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Armados até os dentes

Porte de armas é um valor conservador absoluto nos EUA?

EUA estão se tornando uma sociedade cada vez mais polarizada, e ninguém está prestes a desarmar ninguém

Porte de armas é um valor conservador absoluto nos EUA?
Uma feira de armas em Houston, Texas. Porte de armas é tratado como um direito fundamental por republicanos (Foto: Wikipédia)

Os americanos estão confiantes de que nenhuma nova lei limitando o acesso a armas de fogo será aprovada nos EUA como resultado do ataque racista da última quarta-feira, 17, que deixou nove mortos em uma igreja frequentada por negros em Charleston, na Carolina do Sul. Os americanos têm certeza disso por várias razões.

Leia também: Membro do conselho do NRA culpa pastor por mortes em Charleston

Se fosse politicamente possível passar novas leis em Washington limitando o acesso a armas, isso teria acontecido depois do massacre em uma escola na cidade de Newton, Connecticut, em dezembro de 2012. É difícil imaginar uma tragédia mais calculada para chocar as consciências americanas: 20 crianças e seis funcionários foram mortos a tiros em uma escola primária por um jovem perturbado, empunhando um rifle da coleção de armas de sua mãe.

Vários ajustes marginais às leis sobre armas foram propostos à época, mas nenhum ganhou força no Congresso. Finalmente, um empurrão bipartidário foi feito para, meramente, fazer cumprir melhor as leis existentes. Isso teria ampliado o número de compradores de armas cujos antecedentes criminais ou doenças mentais são investigados mais a fundo. A iniciativa falhou.

Os americanos estão confiantes de que a Carolina do Sul também não está prestes a passar novas leis contra o porte de armas. Uma prova é esta fotografia abaixo, tuítada por um repórter local, mostrando o governador do estado e um senador sentados enquanto a plateia inteira aplaude de pé um apelo por maiores restrições ao porte de armas feito durante uma vigília em Charleston.

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Para eles era mais fácil suportar um constrangimento passageiro do que enfrentar acusações de republicanos locais de que eles são contra o que os conservadores consideram ser um direito quase absoluto, expresso na Segunda Emenda da Constituição americana, de portar armas.

Mas, para melhor entender por que as leis sobre armas nos EUA não estão prestes a mudar, é preciso também reconhecer o poder desproporcional do lobby das armas. A National Riffle Association (NRA, o maior grupo de lobby pró-armas do país) atrai simpatizantes com um discurso magistral de medo e desconfiança do governo, e intimida políticos republicanos tratando o apoio ao direito de portar armas como um valor conservador inquestionável. De forma consistente e muito eficaz, o grupo desvia a atenção das armas para a doença mental.

E tem mais uma última razão por que as leis americanas sobre armas são tão difíceis de se mudar: os EUA estão se tornando uma sociedade cada vez mais polarizada.

Americanos de diferentes crenças políticas têm vidas cada vez mais diferentes. Isso acrescenta um elemento de tribalismo cru ao que deveria ser uma questão objetiva de ordem pública.

Em 2000, os republicanos eram mais propensos do que os democratas a pensar que as armas tornam suas casas mais seguras, por uma margem de 44% a 28%. Pouco antes da eleição de Obama, em 2008, os democratas se tornaram mais amigáveis às armas, com 41% pensando que elas são uma fonte de segurança, em comparação com 53% dos republicanos. Pouco depois, o abismo entre as duas partes explodiu. Em 2014 os democratas ainda estavam em 41%, mas 81% dos republicanos agora diziam que uma arma torna seus lares mais seguros. Ou seja, na política e na sociedade americana, ninguém está prestes a desarmar ninguém.

Fontes:
The Economist - Why gun control is doomed

3 Opiniões

  1. Cláudio César disse:

    Os massacres ocorridos na Igreja e na escola, só foram possíveis pela falta de alguém armado para se defender e defender os outros. Por exemplo: a chacina que ocorreu no Rio de Janeiro(também em uma escola), poderia ter sido parada logo no início dos disparos, se houvesse um professor, diretor, inspetor ou outro funcionário com porte e treinamento adequado. Não teriam morrido tantas crianças.

  2. Ludwig Von Drake disse:

    Este assunto merece três considerações:
    1- Admiro a maneira como os USA levam sua liberdade às últimas consequências, o que serve para mostrar que a democracia não é totalmente necessária;
    2- Os americanos parecem entender que o que mata as pessoas não são as armas, mas sim a mentalidade de quem as usa; e que não adianta acabar com as armas se não mudar a mentalidade; e
    3- O apego dos americanos às armas mostram que eles (e todos nós) estão na idade da pedra, só aperfeiçoaram o tacape.

  3. olbe disse:

    Faz parte da cultura americana andar armado mas no Brasil se mata muito mais do que lá. Acontece que um menino, que não estuda, não tem amigos, fica o tempo todo dentro do quarto e que tem comportamento que todos dizem não ser normal para a idade dele, não poderia nunca receber do próprio pai, como presente de aniversário, uma arma. O pai é ainda mais culpado do que ele , que tem um problema mental. Ou deu a arma pra ele matar ou deu a arma para que ele se matasse.

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