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Catolicismo

Papa trabalha para manter igrejas cheias na América Latina

Na sua segunda passagem pelo continente, ele inclui textos indígenas em seus discursos, em uma tentativa de alargar a população católica

Papa trabalha para manter igrejas cheias na América Latina
Papa Francisco esteve no Brasil em 2013 para a Jornada Mundial Jovem (Foto: Flickr)

O Papa Francisco chama a atenção com suas opiniões arrojadas sobre o clima e a desigualdade salarial. Mas, mesmo com todas as suas incursões em diplomacia internacional e toda a sua ousadia no que diz respeito à construção de imagem, sua atual viagem à América do Sul, que começou no último domingo, 5, vai testar as habilidades do pontífice no que pode ser sua tarefa mais difícil: atrair fiéis para as paróquias católicas e mantê-los lá.

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Em março de 2013, quando Francisco foi nomeado papa, tornando-se o primeiro pontífice latino-americano, foi aclamado por muitos como o tipo de figura que a Igreja Católica precisava há tempos para apelar a sua vasta base em países mais pobres. A mudança de tom – por um papa que enaltece os pobres, rejeita muitos dos luxos de seu cargo e até posa para selfies com fiéis – aumentou as esperanças de muitos católicos praticantes.

“Antes do Papa Francisco, a Igreja Católica estava fora de alcance”, disse Rosário Zuñiga, uma voluntária equatoriana que credita a Francisco “uma abordagem nova e humanitária”. “Ele tocou em assuntos muito sensíveis sobre a atitude da igreja em relação a seus próprios erros, como o abuso sexual”.

Mas se a mudança de imagem no topo será refletida em resultados práticos se mantém uma incógnita.

Na Argentina, país nativo de Francisco, o diretor da associação católica Justo Carbajes disse que, mesmo que o Papa tenha pessoalmente criado estímulo e interesse, a frequência nas missas e o número de casamentos católicos quase não aumentou. “Há uma assimetria. Os argentinos fortaleceram os laços com a figura do papa, mas nem todos o fizeram com a igreja”.

Na capital do Equador, onde o papa começou sua visita à America Latina, o Arcebispo Fausto Trávez demonstrou preocupação com o que ele considera o declínio da igreja nas décadas recentes, incluindo um decrescente número de padres.

Apesar disso, milhares de equatorianos se reuniram em Guayaquil nesta segunda-feira, 6, para a primeira missa do Papa Francisco em sua viagem de retorno à América do Sul, no Santuário da Divina Misericórdia, localizado a 27 km da cidade portuária, acampados nas ruas com sacos de dormir e estoque de alimentos. “Vai ser um dia muito especial, que vou compartilhar com aqueles que amo. Somos todos irmãos em Cristo”, disse Silvia Flores, médica de 43 anos que esperava na rua.

A ida do Papa a Guayaquil carrega um significado especial para o Equador e para seu presidente esquerdista, Rafael Correa, que tem sido alvo de protestos contra o governo há várias semanas. Francisco fez uma oração de 20 minutos para 2 mil convidados: pacientes, inclusive crianças, com câncer, idosos abandonados e fiéis de algumas das partes mais pobres da Guaiaquil.

Ao chegar ao santuário, brincou com os fiéis. “Dou a benção a vocês. Não, não vou cobrar nada, mas peço, por favor, que rezem por mim. Prometem?”

Agora ele se prepara para celebrar uma missa campal no gigantesco parque Samanes para pelo menos 1,2 milhão de pessoas, que desde domingo à noite fazem uma vigília em meio a canções e orações.

Igreja em decadência?

A América Latina e o Caribe tem 425 milhões de católicos, 39% do total mundial, de acordo com o Pew Research Center (PRC), em Washington. Mas, como qualquer corporação multinacional enfrentando queda nas vendas, quota de mercado decrescente, competição em ascensão e uma marca esgotada, a igreja está vulnerável.

Nos anos 1970, pelo menos 90% da população latina era católica. Mas este número começou a cair à medida que as igrejas evangélicas cresciam. Em uma pesquisa publicada em novembro pelo PRC, 69% dos adultos latinos se identificam como católicos.

Este é o cenário que Francisco encontra em sua primeira viagem como papa aos países de língua espanhola na América Latina, com visitas ao Equador, Bolívia e Paraguai.

“É um mercado de fé livre na América Latina”, disse Andrew Chesnut, um professor da Virginia Commonwealth University, que foi um consultor na pesquisa do PRC. “O monopólio católico que eles tiveram durante séculos acabou.

Os três países que o papa vai visitar estão entre os menores e mais pobres da América do Sul, mantendo a visita no foco de ajudar os pobres e evangelizar moradores das periferias. E todos os três, particularmente a Bolívia, têm um largo número de população indígena, que a igreja está perdendo.

“Se há um setor na sociedade latino-americana que mais abandonou a Igreja Católica, é a população indígena,” disse o professor Chesnut.

Ele disse que as igrejas Pentecostais têm sido rápidas em agregar pastores indígenas em países como Guatemala e Bolívia.

Algumas das inúmeras missas que serão presididas pelo papa incluirão textos em idiomas indígenas. Ainda assim, o problema é difícil de resolver. O Arcebispo Trávez disse que apesar de alguns seminaristas em sua arquidiocese virem de famílias indígenas, nenhum deles fala a língua nativa.

Quanto à visita de Francisco, o Arcebispo disse: “Acho que há muitas pessoas que entendem que o papa está vindo para resgatar as ovelhas perdidas.”.

Fontes:
New York Times-Pope Francis’ Visit to Latin America Will Test His Ability to Keep Catholics in the Fold
G1-Milhares acampam nas ruas para primeira missa do Papa no Equador
Globo-'Não vou cobrar nada, mas peço que rezem por mim', diz Papa a fieis no Equador

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