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RECONHECIMENTO FACIAL

Quando a tecnologia aprende a ler rostos

O uso de dispositivos de reconhecimento facial avança de forma inevitável, em meio aos riscos e benefícios desta tecnologia

Quando a tecnologia aprende a ler rostos
É bom encarar o fato de que a mudança está chegando (Foto: Pixabay)

O rosto humano é uma notável obra de arte. A incrível variedade de expressões ajuda pessoas a reconhecerem umas às outras e facilita a formação de complexas sociedades. O mesmo se aplica à capacidade da face humana de enviar sinais, seja através de um rubor involuntário ou da artificialidade de um sorriso falso. As pessoas passam boa parte da vida em ambientes de trabalho e de diversão, como bares, lendo as expressões dos rostos em busca de sinais de atração, hostilidade, honestidade ou falsidade. Elas também passam boa parte da vida buscando dissimular as próprias expressões faciais.

A tecnologia está acompanhando rapidamente essa habilidade humana de ler faces. O novo modelo de iPhone da Apple usará a tecnologia para destravar a tela do smartphone. Nos Estados Unidos, igrejas usam dispositivos de reconhecimento facial para monitorar a presença de fiéis; no Reino Unido, lojas de roupas usam a tecnologia para detectar clientes de longa data; este ano, a polícia do País de Gales usou a tecnologia para prender um suspeito fora de um estádio de futebol. Na China, o uso da tecnologia é ainda mais abrangente, envolvendo identificação de motoristas e de turistas que tentam visitar um ponto turístico. Além disso, há lanchonetes na China onde é possível pagar pelas refeições através da tecnologia.

Porém, a capacidade da tecnologia de captar, armazenar e analisar faces promete trazer uma reviravolta aos conceitos de privacidade, justiça e confiança. A começar pela privacidade: diferentemente das digitais e outras formas biométricas de reconhecimento, essa nova tecnologia trabalha à distância. Qualquer um munido de celular pode tirar uma foto de uma pessoa na rua e usá-la para identificá-la através de programas de reconhecimento facial. Na Rússia, por exemplo, um aplicativo de paquera permite que uma pessoa que se sentiu atraída por alguém, bata uma foto e use a imagem para buscar a identidade da pessoa na internet. A taxa de precisão da busca é de 70%. O Facebook dá a seus usuários a possibilidade de manter as fotos da rede social restritas a amigos, mas isso não impede a gigante do Vale do Silício de escanear rostos de clientes em uma feira de automóveis para, depois, mostrar anúncios de carros no feed de notícias de um usuário que compareceu ao evento.

Os rostos humanos também fornecem outras informações passíveis de serem lidas pela tecnologia. Algumas empresas usam o reconhecimento facial para detectar sinais de doenças, como a síndrome de  Hajdu-Cheney. Também é possível detectar sinais de transtornos como autismo. Além disso, pesquisadores da Stanford University demonstraram em um estudo que um algorítimo é capaz de detectar com 81% de precisão se uma pessoa é gay ou não através de fotos de seus rostos.

Tais fatos são preocupantes já que empresas podem usar a informação para recusar um candidato a uma vaga. Além disso, em países onde a homossexualidade é proibida, a tecnologia pode fazer dos gays um alvo fácil para o governo.

A tecnologia de reconhecimento facial também pode mudar a forma de interação humana. Isso porque dissimular emoções faz parte do cotidiano. Se um cônjuge conseguir detectar todo indício de tédio do parceiro ou um chefe conseguir detectar todos os sinais de contradição de seus funcionários, relações afetivas e de trabalho se tornarão bem menos harmoniosas.

Apesar disso, o uso desta tecnologia parece impossível de conter. Embora, o Goolge tenha dispensado substituir crachás pelo reconhecimento facial, por medo de estimular políticas não democráticas, outras empresas do Vale do Silício apostam com força na tecnologia. Amazon e Microsoft oferecem a tecnologia em seus serviços de armazenamento em nuvem e o Facebook tem ambiciosos planos para a tecnologia. É bom encarar o fato de que a mudança está chegando.

Fontes:
The Economist-What machines can tell from your face

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