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'ENVIEM-NA DE VOLTA’

Por que Trump acirra eleitores contra deputada somali?

Ao atacar Ilhan Omar, Trump fala diretamente ao eleitorado ultranacionalista que o elegeu em 2016, na campanha 'Make America Great Again'

Por que Trump acirra eleitores contra deputada somali?
Escolha da Carolina do Norte para o polêmico discurso não foi ao acaso (Foto: Twitter/Caroline Craig)

O presidente americano Donald Trump tornou a atacar quatro deputadas democratas não brancas, que compõem no Congresso o bloco chamado “O Esquadrão”, em um comício na Carolina do Norte na última quarta-feira, 17.

O presidente tinha como alvo em especial Ilhan Omar, deputada pelo estado de Minnesota, filha de refugiados somalis que chegaram aos Estados Unidos quase 30 anos atrás. Omar tinha oito anos de idade quando sua família migrou para os Estados Unidos, após passar quatro anos vivendo em um campo de refugiados no Quênia.

Três dias atrás, Trump atacou Omar e as deputadas Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna Pressley e Rashida Tlaib em uma série de postagens no Twitter, nas quais exortou o grupo a “voltar para seu país de origem”– ignorando o fato de que, com exceção de Omar, todas as integrantes do Esquadrão nasceram nos Estados Unidos. Os comentários foram desaprovados pela maioria dos americanos, segundo apontaram sondagens feitas sobre o assunto.

Apesar disso, no comício de quarta-feira, Trump tornou a atacar o grupo. “Essas congressistas, seus comentários estão ajudando a inflamar o surgimento de uma esquerda extrema, militante e perigosa. Tenho uma sugestão para as extremistas cheias de ódio que constantemente tentam dividir nosso país. Elas nunca têm nada de bom para dizer. Por isso eu digo: se elas não gostam, então deixemos elas irem”, disse o presidente americano.

Em seguida, Trump tornou a acusar Omar falsamente de celebrar o 11 de setembro e de expressar admiração pelo grupo Al Qaeda. Tais declarações inflamaram o público presente, que passou a entoar o coro “Enviem-na de volta. Enviem-na de volta. Enviem-na de volta”.

A falsa acusação contra Omar foi criada em abril deste ano, quando o presidente americano postou em sua conta no Twitter um vídeo intitulado “Nós nunca esqueceremos!”, nos quais deturpou um discurso de Omar, intercalando trechos de sua fala, retirados de contexto, com cenas dos atentados de 11 de setembro.

A escolha da Carolina do Norte para o discurso inflamado contra as deputadas não foi ao acaso. Trump venceu Hillary Clinton na Carolina do Norte, nas eleições de 2016, por uma diferença de 49% a 46% – margem de vantagem considerada alta para um pleito apertado. Vale ressaltar que a frase “Enviem-na de volta” remete ao coro “Lock her up” (“Prendam-na”, em tradução livre) criado em comícios de Trump contra Hillary no pleito de 2016, por conta do caso envolvendo o uso de e-mails pessoais pela então candidata para tratar de assuntos oficiais.

Ao atacar congressistas não brancas e de origem estrangeira, Trump fala diretamente ao seu eleitorado e reacende a chama de sua campanha de 2016 “Make America Great Again” (‘Faça dos EUA grandiosos novamente”, em tradução livre), marcada por forte viés ultranacionalista e apoiada por grupos supremacistas contrários a imigrantes. Trump também recorre à estratégia de projetar nas deputadas sua própria ação, acusando-as de acirrar a divisão e o ódio, enquanto é ele quem pede pela deportação e acirra a polarização.

A tática, no entanto, abre um precedente perigoso, além de ir contra o que fez dos Estados Unidos a principal nação do planeta em termos econômicos e cultural. Isso porque o território americano foi o destino de muitos imigrantes, vindos de diferentes partes do mundo, cuja contribuição cultural e laboral ajudaram a fazer dos EUA o que o país é hoje. O próprio presidente americano é proveniente de uma família que migrou da Alemanha para os EUA.

O discurso de Trump no comício despertou reação de parlamentares democratas e republicanos, que atualmente se preparam para as primárias, e também da opinião pública.

“Eu desfio cada republicano a assistir o comício de @realDonaldTRump da noite passada, permeado de coros de ‘Enviem-na de volta’, e se questionar se este é o partido de Lincoln e Reagan o qual nos filiamos. Estamos em uma luta pela alma do GOP [sigla para ‘Great Old Party’, termo usado em referência ao Partido Republicano], e o silêncio não é uma opção. #AmericaDeservesBetter [“Os EUA merecem algo melhor”, em tradução livre]”, escreveu o republicano Bill Weld, ex-governador do estado de Massachusetts que concorre nas primárias republicanas.

“Senhor presidente, venho lhe informar isso. Este é o NOSSO país: os Estados Unidos da América. Você nunca entenderá o que nos torna forte. E é por isso que o povo americano votará pela sua saída da presidência no próximo ano”, escreveu o democrata Joe Biden, que também concorrerá às primárias e é considerado o principal adversário de Trump no pleito de 2020.

Outro que se pronunciou foi o democrata Bernie Sanders, que também concorrerá às primárias. Considerado um azarão no pleito de 2016, ele iniciou a disputa eleitoral daquele ano sem muito crédito, mas conquistou apoio popular, se tornando uma força política nas eleições deste ano. Apesar disso, muitos consideram suas ideias socialistas demais para os EUA. Em seu comentário, Sanders mencionou a hashtag #IStandWithIlhan [“Eu apoio Ilhan”, em tradução livre], lançada nas redes sociais para expressar apoio a Omar.

“#IStandWithIlhan e tenho orgulho de trabalhar ao lado dela no Congresso. Trump está alimentando as correntes mais desprezíveis e perturbadoras de nossa sociedade. E esse mesmo ódio e racismo o alimenta. Devemos lutar juntos para derrotar o presidente mais perigoso da história do nosso país”, escreveu Sanders.

Omar também se manifestou, por meio de sua conta no Twitter. “Eu estou aqui, eu pertenço à Câmara do Povo [Termo usado em referência à Câmara dos Representantes] e você simplesmente terá de aprender a lidar com isso”, escreveu Omar.

Em contraponto, nem tudo foram críticas. Houve também quem apoiasse os comentários do presidente americano, porém em número bem inferior, o que confirma as sondagens sobre os comentários do presidente. Um deles foi o senador republicano Lindsey Graham.

“Não acho que foi racismo dizer isso. Não acho que um somali que apoia Trump ouviria isso dele. Seria racismo se ele pedisse para todos da Somália irem embora”, disse Graham a jornalistas.

Já entre a opinião pública, os principais comentários sobre o assunto nas redes sociais usavam a imagem da primeira-dama Melania Trump, de origem eslovena, para satirizar a fala do presidente americano, ao colocar a foto de Melania com a frase “Enviem-na de volta”.

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