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RISCO DE MAIS VIOLÊNCIA

Os efeitos da suspensão da negociação de paz entre EUA e Talibã

Decisão de Trump de suspender a negociação de paz com o grupo pode agravar a violência no Afeganistão às vésperas das eleições presidenciais no país

Os efeitos da suspensão da negociação de paz entre EUA e Talibã
Decisão foi anunciada por Trump no último sábado, 7 (Foto: Flickr/Creative Commons)

O Afeganistão pode estar diante de um novo aumento na violência após a decisão do presidente americano Donald Trump de cancelar, de última hora, um encontro com representantes do grupo extremista Talibã, marcado para o último fim de semana.

A reunião foi marcada para o último domingo, 8, em Camp David, o retiro presidencial dos EUA. Porém, um dia antes, Trump anunciou o cancelamento em sua conta no Twitter. A decisão foi tomada após o Talibã assumir a autoria de um ataque que deixou 12 mortos – entre eles, um soldado americano – na última quinta-feira, 5.

Trump acusou o grupo de usar o ataque para obter vantagem na negociação. “Fora do conhecimento de quase todos, os principais líderes do Talibã e, separadamente, o presidente do Afeganistão, iriam se reunir sigilosamente comigo em Camp David, no domingo. Ele iriam viajar para os EUA esta noite. Infelizmente, para obter uma falsa vantagem, eles assumiram um ataquem em Cabul que matou um de nossos grandes soldados e outras 11 pessoas. Eu imediatamente cancelei a reunião e suspendi as negociações de paz. Que tipo de pessoas mataria tanto para tentar reforçar seu poder de barganha? Não conseguiram, apenas pioraram as coisas! Se eles não conseguem acordar um cessar-fogo durante essas negociações de paz de grande importância […] eles provavelmente não têm o poder de negociar um acordo relevante”, escreveu Trump.

A negociação de paz com o Talibã é crucial para que Trump consiga cumprir sua promessa de campanha de retirar todas as tropas americanas do país. Segundo informou o New York Times, há duas semanas o presidente americano afirmou que pretende reduzir para pouco mais de 8 mil o número de soldados americanos no Afeganistão. Atualmente, há aproximadamente 14 mil soldados americanos em solo afegão.

Além disso, é de interesse dos dois lados da negociação encerrar aquela que se tornou a maior guerra já travada pelos EUA – que já dura 18 anos.

A abrupta suspensão da negociação de paz pode ter um resultado catastrófico para a população afegã. Isso porque pode levar ao aumento da onda de violência na esteira das eleições presidenciais do próximo dia 28 no país, nas quais o atual presidente, Ashraf Ghani, detém grande vantagem. O Talibã se opõe ao pleito e vinha tentando adiá-lo. O grupo esperava que um acordo de paz adiaria as eleições no país. Agora, com a negociação suspensa, o grupo tem mais incentivo para tentar sabotar o pleito, ao mesmo tempo em que deixa claro que, mesmo após 18 anos de guerra, ainda é um potente ator político e com poderio bélico.

Assessores próximos de Trump ouvidos pelo “NYT” disseram estarem confusos sobre a decisão do presidente e se ela representa uma mudança de estratégia. Isso porque, embora Trump tenha apontado a morte do soldado, identificado como Elis Barreto Ortiz, ela foi a 16ª morte de um soldado americano em solo afegão desde que as conversas para negociação de paz tiveram início, um ano atrás.

Além disso, há uma entrevista dada pelo Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, ao correspondente da CNN em Washington, Jake Tapper, na qual o secretário cita os ataques do Talibã e reforça o argumento de Trump sobre a suposta tentativa do grupo de usar o ataque de quinta-feira para obter vantagem. Porém, na entrevista, o secretário compromete a versão de violação ao cessar-fogo por parte do Talibã, ao admitir que os EUA também seguem com os embates contra ao grupo, “que deixaram mais de mil talibãs mortos somente nos últimos 10 dias”.

Há também dúvidas sobre a precisão da declaração de Trump de que o Talibã aceitou participar da reunião em Camp David no domingo e que foi ele o responsável por cancelar o encontro. Isso porque representantes do Talibã afirmaram que concordaram em ir aos EUA somente após um acordo ser anunciado e para um encontro marcado apenas com a parte americana das negociações – o que exclui representantes do governo afegão. A suspeita é que Trump cancelou uma reunião à qual a principal parte envolvida não planejava comparecer.

De qualquer forma, a notícia de que haveria um encontro sigiloso entre Trump e o Talibã em Camp David despertou críticas internas ao governo americano. Alguns parlamentares, em especial republicanos, ficaram ultrajados com a notícia de que o governo dos EUA receberia em seu país a organização terrorista responsável pelos ataques de 11 de setembro, em plena véspera do aniversário de 18 anos do atentado.

“Jamais líderes de uma organização terrorista que nunca renunciou ao 11/9 e continua a agir no mal deveriam ser permitidos em nosso grande país. NUNCA”, escreveu o deputado republicano pelo estado de Illinois Adam Kinzinger, em sua conta no Twitter.

Já Liz Cheney, deputada republicana pelo estado de Wyoming, destacou que o encontro em Camp David ocorreria na mesma sala em que, em 2001, o então presidente George W. Bush se reuniu com seus conselheiros de segurança para traçar a resposta para o 11 de setembro.

“Camp David é onde os líderes americanos se reuniram para planejar nossa resposta após a Al Qaeda, apoiada pelo Talibã, matar 3 mil americanos no 11/9. Nenhum membro do Talibã deve colocar os pés lá. Jamais. O Talibã ainda abriga a Al Qaeda. O presidente está certo em encerrar as conversas”, escreveu a deputada, sendo questionada por muitos seguidores sobre o porquê de o presidente ter convidado o grupo para a reunião.

Houve também quem criticasse Trump usando um tuíte do presidente de 2012, no qual ele critica seu antecessor, Barack Obama, por “negociar com o maior inimigo dos EUA, o Talibã, que orquestrou o 11/9”. As críticas se deram porque, no domingo, Pompeo e outros integrantes do governo ofereceram o mesmo argumento usado por Obama para iniciar as conversas de paz com o grupo: para alcançar a paz, você tem de dialogar com seus inimigos.

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