Início » Internacional » Poeira do deserto pode reduzir aquecimento global
Mudança climática

Poeira do deserto pode reduzir aquecimento global

Nuvens de pó do Saara refletem a luz solar e auxiliam a formação de nuvens

Poeira do deserto pode reduzir aquecimento global
Em 2008, uma mudança incomum no clima levou ventos ricos em ferro da África para a Europa

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

No dia 26 de maio de 2008, a Alemanha ficou vermelha. Os ventos da mudança, no entanto, não eram políticos, e sim, meteorológicos. Uma mudança incomum no clima levou ventos ricos em ferro da África para a Europa, não apenas alterando as cores dos telhados e dos automóveis no continente, mas também — de acordo com Max Bangert, um estudante do Karlsruhe Institute of Technology, tornando a Europa 0,25° mais fria durante o período em que a poeira africana esteve no ar.

Embora inusitada para a Alemanha, a situação é comum no resto do mundo. O Saara e outros locais de baixa umidade frequentemente lançam poeira na atmosfera, onde ela pode percorrer milhares de quilômetros e influenciar climas regionais, as temperaturas globais, e até mesmo o crescimento de florestas do outro lado do planeta.

No começo de 2008, por exemplo, Ilan Koren e seus colegas no Weizmann Institute of Science, em Israel, detectaram uma explosão volumosa de poeira oriunda da Depressão Bodélé. Esse reservatório de poeira no Chade, no qual grandes ventos dificilmente sopram, constitui menos de 1% do Saara, mas é reconhecido como o local mais seco do planeta, e imagina-se que ele seja responsável por um quarto ou mais da poeira aérea que sai do Saara.  

Koren observou a ascensão da poeira com uma câmera em um satélite chamado Aqua; observou ela obscurecer o sol usando um fotômetro automatizado em Ilorin, na Nigéria; a seguiu pelo Atlântico usando outro satélite, CALIPSO; e finalmente detectou um aumento em níveis de silício, alumínio e ferro quando a poeira atingiu os detectores em Manaus. Seus resultados, apresentados em um encontro da American Geophysical Union, em São Francisco, em dezembro, apresentaram um brilhante relato da transferência intercontinental de poeira.

Voando ao vento

A importância dessa cadeia logística de longa distância se tornou aparente apenas nos últimos anos, e pesquisadores ainda estão desvendando suas várias repercussões – já que quanto mais se examina a poeira, mais efeitos ela parece provocar. Atribui-se ao pó africano, por exemplo, o estímulo no crescimento das plantas da Amazônia com o carregamento de fósforo (que é escasso no local).  Isso pode resolver o que seria um limite na habilidade florestal de sugar o dióxido de carbono à medida em que as florestas crescem.

A poeira que não chega à terra firme pode fazer o mesmo pelos mares. Certas partes do oceano são pobres em ferro, algo que o pó vermelho do deserto tem em abundância. A poeira do Deserto de Gobi parece estimular aumentos no número de plânctons nas águas pobres em nutrientes do Pacífico Norte, embora não esteja claro se isso resulta em uma redução do dióxido de carbono na atmosfera, já que exigiria que parte desse plâncton afundasse até o fundo do mar, sem retornar.

A poeira nos ares esfria as terras abaixo, como os meteorologistas europeus descobriram em maio de 2008, e ela faz isso de maneira direta, refletindo a luz do sol, e indireta, ajudando na formação de nuvens. O efeito é significativo. O dióxido de carbono que se acumulou na atmosfera desde o início da revolução industrial deu origem a um efeito estufa equivalente à chegada de cerca de 1,6 watts de energia solar extra por m² da superfície terrestre. Estima-se que os efeitos da poeira provoquem um esfriamento de cerca de 0,14 watts por m². Com o efeito indireto das nuvens, esses níveis poderiam aumentar enormemente, embora ainda restem algumas grandes incertezas.

Esse esfriamento pode não ser tão útil em alguns lugares. A poeira que resfria o deserto pode alterar os padrões de fluxo de ar e diminuir a quantidade de chuva que cai nos arredores. Isso mataria plantas, aumentaria as possibilidades de incêndios, aumentando os níveis atmosféricos de dióxido de carbono.     

Para compreender melhor os efeitos do sobe-e-desce da poeira, seria importante ter registros históricos detalhados dos níveis de poeira nos ares ao redor do mundo. E foi isso que Natalie Mahowald, da Cornell University e outras 19 universidades conseguiram. Eles analisaram amostras de geleiras, fundos de lagos e recifes de corais, e mediram como os níveis de determinados elementos químicos mudaram com a profundidade e com o tempo. Eles então usaram modelos de circulação eólica global para deduzir quais fontes de poeiras se fortaleceram e quais se enfraqueceram. A conclusão, publicada recentemente na “Atmospheric Chemistry and Physics”, é a de que – em um ritmo repleto de interrupções – o ar se tornou duas vezes mais empoeirado no século passado.

Parte do aumento é decorrente de atividades humanas – diretamente, no caso da construção, ou indiretamente, quando ela é resultante de desmatamento em terras marginais para plantações. Outra parte da explicação pode ser o próprio aquecimento global, que altera os limites dos desertos, e intensifica a produção de poeira em algumas áreas.

Poeira atmosférica pode ser muito maior do que se imagina

A quantidade de poeira que é, de fato, injetada na atmosfera, no entanto, pode estar sendo subestimada. Em um recente estudo publicado no “Proceedings of the National Academy of Sciences”, Jasper Kok do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas, em Boulder, Colorado, afirma que a quantidade de poeira levada à atmosfera pelos ventos é, pelo menos duas vezes, e talvez até oito vezes maior do que se imaginava.

Ele não chegou a essa conclusão medindo a poeira diretamente por meio de aviões ou satélites, que só cobrem uma pequena porção da atmosfera, e que não são necessariamente bons para captar sinais, mas observando como o solo solto é afetado pelo vento e levantado até os ares.

Pequenas partículas de pó não ficam paradas até serem carregadas pelo vento. Ao invés disso, elas se alinham em pequenos amontoados. Somente quando esses amontoados se partem é que o pó é liberado. Isso acontece quando partículas mais pesadas são alçadas pelo vento e depois tornam a cair no chão destruindo os amontoados. O Dr. Kok mostra que esse rompimento, como qualquer outro, produz uma mistura de partículas de diferentes tamanhos. Essa mistura não corresponde à usada nos modelos climáticos, já que tem mais partículas grandes e menos partículas menores. A discrepância não parece ter sido notada antes, porque os métodos de medição de poeira são corrompidos pelos materiais mais nobres – que influenciam a temperatura aérea e a formação de nuvens.

As consequências dessa reavaliação ainda não estão claras, já que os efeitos do pó menos refinado ainda não são suficientemente compreendidos. Além disso, as partículas maiores caem da atmosfera mais rapidamente. O que está claro é que esse é outro exemplo do quão complicada é a atmosfera, e do quão amplo deve ser o leque de abordagens necessário para entendê-la.

Fontes:
Economist - A fistful of dust

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

2 Opiniões

  1. Markut disse:

    Beleza de investigação. Surpreendente e imaginativa.
    Para isto, sim, a estatística tem sentido e não para medir felicidade.

  2. vaumir disse:

    acho que se for possivel usar a poeira para diminuir o efeito estufa, por que não?
    so que deve primeiro avaliar se é viavel e se pode usar em escala global, ou não. claro que tambem analisar os efeitos que podem ser causados para a vida animal e vegetal. e em caso de ‘perca de controle’ ver o que esse efeito a longo prazo pode causar e se é facil reverte-lo.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *