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ONDA DE MANIFESTAÇÕES

Primeiro-ministro do Haiti renuncia após protestos

Governo aproveitou o jogo entre Brasil e Bélgica na Copa do Mundo para aumentar o preço dos combustíveis, o que gerou uma onda de protestos no país

Primeiro-ministro do Haiti renuncia após protestos
Gasolina ia aumentar em 38%, diesel em 47% e querosene em 51% (Foto: Jack Guy Lafontant/Twitter)

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Uma onda de intensos protestos no Haiti culminou na renúncia do primeiro-ministro Jack Guy Lafontan. As manifestações tiveram início após o governo anunciar um aumento de quase 50% no preço dos combustíveis, fruto de corte de subsídios.

Um dos motivos da revolta é o fato de o aumento ter sido anunciado durante a partida entre Brasil e Bélgica, pelas quartas de final da Copa do Mundo. Acredita-se que o governo tentou usar a partida como uma distração para anunciar o impopular pacote de medidas. Isso porque a torcida pela seleção brasileira é muito grande em diferentes países da América Central e da África. Logo, a expectativa é que toda a atenção da população estivesse voltada para o jogo, o que não aconteceu. Ao perceber o aumento e timing do anúncio, a população foi às ruas.

Acuado pelos intensos protestos, o governo suspendeu o fim dos subsídios – a gasolina aumentaria em 38%, o diesel em 47% e a querosene em 51%. No entanto, isso não foi o suficiente para acalmar a população, que mostrava grande desconfiança na atuação de Lanfontant. Pelo menos sete pessoas morreram e dezenas de empresas foram saqueadas durante as manifestações.

Sem alternativas, o primeiro-ministro, que estava há pouco mais de um ano no cargo, preferiu atender os protestos e renunciou. De acordo com Lanfontant, o presidente do Haiti, Jovenel Moise, prontamente aceitou a renúncia. O receio é que, caso não tivesse renunciado, os protestos poderiam se intensificar.

Agora, cabe ao presidente haitiano e aos líderes do Parlamento escolherem o próximo primeiro-ministro do país.

Haiti e FMI

A tentativa de corte de subsídios que geraria o aumento no preço dos combustíveis foi motivada por um acordo firmado pelo Haiti com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em fevereiro, um acordo assinado pelas duas partes determinava que o Haiti deveria promover reformas estruturais e econômicas.

Como alternativa para o fim repentino dos subsídios, o FMI sugeriu, na última quinta-feira, 12, “uma abordagem mais gradual” em conjunto com “medidas compensatórias e mitigadoras para proteger as pessoas mais vulneráveis”. Desde 2015, a inflação no país varia entre 13% e 14% ao ano. Cerca de 60% da população haitiana vive com menos de US$ 2 por dia.

Com a manutenção dos subsídios, o governo precisa pensar em novas alternativas para chegar aos US$ 300 milhões que o corte iria gerar. A quantia é significativa e equivale a cerca de 11% do orçamento 2018-2019 apresentado ao Parlamento.

Haiti e Brasil

A seleção brasileira de futebol tem uma torcida tão grande no exterior quanto no Brasil. Seus principais torcedores estão em países da América Central e da África, que se identificam com os jogadores e com o povo brasileiro. No Haiti, isso não é diferente.

O site esportivo Trivela relembrou uma entrevista de um torcedor haitiano em 1994, quando o Brasil conquistou o seu quarto título mundial. A frase do haitiano foi tão impactante que ficou registrada no livro Football Against The Enemy, de Simon Kuper. Na época, o presidente americano Bill Clinton cogitava invadir o Haiti.

“Você está perguntando o que é mais importante, o título do Brasil ou a invasão dos Estados Unidos em nosso país? Nós temos fome todos os dias. Nós temos problemas todos os dias. Os americanos falam em invadir todos os dias. Mas temos apenas uma Copa do Mundo a cada quatro anos”, disse o torcedor.

Desde o início do século XXI, porém, a proximidade dos haitianos com o Brasil aumentou ainda mais. Durante o catastrófico terremoto de 2010 no Haiti, o Brasil foi um dos principais países a apoiar os haitianos, recebendo refugiados e fazendo doações de dinheiro e alimentos. Na ocasião, mais de 230 mil pessoas morreram, 300 mil ficaram feridas e 1,5 milhão perderam suas casas.

Antes mesmo disso, o Brasil já era presença constante para auxiliar o Haiti em diferentes assuntos. No país desde 2004, o Brasil enviou ao todo 37,5 mil militares ao Haiti, além de ter investido R$ 2,5 bilhões – parte do dinheiro foi reembolsado pela Organização das Nações Unidas.

 

Leia também: Haiti acusa ONU de interferência em assuntos internos

Fontes:
Al Jazeera-Haiti PM Jack Guy Lafontant resigns after days of protests

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