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Sudeste Asiático

Os 50 anos de Cingapura

Para continuar a prosperar no seu segundo meio século, Cingapura, o milagre do Sudeste Asiático, terá de mudar sua estratégia política

Os 50 anos de Cingapura
Cingapura, que em 9 de agosto fará 50 anos como um país independente, pode orgulhar-se de seu vigor juvenil (Foto: Pixabay)

Aos 50 anos, segundo George Orwell, todos têm o rosto que merecem. Cingapura, que em 9 de agosto fará 50 anos como um país independente, pode orgulhar-se de seu vigor juvenil. A vista de uma piscina de bordas infinitas no teto do Marina Bay Sands, um hotel de três torres, com um cassino e um centro de convenções, é futurista. Os inúmeros arranha-céus brilham à luz do sol, templos da globalização com os nomes de alguns de seus profetas como HSBC, UBS, Allianz, Citi. Eles pairam acima das ruas movimentadas onde, quase sempre, o trânsito flui sem problemas. A Marina Barrage, um pouco mais distante, impede a entrada da água do mar no reservatório construído no final do rio Cingapura, que percorre o centro da antiga cidade colonial. À distância estendem-se os arranha-céus, onde a maioria dos habitantes de Cingapura mora.

O mar está repleto de navios-tanques, balsas e navios para o transporte de contêineres. A oeste localiza-se um dos portos mais movimentados da Ásia, um modelo de desenvolvimento logístico e investimentos em infraestrutura, além de uma enorme refinaria e um complexo petroquímico; o Aeroporto de Changi situado na extremidade leste da cidade, é um dos aeroportos mais eficientes do mundo. Mas, apesar das construções, a vista continua surpreendentemente verde. O orgulho do governo de ter transformado a cidade “em um jardim” não é uma presunção fantasiosa.

Cingapura é, como seus líderes gostam de dizer, um lugar “excepcional”: a única cidade-Estado com total autonomia no mundo; um centro global de comércio, finanças, transporte e viagem; e o único entre os países mais ricos do mundo que nunca mudou de partido no poder. Na comemoração de 1º de maio deste ano, o primeiro-ministro, Lee Hsien Loong, declarou que “para sobreviver é preciso ser excepcional”.

Cingapura está em uma posição favorável para prosperar, porém no seu segundo meio século enfrentará ameaças muito diferentes das que havia confrontado em seu nascimento não planejado e acidental, há 50 anos. Esse novo cenário exigirá estratégias bem diferentes. O maior perigo que Cingapura enfrenta é a autoconfiança, a crença que as políticas que foram tão bem-sucedidas por tanto tempo podem ajudar a negociar um novo mundo.

Após o Reino Unido ter concedido o regime de autonomia interna a Cingapura em 1959, o Partido de Ação Popular (PAP) ganhou as eleições, com Lee Kuan Yew, pai de Lee Hsien Loong, como primeiro-ministro. Lee Kuan Yew acreditava que o futuro de seu país estava vinculado ao da Malásia um país ao norte, com o qual se conecta pela Ponte Johor-Singapore, que atravessa o estreito de Johor.  Assim, com o objetivo de se unir ao país vizinho, a Cingapura participou em 1963 da criação da Federação da Malásia.

No entanto, retirou-se da federação em 1965 e se tornou uma república independente. Na ocasião, Lee Kuan Yew convencera-se que a população de maioria chinesa de Cingapura estaria sempre em desvantangem em um regime dominado pela Malásia. Cingapura, um país que nasceu sem um planejamento específico, é constituído por imigrantes de diversas etnias, com uma população de maioria chinesa (cerca de 74%), de malaios (13%) e indianos (9%).

Cingapura, às vezes é chamada em tom de brincadeira de  “Ásia light”, um refúgio em meio ao caos, à sujeira, à água da torneira impossível de se beber e o trânsito caótico do continente asiático. É também uma “democracia light”, com todas as formas de concorrência democrática, porém sem a predominância do antiautoritarismo, ou seja, é um regime híbrido de elementos democráticos e autoritários. Parte do sucesso de Cingapura deve-se ao sistema de governo de um  só partido legitimitado nas eleições realizadas há 56 anos e que não enfrenta uma ameaça imediata de perder o poder.

O sistema conta com um grande apoio no país e no exterior. Os crimes são raros e praticamente não existe corrupção oficial. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Cingapura é um dos melhores do mundo no que se refere à expectativa de vida, mortalidade infantil e renda per capita. Seus líderes mantêm um alto padrão de estabilidade política, social e financeira. Entretanto, é questionável se o sistema construído por Lee Kuan Yew conseguirá sobreviver no contexto atual.

O sistema enfrenta dois desafios distintos. Um deles é a concentração de poder sem o equilíbrio de uma oposição política forte. Sob a influência da incorruptível família Lee e seus colegas, o governo permanece honesto, eficiente e criativo; porém para garantir que continue assim é preciso adotar um regime democrático mais sólido. Em segundo lugar, a confiança no PAP, como as eleições recentes em 2011 mostraram, diminuiu. Os cingapurenses mais jovens irritam-se com a censura e não têm mais tanto medo das consequências de se oporem ao PAP.

Fontes:
The Economist-The Singapore exception

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