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ONGs acusam ex-presidente da Gâmbia de massacre

Investigação da Human Rights Watch e da TRIAL International aponta que esquadrão paramilitar matou imigrantes sob ordens ex-presidente Yahya Jammeh

ONGs acusam ex-presidente da Gâmbia de massacre
Martin Kyere, sobrevivente do massacre, em um cemitério para onde foram seis corpos (Foto: Bénédict De Moerloose/TRIAL International)

Nesta quarta-feira, 16, as organizações não-governamentais Human Rights Watch e a TRIAL International divulgaram evidências de que o ex-presidente da Gâmbia, Yahya Jammeh, tem relação com a execução de mais de 50 imigrantes africanos, ocorrida em julho de 2005.

Os imigrantes tentavam ir para a Espanha, mas foram detidos sob suspeita de serem mercenários que queriam tomar o governo. As ONGs investigaram e entrevistaram 30 antigos integrantes do governo e Martin Kyere, o único sobrevivente do massacre. As organizações, então, confirmaram que os “Junglers”, esquadrão da morte paramilitar cometeu o crime sob ordens de Jammeh.

As testemunhas disseram que os imigrantes foram presos em julho de 2005, numa praia na Gâmbia, e foram transferidos para o Quartel General Naval da Gâmbia, em Banjul, capital do país. Os imigrantes foram detidos na presença do inspetor geral da polícia, do diretor geral da Agência Nacional de Inteligência, do chefe da equipe de defesa e do comandante da Guarda Nacional. Pelo menos dois deles estavam em contato telefônico com Jammeh durante a operação. O chefe e vários membros dos “Junglers” também estavam lá.

Segundo Kyere, quando um colega reclamou de dor, um militar o cortou com a espada. “Seu braço quase caiu do corpo. Todos nós estávamos com as mãos amarradas. Mas, eu consegui me desamarrar e fugir”, diz Kyere. Seus colegas pediram para que ele procurasse suas famílias caso conseguisse chegar a Gana e contar a eles o que aconteceu. Martin Kyere disse que, enquanto fugia, seus captores atiravam. Mas depois de três dias escondido, ele chegou ao Senegal e depois seguiu para a embaixada de Gana. Quando chegou em casa, ele foi procurar os parentes de seus colegas.

As ONGs refutam o que a Organização das Nações Unidas concluiu em um de seus relatórios, que nunca foi divulgado. Segundo um boletim de departamento de relações públicas das Nações Unidas, um relatório da ONU concluiu que o governo da Gâmbia não estava direta nem indiretamente relacionado com o crime. “Os imigrantes africanos não foram assassinados por elementos desonestos, mas pelo esquadrão de morte paramilitar sob ordens do presidente Jammeh. Os subordinados de Jammeh então destruíram as evidências para evitar que investigadores internacionais soubessem da verdade”, disse Reed Brody, da Human Rights Watch.

Uma cova coletiva com alguns corpos foi identificada, mas a maioria deles continua desaparecida.  Segundo uma fonte policial que conversou com o Guardian e não quis ser identificada, as autoridades não mostraram o devido interesse em relação à cova. “Eu informei algumas autoridades policiais sobre a cova coletiva, mas nenhuma ação foi tomada. Eu acho que ainda há muitas pessoas no sistema que são leais ao antigo governo”, disse a fonte. Até agora, nenhuma prisão foi feita.

A Gâmbia está se preparando para lançar uma comissão da verdade para examinar os crimes cometidos entre 1994 e 2017, mas com seu sistema de Justiça sendo radicalmente reformado e pouco dinheiro, é improvável que o pequeno país africano seja capaz de processar Jammeh.

Jammeh assumiu o poder em 1994 e governou o país por 22 anos. Seu regime foi caracterizado por acusações de violações de direitos humanos, incluindo queixas de mortes e torturas. O tratamento de jornalistas e partidos de oposição durante seu mandato também causou preocupação entre os grupos de direitos humanos.

A Human Rights Watch e o Tribunal Internacional estão elaborando um caso referente à execução dos imigrantes para processar Jammeh, que continua em exílio na Guiné Equatorial após perder a eleição de 2016.

Fontes:
The Guardian- Mass grave of alleged victims of former president Jammeh found in the Gambia
BBC-Profile: Former Gambian President Yahya Jammeh
HRW-Gambia: Ex-President Tied to 2005 Murders of Ghanaian and Nigerian Migrants

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