geraria pessoas com três pais genéticos

Oi mães, oi pai
Contribuição genética de uma das mães à sua prole vem em dois pedaços separáveis (Reprodução/Internet)

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Uma criança pode ter três pais? Essa é a pergunta suscitada por um estudo recém-publicado no periódico Nature por Shoukhrat Mitalipov e seus colegas da Universidade de Ciência e Saúde de Oregon. E a resposta parece ser “sim”, já que esse estudo abre o caminho para o nascimento de crianças que, geneticamente, têm um pai e duas mães.

Isso é possível por que a contribuição genética de uma das mães à sua prole vem em dois pedaços separáveis. A maior parte é compactada nos 23 cromossomos nos núcleos de um óvulo não fertilizado. Nesse aspecto, ela é exatamente igual ao pai da criança, que fornece outros 23 através de seu esperma. Mas a mãe também contribui com o que é conhecido como DNA mitocondrial.

As mitocôndrias são as usinas de energia das células. Elas transformam a energia dos açúcares em algo que pode ser usado pelo maquinário molecular das células. E porque a mitocôndria descende de uma bactéria que, há cerca de 2 bilhões de anos, se tornou simbiótica com a célula da qual descendem os animais e plantas, ela têm seus próprios e pequeninos cromossomos. Nas pessoas, esses cromossomos portam apenas 37 genes, comparado aos cerca de 20.000 do núcleo. No entanto, todas as mitocôndrias em um corpo humano descendem daquela presente no óvulo que o gerou. O esperma não contribui com nenhuma. E é esse fato que permitiu que os médicos concebessem a ideia de pessoas com duas mães: uma fornecendo o DNA nuclear e outra o DNA mitocondrial.

A razão para fazer isso é que as mutações no DNA mitocondrial, como aqueles nos genes nucleares, podem causar doenças. Essas doenças afetam especificamente órgãos como o cérebro e os músculos, que têm altas necessidades de energia. Cada doença mitocondrial em particular é rara, mas há muitas delas. Em geral, há uma chance em 5.000 de uma criança desenvolver uma doença hereditária. Portanto, as doenças mitocondriais não são um grande risco, mas também não são irrelevantes.

Baterias novas, por favor

Para descobrir se o transplante mitocondrial poderia funcionar em pessoas (a hipótese já foi provada em outras espécies de mamíferos) Dr. Mitalipov coletou óvulos dos ovários de mulheres com mitocôndrias com mutações e outros de doadoras com mitocôndrias saudáveis. Em seguida ele removeu os núcleos de ambas e descartou os das células saudáveis. Já os da célula defeituosa foram transplantados para as células saudáveis. Em seguida ele fertilizou o resultado com esperma e permitiu que os óvulos fertilizados começassem a se dividir e assim dessem o primeiro passo na jornada até formar um ser humano completo.

Quase todos os óvulos do experimento sobreviveram à substituição de seus núcleos, e três quartos desses foram fertilizados com sucesso. No entanto, pouco mais da metade dos zigotos (nome pelo qual são conhecidas as bolas de células que se forma a partir das primeiras divisões dos óvulos fertilizados) resultantes exibiam anormalidades. Todavia, a taxa de anormalidade foi de 1/8 nos zigotos de controle cultivados a partir de óvulos saudáveis não transplantados.

A discrepância surpreendeu – e preocupou – Dr. Mitalipov. A taxa de anormalidade que ele observou foi muito maior do que aquelas verificadas quando o procedimento é executado com outras espécies. No entanto, isso poderia se dever ao fato de que essa é a primeira tentativa do uso de óvulos humanos. Cada espécie tem suas peculiaridades, e, caso os transplantes mitocondriais se tornem rotina, as peculiaridades dos humanos certamente se tornariam aparentes. Dr. Mitalipoc prevê que isso possa ser consertado com ajustes.

No entanto, transformar esse experimento em procedimentos medicinais seria um longo caminho, e não apenas cientificamente. Dr. Mitalipoc tem poucas dúvidas de que seus zigotos poderiam ser desenvolvidos caso fossem transplantados para o útero de uma mulher. No entanto, esse experimento é ilegal (com toda a razão, segundo o ponto de vista de algumas pessoas). Mas o fato de que agora é possível faz isso certamente estimulará o debate sobre se a lei deve ser mudada.

Fontes:
The Economist-Hello mothers, hello father

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