Início » Internacional » Os truques da linguagem política francesa
termos políticos

Os truques da linguagem política francesa

Um glossário da nova linguagem dúbia dos políticos na França

Os truques da linguagem política francesa
Livro ajuda a decodificar o discurso político do presidente François Hollande (Reprodução/Internet)

Um presente oportuno chegou inesperadamente à redação da Economist durante as férias.

Intitulada “Lost in Translation: a glossary of new French doublespeak”, o livro é um guia para a decodificação do discurso político do governo socialista de François Hollande.

Tanto a esquerda quanto a direita na França tem uma tradição de disfarçar termos políticos com manobras verbais pomposas ou eufemísticas. Lionel Jospin, por exemplo, um primeiro-ministro socialista, privatizou mais empresas que seus predecessores de direita sem jamais ter usado a palavra, preferindo utilizar a expressão “abertura de capital”.

Para aqueles fascinados pela ambiguidade linguística da equipe de Hollande, eis alguns trechos úteis do glossário:

Sécurisation de l’emploi (melhoria da segurança trabalhista): frase usada para lançar as atuais negociações trabalhistas, projetadas para introduzirem mais flexibilidade

Partenaires sociaux (parceiros sociais): sindicatos e patrões que fazem esse tipo de negociação. Não deve ser confundido com pares românticos, parceiros de dança ou duplas de tênis, etc.

Flexibilité (flexibilidade): palavra proibida que evoca visões sombrias de uma situação de livre mercado anglo saxã (vide Libéral).

Laissez-faire: expressão anglo-saxã questionável que não é empregada no francês (vide Libéral).

Redressement des comptes publics (moralização de contas públicas): cortes orçamentários e aumentos de impostos, jamais combinados a austérité ou rigueur (vide palavras proibidas). Não deve ser confundido com…

Redressement du pays dans la justice (moralização do país por meio de justiça): enxurrada de impostos sobre os ricos. Não deve ser confundido com …

Redressement productif (renovação produtiva): nome do ministério responsável por imped[e]ir o fechamento ou falência de indústrias (vide Florange, Peugeot).

Plan social (plano de demissão que resulta dos fechamentos de fábricas supramencionados): perdas de emprego, não deve ser confundida com a organização da vida social, bares, clubes, etc.

Nécessité d’équilibrer financièrement les retraites (Necessidade de equilibrar fundos de pensão): a reforma previdenciária desponta novamente no horizonte.

Minable (patético): partida dos cidadãos franceses que consideram os impostos altos demais (vide Depardieu, G).

Social-démocrate (social-democrata): forma moderadamente aceitável de socialista à la Escandinávia.

Social-libéral (social-liberal): forma suspeita de pseudossocialista que defende o livre mercado.

Libéral (liberal): espécie rara com motivos anglo-saxões suspeitos, determinado a erodir o estilo de vida francês.

Fontes:
The Economist-Lost in translation

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

1 Opinião

  1. Carlos U. Pozzobon disse:

    Um dos sinais de crise consiste em adornar a linguagem com lantejoulas verbais. O fabuloso barroco espanhol surge primeiro como forma de despistar a ortodoxia e depois a decadência. A tradição socialista de interpretação da realidade por meio de uma doutrina que renega o empirismo do livre mercado, produz enfoques em que a realidade deve se adaptar à doutrina e não esta a realidade. Em consequência, a realidade precisa ser manipulada para apresentar os resultados desejados, e a linguagem cumpre este papel. O julgamento do mensalão produziu resultados parecidos na equipe dirigente do PT.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *