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CONTRA A DESNUTRIÇÃO

Pesquisas incentivam cultivo de plantas e frutas na África

Novas pesquisas na África destinam-se a melhorar o cultivo de plantas e frutas pouca valorizadas pelos agricultores locais

Pesquisas incentivam cultivo de plantas e frutas na África
O estímulo ao cultivo de plantas abundantes na África, mas pouco exploradas diminuiria a carência alimentar da população (Foto: Pixabay)

Mandioca e batata doce. Feijão-de-porco e abóbora-moranga. Alfarroba, mussambê e taioba. Algumas dessas plantas são consumidas nos países desenvolvidos. Outras não, embora sejam cultivadas em várias regiões da África. Mas, apesar de serem ricas em nutrientes e aminoácidos, são desprezadas pelos agricultores porque não são culturas comerciais.

A alimentação deficiente em calorias e nutrientes básicos é prejudicial para adultos, porém pode causar danos irreversíveis em crianças. A desnutrição na infância é responsável por problemas sérios no desenvolvimento físico e cerebral. Segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicado em 16 de novembro, cerca de 60 milhões de crianças, o equivalente a um terço da população infantil da África, são subnutridas. De acordo com estimativas de pesquisadores do Banco Mundial os efeitos da desnutrição reduziram o Produto Interno Bruto (PIB) da África entre 9% e 10%.

O estímulo ao cultivo de plantas abundantes na África, ricas em vitaminas e proteínas, mas pouco exploradas diminuiria a carência alimentar da população. A ideia inspirou dois projetos recentes e inter-relacionados em Nairobi. Os projetos African Orphan Crops Consortium (AOCC) e African Plant Breeding Academy são realizados sob os auspícios do World Agroforestry Centre, uma organização internacional não governamental de pesquisa. A tarefa do AOCC é obter sequências completas do DNA de 101 culturas. Já o Academy destina-se a divulgar os resultados dos estudos para os jovens cientistas de universidades e de institutos de pesquisa do continente africano, que visitam Nairobi.

Howard-Yana Shapiro, diretor do departamento de agricultura de Mars, uma grande empresa de alimentos americana, foi o grande incentivador da criação do AOCC. Em um encontro casual com Ibrahim Mayaki, diretor da agência de desenvolvimento africana Nepad, Shapiro teve a ideia de repetir a experiência de sequenciamento do DNA do cacau realizada por cientistas da Mars em culturas tropicais. Os dois contataram Tony Simons, diretor do World Agroforestry Centre, e Rita Mumm, geneticista especializada em botânica agrícola da Universidade de Illinois e, em 2013, o grupo deu início aos projetos.

Até o momento, os pesquisadores do AOCC sequenciaram o DNA de dez culturas. E sequenciaram em parte mais 27. Assim que o mapeamento genético estiver pronto, as diferenças entre as variedades da mesma espécie poderão ser identificadas com mais facilidade. Os mapas também ajudam a descobrir a influência dos genes no comportamento das plantas e, assim, será possível acelerar o processo de criação de novas variedades que tenham mais resistência a vírus, pragas ou à seca, ou mais valor nutricional.

A criação e disseminação de novas culturas é um projeto de longo prazo, mas a abordagem baseada no DNA já deu resultados promissores. O cientista Robert Mwanga do International Potato Centre também usa o sequenciamento do DNA em suas pesquisas. Mwanga foi um dos primeiros defensores da melhoria científica das culturas africanas. Vencedor do prêmio World Prize em 2016, ele dedica-se à pesquisa de batatas doces. As variedades desses tubérculos encontrados em Uganda, sua terra natal e em outras regiões da África em meados da década de 1980, quando ele começou seus estudos, eram pobres em vitamina A. A falta dessa vitamina prejudica a visão das crianças e torna o organismo vulnerável a infecções e a doenças causadas por vírus, como sarampo.

A partir de uma variedade asiática mais rica em vitamina A, Mwanga criou uma dúzia de cepas com mais vitamina A e calorias do que as espécies africanas. Em seguida, liderou uma campanha bem-sucedida para incentivar os agricultores locais a adotar suas técnicas.

Outros pesquisadores estão estudando o aperfeiçoamento do cultivo de plantas e frutas. Enoch Achigan-Dako, da Universidade de Abomey-Calavi, no Benin, dedica-se a estudar as propriedades do amaranto, do mussambê e dos melões. As sementes de melões são ricas em gorduras e proteínas. Os melões também são resistentes a pragas, uma propriedade que Achigan-Dako espera transferir para as melancias, uma cultura importante na África Ocidental.

Julia Sibiya, da Universidade de KwaZulu Natal, em Durban, trabalha com sorgo, outra cultura africana pouco explorada. Sibiya e Achigan-Dako trabalham juntos na criação da MoBreed, um projeto pan-africano dedicado a aperfeiçoar o cultivo de dez espécies, entre elas o amendoim kersting, a maçã e o fonio, uma variante do painço.

Samson Gwali, da Organização Nacional de Pesquisas Agrícolas de Uganda, pretende usar os dados do AOCC para melhorar a produtividade e diminuir o tempo de crescimento da árvore carité. As nozes dessa árvore são a principal fonte de óleo de cozinha para 80 milhões de pessoas em 21 países equatoriais africanos.

No momento, o foco dessas atividades concentra-se na melhoria da agricultura de subsistência. Mas o potencial de expansão é grande. A demanda em países desenvolvidos por frutas, legumes e verduras exóticos está crescendo. As bananas, mangas, abacaxis e papaias são frutas tropicais consumidas no mundo inteiro. Com o aperfeiçoamento de novas técnicas de cultivo, algumas culturas africanas pouco conhecidas também poderão fazer sucesso no exterior.

Fontes:
The Economist - Improving the plants that Africans eat and breeders neglect

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