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COREIA DO SUL

Político sul-coreano repreende professora por não ter filho

Jeong Kab-yoon pediu que professora universitária ‘cumprisse seu dever com a nação’. Declarações similares foram feitas no Japão. Relembre casos semelhantes

Político sul-coreano repreende professora por não ter filho
Coreia do Sul tem encarado problemas para aumentar a taxa de natalidade do país (Foto: Needpix)

A Coreia do Sul e o Japão estão com laços diplomáticos abalados devido a uma série de questões. Por outro lado, os países ainda parecem estar alinhados na forma de tratamento da mulher.

O político sul-coreano Jeong Kab-yoon, do partido conservador Liberty Korea (LKP, na sigla em inglês), criticou a professora universitária de economia Joh Sung-wook por priorizar a sua carreira profissional e não ter filhos.

“Estou ciente de que você ainda está solteira e o maior problema na Coreia do Sul é que as mulheres não estão dando à luz. […] Você tem um ótimo currículo, mas, por favor, cumpra seus deveres com a nação”, afirmou Kab-yoon à Sung-wook, que se tornou a primeira mulher a assumir a chefia da Comissão Nacional do Comércio.

Sung-wook não respondeu, dando um sorriso constrangido ao político. No entanto, a declaração de Kab-yoon não repercutiu bem, gerando críticas da população e se tornando assunto em alguns dos principais jornais do mundo.

Diante da repercussão negativa, Kab-yoon se desculpou, afirmando que apenas quis chamar a atenção para a baixa taxa de natalidade na Coreia do Sul. O país conta com uma das menores taxas de reprodução do mundo, com um recorde mínimo de 0,98 – o índice necessário para manter a população estável é 2,1.

O governo sul-coreano tem se esforçado para tentar mudar o quadro reprodutivo do país. Bilhões de dólares foram investidos em subsídios e em creches para incentivar que os casais tenham mais filhos. No entanto, as tentativas não têm surtido efeito positivo.

De acordo com o World Policy Analysis Center, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, as mulheres sul-coreanas têm direito a 52 semanas ou mais de licença-maternidade.

Similaridade com o Japão

Apesar do abalo nas relações, Japão e Coreia do Sul contam com várias similaridades, principalmente no que diz respeito ao tratamento da mulher e o alto declínio populacional.

Em maio de 2018, Kanji Kato, integrante do Partido Liberal Democrata, o mesmo do primeiro-ministro Shinzo Abe, culpou as mulheres pelo declínio populacional do Japão. Kato disse que costuma aconselhar mulheres a terem “pelo menos três filhos”.

“Eu digo a elas que, se não casarem, não poderão ter filhos e terminarão em uma casa de repouso bancada através de impostos cobrados dos filhos de outra pessoa”, afirmou o parlamentar.

Kato não é o único no Japão a delegar unicamente às mulheres a tarefa de criar os filhos. Parte da população do país critica as mães que mantêm uma vida profissional após dar à luz. A opinião pública tem mudado, conforme apontou uma pesquisa do governo japonês de 2016, mas a rejeição ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal de uma mãe ainda é muito grande.

Em 2017, a parlamentar Takako Suzuki revelou que estava grávida de seu primeiro filho. Após o anúncio, Suzuki recebeu diferentes críticas por parte de pessoas que consideravam que ela estava deixando o cargo, mas seguiu em frente. Após dar à luz, a parlamentar optou por não amamentar sua filha, ou a deixava com familiares, e voltou a ser duramente criticada. O Japão, mesmo oferecendo licença-maternidade, não estende a concessão a políticos.

Em outro caso ocorrido em 2017, a vereadora japonesa Yuka Ogata foi expulsa de uma sessão do conselho municipal por ter levado seu filho de apenas sete meses. O argumento utilizado foi que apenas políticos, funcionários e autoridades poderiam participar da assembleia.

Já no início deste ano outro político japonês demonstrou que a mentalidade do país pouco foi modificada em relação às mulheres. O ministro das Finanças do Japão, Taro Aso, afirmou que as mulheres que não estão dando à luz são culpadas pelo aumento do custo da seguridade social do país. Após pressão, Aso se desculpou, mas afirmou que sua fala foi tirada de contexto.

Mães na política

O problema da acessibilidade de mães na política, porém, não é apenas de países asiáticos. Em 2016, uma foto da então deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) rodou o mundo depois que a parlamentar apareceu amamentando sua filha, Laura, durante uma sessão da Assembleia da Comissão de Direitos Humanos. Pelas redes sociais, D’Ávila refletiu sobre a repercussão:

“O que chama atenção na foto em minha opinião? Mulheres em espaço de poder, crianças em espaços de poder, vida em espaços de poder. A política é masculina e machista, a política não tem espaço para as mulheres, a política não tem espaço para o que nos diferencia dos homens, a política não tem espaço para a ingenuidade e para a alegria das crianças, não tem espaço para a naturalidade com que conciliamos nosso trabalho e nossas lutas com nossos bebês”, escreveu no Facebook.

Alguns meses depois, foi a vez da imagem de uma senadora australiana amamentando rodar o mundo. Larissa Waters, do Partido Verde, se tornou, em 2017, a primeira política a amamentar no Parlamento da Austrália – prática que já era permitida desde 2003. Na ocasião, Waters recebeu o apoio das colegas parlamentares.

“Mulheres têm feito isso em Parlamentos ao redor do mundo. Mulheres vão continuar tendo filhos e, se elas quiserem trabalhar e cuidar do bebê… a realidade é que a gente vai ter que se acostumar com isso [amamentação no local de trabalho]”, afirmou a senadora Katy Gallagher, do Partido Trabalhista.

Leia também:Ministro japonês das Finanças tem um quê de Damares Alves

Fontes:
The Guardian-Politician scolds female professor for not having child
Observador-Deputado sul-coreano repreende professora universitária por não ter filhos

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