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CONTAGEM NEBULOSA

Qual o número exato de mortos na guerra na Síria?

Artigo do 'New York Times' alerta que saber o número de mortos na guerra na Síria é crucial para estimular o senso de urgência em encerrar o conflito

Qual o número exato de mortos na guerra na Síria?
Estimativas apontam para até 500 mil mortos, sendo a maioria esmagadora civil (Foto: AFP)

Um artigo publicado nesta sexta-feira, 13, no New York Times, chama atenção para a importância de contabilizar o número de mortos na guerra na Síria. O texto alerta para a dificuldade encontrada por organizações que realizam o trabalho, baseadas no país e no exterior, para as divergências nos números registrados e para o fato de que saber o número exato de mortos no conflito é algo essencial para que ele termine.

Iniciada em 2011, a guerra se tornou mais difusa e complexa e a escalada da violência em várias regiões do país fez com que muitos grupos de monitoramento internacionais deixassem de contabilizar o número de mortos. Segundo o artigo do ‘NYT’, a última estimativa não oficial da ONU, apresentada em 2016, aponta para 400 mil mortos, mas desde então grandes episódios de violência ocorreram, tornando defasado o registro da organização.

“Nos últimos dois anos, o governo do presidente Bashar al-Assad, com a ajuda da Rússia, sitiaram vastas regiões residenciais de Alepo, antes a segunda maior cidade do país, e muitas outras áreas controladas pela oposição. […] No fim de semana passado, um ataque químico deixou dezenas de mortos nos arredores de Damasco”, diz o texto.

O texto lembra que bombardeios da coalizão americana que tinham como alvo jihadistas do Estado Islâmico (Isis) deixaram milhares de mortos no leste da Síria, bem como embates de outros grupos no país, como milícias apoiadas pelo Irã. A maioria esmagadora dos mortos é composta de civis, o que criou uma catástrofe humanitária que o mundo luta para mesurar.

O artigo também lembra que, historicamente, a contagem de mortos é importante, pois tem impacto direto na política, na responsabilização e estimula o senso global de urgência em cessar conflitos.

“O legado do Holocausto se tornou intrinsecamente ligado à figura de 6 milhões de judeus mortos na Europa. O espantoso número de mortos no genocídio em Ruanda – 1 milhão de tútsis mortos em 100 dias – marcou o processo de reconciliação no país. Sem uma contagem clara das mortes, ativistas temem que o conflito [na Síria] vai simplesmente cair na indefinição, sem um esforço internacional concreto para que ele se encerre”, diz o artigo.

No princípio do conflito, muitos jornalistas e diplomatas se baseavam na contagem de mortos feita pelo Comitê de Direitos Humanos da ONU. Porém, o órgão parou de contabilizar oficialmente as mortes à medida que o conflito se intensificou e se tornou mais complexo. No início de 2016, o enviado especial do órgão para a Síria, Staffan de Mistura, disse estimar 400 mil mortos, mas descreveu a projeção como uma estimativa não refinada, baseada em cenários anteriores combinados com episódios recentes de violência. Desde então, quando se refere à Síria, a ONU somente fala em “centenas de milhares de mortos”.

Atualmente, há cerca de 18 grupos trabalhando com os meios que têm para monitorar o número de mortos, mas a dificuldade do trabalho gera discrepância nos números registrados. Todos os grupos concordam em duas coisas: que as forças do governo sírio são responsáveis pela maioria das mortes; e que calcular o número exato de mortos é um desafio extremamente difícil.

Um dos grupos mais proeminentes é o Observatório Sírio para Direitos Humanos, que no mês passado anunciou 511 mil mortos no conflito desde março de 2011. Outro número internacionalmente aceito é o registrado em 2016, pelo Centro Sírio de Pesquisa Política, que contabilizou 470 mil mortos.

Outro grupo, a Rede Síria Para Direitos Humanos, afirma usar táticas similares às do Observatório Sírio para Direitos Humanos, mas seu fundador, Fadel Abdul Ghany, chama atenção para a dificuldade de se contabilizar os mortos. Até o momento, eles conseguiram contabilizar 217.764 mortos. “Na maioria dos casos, não conseguimos visitar os locais e na Síria temos dezenas de violações diárias”, diz Ghany.

Panos Moumtzis, coordenador da ajuda humanitária da ONU na região, diz que é importante lembrar que não se trata apenas de números. “Frequentemente falamos destes números, seja 400 mil ou 500 mil, mas também é sobre o trauma que há por trás de cada um destes números. É realmente um cenário frio, mas por trás dele há vidas”, disse Moumtzis.

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