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Governo peruano enfrenta oposição de fujimoristas

O perdão concedido a Alberto Fujimori enfraqueceu a já frágil posição do presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski

Governo peruano enfrenta oposição de fujimoristas
As chances de sucesso do governo de Kuczynski são mínimas (Foto: Facebook/Presidencia Perú)

Em uma mensagem gravada, o presidente Pedro Pablo Kuczynski, em uma sala pouco iluminada e com o olhar angustiado de uma vítima de sequestro, disse aos peruanos que o perdão que havia concedido a Alberto Fujimori “tinha sido uma das decisões mais difíceis da minha vida”. Ao justificar sua posição dizendo que Fujimori não deveria “morrer na prisão, uma vez que a justiça não é vingança”, o presidente pediu que os peruanos esquecessem os “sentimentos negativos herdados do passado”.

O perdão concedido em 24 de dezembro foi o ponto culminante de uma turbulenta quinzena, que começou quando um comitê do Congresso recebeu documentos da construtora brasileira Odebrecht envolvida em um escândalo de corrupção na América Latina, referentes a contratos de consultoria com empresas ligadas a Kuczynski. O conteúdo desses documentos contradisse o testemunho escrito do presidente em outubro de 2017, no qual afirmara que não tinha vínculos diretos nem indiretos com a Odebrecht.

A empresa de consultoria Westfield Capital, de propriedade de Kuczynski, recebeu US$782 mil da Odebrecht por serviços de consultoria empresarial a partir de 2004, quando ele era ministro da Economia. Outra empresa, a First Capital, de Gerardo Sepúlveda, diretor da Westfield, recebeu US$4 milhões da Odebrecht entre 2010 e 2013 em contratos de consultoria. Em sucessivas explicações, Kuczynski insistiu que Sepúlveda fora o único responsável pela administração da Westfield no período em que esteve no governo, embora tenha admitido que recebeu dinheiro proveniente de “dividendos” do contrato da Odebrecht. Sua única ligação com a First Capital era o pagamento de honorários por trabalhos de consultoria, quando não ocupou os cargos de ministro da Economia e de primeiro-ministro.

O envolvimento de duas empresas vinculadas a Kuczynski com a empreiteira brasileira, que confessou ter pagado US$28 milhões em suborno no Peru, foi o suficiente para seus inimigos liderados por Keiko Fujimori o atacarem. O partido de Keiko, Força Popular, tem 71 das 130 cadeiras no Congresso, enquanto o partido do presidente tem apenas 18. A Força Popular e outros partidos de oposição apresentaram uma moção de impeachment com base no argumento de “permanente incapacidade moral”, previsto no artigo 113 da Constituição do Peru, segundo o qual a presidência deve ficar vaga caso o presidente demonstre “permanente incapacidade moral ou física declarada pelo Congresso”.

A derrota parecia inevitável e vários ministros insistiram com o presidente que ele deveria renunciar. No entanto, a oposição não conseguiu os dois terços de votos necessários para aprovar o impeachment, porque Kenji Fujimori, irmão de Keiko, convenceu dez deputados da Força Popular a se absterem de votar.

Três dias depois, Kuczynski concedeu indulto a Alberto Fujimori, presidente do Peru de 1990 a 2000, e uma das figuras mais polêmicas do país. Enquanto muitos peruanos defendem Fujimori por ter salvado a economia peruana do caos hiperinflacionário e de ter eliminando a guerrilha maoista Sendero Luminoso, outros o acusam de despotismo, corrupção e perseguição brutal a seus opositores. Fujimori foi condenado a 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade.

Em 24 de dezembro, Kuczynski convocou os ministros e os parlamentares de seu gabinete “para informá-los e não consultá-los” que iria conceder indulto a Fujimori. Poucos acreditaram que o perdão fora dado por questões humanitárias, e sim em razão de um acordo político com Kenji. Agora, refém dos fujimoristas e sem seu apoio original, as chances de sucesso do governo de Kuczynski são mínimas.

 

Fontes:
The Economist-Peru’s presidential hostage

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