Início » Internacional » Polêmica nas telas e confrontos nas ruas
Chile

Polêmica nas telas e confrontos nas ruas

Exibição de documentário pró-Pinochet termina com batalha entre policias e manifestantes em Santiago

Polêmica nas telas e confrontos nas ruas
Manifestantes protestam contra homenagem ao ex-ditador chileno Augusto Pinochet, em Santiago (EFE)

Centenas de pessoas protestaram do lado de fora do Teatro Caupolicán, em Santiago, onde partidários do ex-ditador Augusto Pinochet participaram da exibição de um documentário, refletindo as divisões que ainda existem no Chile quase 40 anos depois que o general tomou o poder em um sangrento golpe de Estado.

Leia Também: Vítimas oficiais de Pinochet podem dobrar
Leia Também: Ordenada prisão de 129 oficiais da era Pinochet

Fora do teatro, partidários de Pinochet exibiram cartazes e pequenas esculturas do ex-ditador e gritaram slogans irônicos sobre os mais de mil desaparecidos durante a seu regime. Pequenos grupos de manifestantes montaram barricadas e atiraram pedras contra a polícia, que usou gás lacrimogênio e canhões d’água para conter os manifestantes. 64 pessoas foram presas e outras 22 ficaram feridas.

Pinochet, o documentário dirigido por Ignacio Zegers, concentra-se nas razões que levaram o general a tomar o poder, e nas mudanças na política econômica introduzidas por seu regime. A exibição foi patrocinada por uma organização de oficiais militares aposentados e pela Corporação 11 de Setembro, batizada em homenagem ao dia do golpe, realizado em 1973. O evento contou ainda com a participação de figuras políticas dos Estados Unidos, França e Argentina, e de dois espanhóis franquistas que discursaram durante o evento.

Os manifestantes criticaram o filme, o qual classificaram como história revisionista. “Esta é uma homenagem a um assassino e um ladrão, responsável por mortes, torturas e exílio”, disse Bárbara Riquelme, que afirmou que seu pai, Samuel Riquelme, um ex-detetive, foi preso e severamente torturado após o golpe. “Este governo deveria ter negada a permissão para esta homenagem, mas isso não aconteceu, porque ele também tem sangue em suas mãos”. Organizações de direitos humanos e políticos de esquerda tentaram proibir a exibição do documentário, mas o governo chileno afirmou que deveria respeitar os direitos de liberdade de reunião e de expressão dos organizadores.

Ainda assim, um porta-voz do governo, Andrés Chadwick, do partido de direita UDI, expressou remorso pelo fato de que o partido que ajudara a fundar tenha apoiado o regime do general Pinochet. “Sinto profundo pesar por ter feito parte de um governo que violou brutalmente os direitos humanos”, disse Chadwick. Sua declaração foi considerada “irrelevante” por Augusto Pinochet Molina, neto do general, e único membro da família presente no evento. “Essa vem sendo a postura da direita há muito tempo. Não chega a ser uma surpresa. Muitos que estiveram ali, hoje renegam o governo militar”, afirmou Molina.

A opinião do neto do ex-ditador é compartilhada pelo popular advogado e colunista Hermógenes Pérez de Arce, que afirmou que o evento em si não era uma homenagem a Pinochet. “Paguei para assistir a um documentário que busca restabelecer a verdade. O Chile não conhece sua história recente e este documentário é um esforço nesse sentido. A esquerda chilena conseguiu convencer o mundo de que os crimes foram cometidos apenas de um lado”, declarou o advogado.

“Devemos nossas vidas a Pinochet. Ele era um bom presidente”, disse Carmencita, uma mulher mais velha, que se recusou a dizer seu sobrenome por medo de problemas com seus vizinhos. Referindo-se a Salvador Allende, o presidente socialista derrubado no golpe de 1973, ela afirmou: “Durante o governo de Allende, eu não conseguia comprar um quilo de açúcar sequer. Pinochet colocou este país em ordem com uma boa economia, que persiste até hoje”.

A ativista Camilla Vallejo, que ganhou popularidade com os protestos estudantis no ano passado, lamentou a decisão do governo chileno de não proibir o evento. “Foi uma enorme falta de respeito, não somente às muitas famílias de vítimas e desparecidos políticos, mas também para as famílias que hoje estão enfraquecidas pelas amarras da constituição política da ditadura militar e do legado de Pinochet”, afirmou Vallejo, que acusou o governo de “cumplicidade” com as homenagens a Pinochet. “A omissão também é uma forma de cumplicidade e apoio indireto a ações como essa”, declarou a ativista. O atual presidente chileno, Sebastián Piñera, aparece no polêmico documentário, condenando a prisão de Pinochet em Londres, em 1998.

Fontes:
El Mercurio - Homenaje a Pinochet deja 64 detenidos tras protestas
El Diario de Antofagasta - Camila Vallejo por homenaje a Pinochet: “Es una falta de respeto tremenda”
The New York Times - Hundreds Protest Screening of Pro-Pinochet Film in Chile

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *