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EUA E COREIA DO NORTE

Quando a verborragia supera a razão

Como o temperamento egocêntrico e explosivo que Donald Trump e Kim Jong-un têm em comum pode levar o mundo à uma guerra evitável

Quando a verborragia supera a razão
A irresponsável troca de ameaças entre Trump e Kim preocupa líderes globais (Foto: Twitter)

A escalada de tensão entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte atingiu um perigoso patamar na última terça-feira, 8, após os presidentes dos respectivos países trocarem ameaças militares.

O líder norte-coreano, Kim Jong-un, ameaçou atacar Guam, território dos Estados Unidos no Pacífico. Em reposta, o presidente americano, Donald Trump, prometeu “responder com fogo e fúria” a um ataque norte-coreano.

A irresponsável troca de ameaças deixou em alerta a comunidade mundial, que teme que os dois líderes levem a cabo suas promessas e iniciem uma guerra. China, Austrália, Alemanha e Reino Unido pediram calma e exortaram os países a resolver a questão por meio da diplomacia, evitando qualquer ação ou declaração que possa elevar a tensão.

O pedido, no entanto, pode não render frutos. Isso porque, apesar das diferenças ideológicas, Trump e Kim têm em comum um temperamento egocêntrico e explosivo e veem na verborragia uma estratégia para desviar a atenção dos problemas de seus respectivos governos e alavancar a popularidade.

Não é a primeira vez que Trump faz uma declaração alarmante em relação a um país pária. Dias atrás, ele declarou que a relação entre EUA e Rússia “está num dos seus níveis mais baixos e é muito perigosa”. Trump aproveitou para culpar o Congresso americano pela situação, lembrando que são os mesmos parlamentares que veem barrando o fim do Obamacare, uma de suas promessas de campanha, que vem sofrendo consecutivas derrotas no Congresso. “Podem agradecer ao Congresso, as mesmas pessoas que nem sequer são capazes de nos dar a reforma de saúde”.

Além disso, em inúmeras ocasiões, o presidente americano usou o Twitter, seu meio de comunicação preferido, para dar declarações exageradas, agressivas ou completamente em desacordo com a postura de um presidente americano.

Porém, tais declarações também são uma forma de desviar a atenção dos americanos para o fato de que Trump pode vir a ser o 1º presidente dos EUA a sofrer impeachment por conta da interferência da Rússia em sua campanha presidencial. Elas também visam usar o impacto emocional para alavancar a popularidade de Trump, atualmente em 36%, a mais baixa para um presidente americano em 70 anos.

Kim, por sua vez, usa seu regime totalitário para isolar seu país, blindando-o de qualquer influência externa. Os norte-coreanos, por exemplo, são impedidos de ter livre acesso à internet, exceto se for membro da restrita elite do país. Qualquer informação que entre ou saia da Coreia do Norte passa por um rígido crivo do regime. Até mesmo o banal furto de um cartaz pode levar à morte, como ficou claro no caso do turista americano que furtou um cartaz do regime em um hotel para levar para os EUA.

Assim como Trump, Kim é inclinado a ameaças, declarações exageradas e gosta de exaltar sua posição de líder máximo de seu país. Ele já declarou que a Coreia do Norte tem capacidade para alcançar “todo o território americano”, algo bastante improvável. Em parte, suas ameaças são uma forma de driblar o isolamento no cenário global. Kim acredita que mostrar a Coreia do Norte como uma potência nuclear forte e destemida aumenta o poder de barganha do país e o protege contra as ameaças externas. E para ele, a maior ameaça externa são os EUA.

Kim também tem obsessão por se mostrar um líder audacioso. Para isso, está sempre aparecendo em fotos supervisionando programas nucleares ou em montagens que inevitavelmente viram piadas no exterior. Em uma ocasião, ele pareceu sorridente em uma foto no topo do monte Paektu, usando apenas botas e casaco, algo que seria impossível devido ao frio da região. Em outra, ele usou o photoshop para aumentar sua frota marítima.

Além disso, em fevereiro de 2015, em homenagem ao 70º aniversário de independência da Coreia do Norte, o regime de Kim divulgou uma série de slogans cujas mensagens exaltavam a força do país e prometiam “aniquilar até o último homem” em caso de uma invasão americana. Tamanha demonstração de força e poder podem ser uma forma de desviar a atenção dos norte-coreanos da desastrosa política econômica vigente ou da mais grave seca que afeta o país e pode levá-lo a recorrer à importação de alimentos.

Com perfis tão complexos, Trump e Kim fazem a verborragia superar a razão e podem não enxergar as opções disponíveis para impedir uma guerra. Entre elas, estão as sanções, como apontado em um recente artigo da revista Economist. Outra opção é a defendida por Hugo Swire, ex-ministro de Relações Exteriores do Reino Unido. Em entrevista ao Guardian, ele disse que a China e os EUA deveriam tentar convencer a Coreia do Norte a retomar sua participação na chamada “Conversações das Seis Partes”, uma série de negociações criada em 2003 para ajudar China, Japão, Rússia, Coreia do Sul e os Estados Unidos a convencer a Coreia do Norte a abandonar seu programa nuclear. A Coreia do Norte abandonou o grupo em 2009, mas, segundo Swire, a combinação de pressão internacional, sanções e diplomacia pode fazê-la retornar.

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2 Opiniões

  1. Beraldo disse:

    Uma ação militar dos EEUU contra Coreia do Norte é tudo que a China quer.

    Altos custos econômicos que favireceriam o expansionismo chinês.

    Este é o único motivo do atrevimento coreano e da indecisão americana.

  2. Lucinda Telles disse:

    Os USA só não implodem o quintal do menino-maluquinho porque ninguém quer aqueles pobres espalhados por toda a Ásia.

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