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Putin e o desejo de minar a democracia liberal

Novo livro analisa movimentos que influenciaram a ideologia da Rússia de Vladimir Putin

Putin e o desejo de minar a democracia liberal
Putin admira a ideologia antiliberal do historiador Lev Gumilev (Foto: Kremlin)

Um longo caminho separa as ideias bizarras da filosofia russa dos violentos eventos em Kiev no início de 2014. No entanto, para Timothy Snyder, um historiador de Yale e autor de muitas obras sobre a Europa Central, o pensamento filosófico russo teve uma grande influência nos acontecimentos na Ucrânia. Em seu livro mais recente, The Road to Unfreedom: Russia, Europe, America, Snyder analisa o esforço obstinado da Rússia de Vladimir Putin para enfraquecer a democracia liberal baseada no estado de direito.

Sua narrativa descreve a anexação da Crimeia pela Rússia, e os conflitos entre as forças ucranianas e os separatistas apoiados pelos russos no leste da Ucrânia. Mas Snyder não se limita ao relato objetivo desses fatos e estende sua análise aos fundamentos ideológicos que motivaram essa política do Kremlin.

Foto: Divulgação/Amazon

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O presidente Putin tem uma grande admiração por Ivan Ilyin, um dos intelectuais que os bolcheviques deportaram em 1922 para os campos de trabalhos forçados. Um ideólogo da diáspora russa, Ilyin admirava o fascismo italiano, embora tenha criticado os nazistas alemães com os quais conviveu na década de 1930. Na visão de mundo de Ilyin um monarca, e não leis ou a Constituição, deveria ser a autoridade suprema na Rússia.

Putin também admira a ideologia antiliberal do historiador Lev Gumilev, segundo o qual o impulso coletivo das nações, ou passionarnost, um neologismo criado por ele, originava-se dos raios cósmicos. Nessa concepção excêntrica do mundo, o vigor e o dinamismo do Ocidente se esgotam aos poucos, enquanto a Rússia tem a energia e a vocação para criar um poderoso Estado eslavo-turco, uma unidade política de uma nova Eurásia.

De acordo com o autor, essas doutrinas compartilham a crença quase mística no destino das nações e dos seus governantes, que elimina as regras das leis e da realidade física. O imperativo espiritual transcende as questões mundanas e, assim, a política e a busca da verdade tornam-se supérfluas ou até mesmo perigosas.

Como Snyder relatou, a política de Moscou em relação ao conflito na Ucrânia, embora alienada da realidade, foi insidiosamente persuasiva. A mídia estatal reforça a ideia que os inimigos da Rússia são o nazismo e a decadência ocidental simbolizada pela homossexualidade. No Ocidente, a esquerda teme o nazismo, enquanto os conservadores sociais rejeitam a homossexualidade. Mas para os russos eles constituem uma ameaça dupla. Diante desses adversários, não resta outra opção a não ser a adoção de medidas draconianas.

Snyder também descreve as iniciativas do Kremlin para enfraquecer a União Europeia, com a estratégia de apoiar os partidos eurocéticos de extrema-direita e da esquerda radical, assim como se esforça para diminuir a hegemonia política e econômica dos EUA.

Em The Road to Unfreedom, o autor associa a abordagem jornalística inteligente e polêmica à descrição da história das ideias e a uma reflexão metafísica sobre política e filosofia. Essa maneira de interpretar os fatos, na opinião de Snyder, justifica-se em razão da mudança em um ritmo vertiginoso na geopolítica mundial e no discurso político, que exige um talento especial do jornalista em processar fatos e do filósofo em examinar ideologias. Ele tem esse duplo talento.

Fontes:
The Economist-Understand Putin by understanding his favourite thinkers

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2 Opiniões

  1. Luiz Gonzaga Scortecci de Paula disse:

    As interpretações da realidade vagam para além do que nos parecem ser a essência dos fatos, porque os fatos e as forças que os geram não são passíveis de entendimento a partir de qualquer tipo de análise histórica, filosófica, política, ideológica ou psicológica, uma vez que suas raízes estão para lá da dita “fisicalidade”. Têm seus fundamentos no que a falta de uma denominação coloca como “mundo espiritual”. A partir dele, desse “Mundo Espiritual”, é que os fatos encontram suas verdadeiras razões de ser, suas causas reais, a mecânica de seus processos e, assim, os verdadeiros rumos que estão impondo aos destinos do Mundo, do Planeta no contexto dos domínios de sua Estrela, e das sucessivas frações da Humanidade Cósmica que por aqui têm passado suas sucessivas vidas.

  2. Markut disse:

    A guerra de interesses , nem todos confessaveis,do ponto de vista humanístico, mostram a imutabilidade da natureza humana,ao longo da sua longa saga histórica.
    O desafio consiste no esforço permanente , feito a lenda da pedra de Sísifo, em atenuar esse viés natural, procurando condições que permitam o afloramento do lado menos obscuro da índole humana.

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