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CENSURA

Presidente do Egito eleva repressão a jornalistas

Prestes a obter a reeleição em um pleito presidencial de fachada, Abdel-Fattah al-Sisi aumenta a perseguição a jornalistas

Presidente do Egito eleva repressão a jornalistas
Poucos dias antes de sua vitória, Sisi está se sentindo ameaçado (Foto: kremlin.ru)

O presidente do Egito, Abdel-Fattah al-Sisi, não poderia ter um porta-voz melhor do que Khairy Ramadan, um apresentador de um programa de entrevistas na televisão. Quando os ativistas começaram uma campanha para ridicularizá-lo no Twitter, Ramadan sugeriu proibir o acesso à rede social. E, assim como Sisi, ele refere-se à revolução de 2011, quando o ditador Hosni Mubarak foi deposto, como uma conspiração internacional.

Mas durante seu programa em 18 de fevereiro, Ramadan citou a história de um coronel da polícia que ganhava 4.600 libras egípcias (cerca de R$ 857) por mês. Para complementar a renda da família, a esposa do coronel trabalhava como faxineira. Ramadan, que não esconde a grande simpatia que sente por policiais violentos, perguntou ao seu entrevistado por que os policiais eram tão mal remunerados. Sua pergunta foi considerada desrespeitosa e a polícia o prendeu em 3 de março.

No final deste mês, os egípcios irão às urnas para reeleger Sisi. Concorrentes fortes foram presos ou coagidos a desistir de concorrer à presidência. Seu único opositor, Moussa Mustafa Moussa, foi obrigado a registrar sua candidatura poucas horas antes do prazo final, para evitar o constrangimento de uma eleição com um único candidato. Moussa recusou-se a participar de um debate na televisão, alegando ser um “desrespeito” inaceitável ao presidente.

No entanto, poucos dias antes de sua vitória, Sisi está se sentindo ameaçado. Os egípcios comentam as intrigas do palácio, como a demissão de Khaled Fawzy, diretor da agência de inteligência, que não é visto em público desde janeiro. Os motivos da demissão e da aparente prisão não são claros. O tom do discurso de Sisi ficou sombrio, com ameaças e acusações de conspirações. Com frequência, ele refere-se às “forças do mal” que ameaçam o Egito.

Uma delas é uma emissora britânica. A BBC causou um tumulto ao transmitir um documentário curto sobre tortura e desaparecimento de pessoas no Egito. Em resposta, o promotor público, Nabil Sadek, insultou os jornalistas estrangeiros. O governo suspendeu o contrato de transmissão de noticiários com a BBC. Uma das vítimas, Zubaida Ibrahim, apareceu na televisão local negando que tivesse sido torturada. Pouco depois, sua mãe foi presa e seu advogado desapareceu.

Logo após a revolução, os jornalistas egípcios tinham liberdade de expressão e não sofriam pressão política. Mas se uniram em protesto contra a vitória da Irmandade Muçulmana nas eleições em 2012. Assim como grande parte da elite, os jornalistas se opunham ao grupo islâmico e apoiaram o golpe de Estado em 2013 que deu o poder a Sisi.

Porém, apesar do apoio, a imprensa é alvo de perseguição no Egito. O Egito é dos países com mais jornalistas presos. No começo deste mês, dois repórteres foram detidos enquanto preparavam um artigo sobre o bonde elétrico de Alexandria. Sadek deu ordens aos seus funcionários para vigiarem a mídia e ficarem atentos a qualquer atitude “prejudicial aos interesses da nação”. Embora o direito à liberdade de expressão conste do texto da Constituição, a crítica à polícia é imperdoável. “Difamá-la equivale a um ato de traição”, disse há pouco tempo o presidente Sisi.

Um número crescente de jornalistas trabalha em veículos de comunicação controlados pelo governo. Dois canais de televisão por satélite são administrados por ex-oficiais do serviço de inteligência militar. Em dezembro, um fundo de private equity ligado ao governo comprou vários meios de comunicação, entre os quais a ONTV, um canal popular de televisão e o Youm7, um jornal com um grande número de leitores. A organização Repórteres sem Fronteiras disse no ano passado que estava preocupada com “o domínio da mídia pelo governo”.

Ramadan foi libertado sob fiança, embora ainda enfrente acusações criminais. Sua prisão gerou protestos de órgãos da imprensa que, em geral, apoiam o governo. As críticas à farsa da eleição presidencial também estão circulando nas redes sociais e na mídia.

Em fevereiro, Moussa foi entrevistado por Lamis al-Hadidi em um programa de televisão. A jornalista perguntou se sua família aceitava sem objeções o gasto de 20 milhões de libras egípcias em uma eleição que não iria ganhar. “O senhor deveria retirar sua candidatura antes de 1º de março para não causar problemas familiares”, aconselhou. Felizmente, Moussa não é um policial, apenas um homem subserviente que concordou em fazer parte de uma farsa. Importuná-lo com uma pergunta indiscreta não é crime.

Fontes:
The Economist-Ahead of a farcical election, Abdel-Fattah al-Sisi goes after the press

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