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Contra ou a favor?

Quatro mitos sobre o suicídio assistido

Debate sobre a legalização do suicídio assistido é caracterizado por quatro equívocos perigosos

Quatro mitos sobre o suicídio assistido
Alguns estados norte-americanos já permitem o suicídio assistido (Reprodução/Internet)

O debate sobre o suicídio assistido sempre dividiu opiniões e provocou debates acalorados de ambos os lados do discurso. Em poucos dias, o estado de Massachusetts, nos EUA, decidirá se permite ou não que médicos “prescrevam medicações, a pedido de pacientes terminais em determinadas condições, para que encerrem seu sofrimento”. Em Nova Jersey, um projeto de caráter similar está sob discussão. Como tantas outras questões ligadas à saúde, infelizmente o debate em torno do suicídio assistido ainda é confuso e caracterizado por quatro grandes mitos. São eles:

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1. Dor: O principal argumento usado por pessoas que defendem o suicídio assistido é a dor. O argumento pode ser resumido da seguinte forma: as pessoas estão vivendo mais, e quando finalmente sucumbem à doença, demoram mais tempo para morrer e sentem muita dor, ou então estão em um estado semi-comatoso, que resulta da ingestão de grandes quantidades de medicamentos analgésicos.

Contudo, isso não é verdade. Diversos estudos baseados em entrevistas com pacientes com câncer, Aids, doença de Lou Gehri e outras condições crônicas e terminais demonstraram que pacientes que desejavam a eutanásia não são motivados pela dor. Somente 22% dos pacientes que morreram entre 1998 e 2009 por suicídio assistido em Oregon, um dos três estados norte-americanos, junto com Washington e Montana, onde a prática é permitida, estavam com dor ou com medo de que ela chegasse, de acordo com seus médicos. Na Austrália, entre os sete pacientes que receberam a eutanásia legalmente durante os anos 90, três pacientes não relataram dor alguma. Nos outros quatro, a dor foi administrada e controlada por medicamentos.

Pacientes dizem que o primeiro motivo não é escapar da dor física, e sim do estresse psicológico. Os principais motivos listados por eles são a depressão, a falta de esperança e o medo de perder autonomia e controle.

 

2. Tecnologias avançadas e desumanas: Um segundo mito sobre o suicídio assistido é que trata-se do resultado inevitável de uma cultura médica de alta tecnologias capazes de sustentar a vida mesmo quando uma pessoa está debilitada, incontinente, incoerente e ligada a uma máquina.

Mas os antigos gregos e romanos também advogavam a eutanásia. Debates sobre a legalização da eutanásia foram realizados com intensidade na Inglaterra no final do século 19. A primeira vez que tal assunto foi introduzido nos Estados Unidos foi no ano de 1905, antes da descoberta de antibióticos, diálises, respiradores artificiais e tubos de alimentação. Se o interesse na legalização da eutanásia está ligado a alguma tendência histórica, é ao crescimento do individualismo que glorifica a escolha pessoal, e não ao avanço de tecnologias na medicina.

 

3. Apelo popular: O terceiro equívoco sobre o suicídio assistido é que a prática irá trazer benefícios para o fim da vida de todos. Afinal, a morte é o destino de todos, e legalizar o suicídio assistido permitirá que qualquer indivíduo fuja de uma morte dolorosa. Mas o problema é que mesmo em locais onde a prática é permitida, poucas pessoas tiram vantagem disso. Em Oregon, entre 1998 e 2011, 596 pacientes submeteram-se ao suicídio assistido, o que corresponde a 0,2% das mortes no estado. Na Holanda, onde a eutanásia é permitida há mais de três décadas, menos de 3% das pessoas se submeteram à prática para acelerar a morte. Mesmo se contabilizarmos todos os pacientes mortos que expressaram algum interesse nesse método, eles somarão menos de 10%.

Então, quem exatamente a prática do suicídio assistido beneficia? Pessoas ricas e bem-educadas, tipicamente sofrendo de câncer e acostumadas a controlar todos os aspectos de suas vidas, ou 0,2% da população privilegiada. E quem são os mais suscetíveis a sofrer abusos pela prática: os pobres, sem educação, que estão morrendo e representam um ônus para seus parentes.

 

4. Uma boa morte: O último mito mais comum sobre o suicídio assistido é que ele é rápido, indolor e uma forma garantida de morrer. Mas nada na medicina está livre de possíveis complicações. Diversas coisas podem dar errado durante a morte assistida, como no caso de pacientes que vomitam as pílulas, ou não tomam uma quantidade suficiente de pílulas e acordam ao invés de morrer. Em um estudo holandês, 7% dos pacientes que receberam as pílulas vomitaram. Em 15% dos casos, pacientes que ingeriram as pílulas não morreram ou demoraram um bom tempo (horas e dias) para morrer. Em 18% dos pacientes, médicos tiveram de interferir na administração do medicamento letal, recurso não permitido nos estados norte-americanos onde o suicídio assistido é legal.

Ao invés de lutar pela legalização do suicídio assistido, devíamos focar nossas energias no que realmente importa: melhorar a qualidade de vida daqueles que estão morrendo, assegurando que todos os pacientes possam conversar abertamente sobre suas vontades com médicos e parentes e ter acesso a medicamentos paliativos de qualidade antes de se submeterem a procedimentos médicos desnecessários.  A tentativa da legalização do suicídio assistido não é aceita, o trabalho para diminuir a causa das mortes deve ser aprimorado, garantindo aos pacientes que seus desejos sejam levados em consideração antes que sofram intervenções médicas. O apelo do suicídio assistido é baseado em fantasias e mitos. O objetivo a ser atingido é que todos tenham uma boa morte.

 

 

Fontes:
The New York Times-Four Myths About Doctor-Assisted Suicide

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4 Opiniões

  1. Samuel disse:

    Que horror!

  2. zica_ds@hotmail.com disse:

    Essa legalização do suicídio entra em consonância com os intentos das grandes fundações mundiais (Rockfeller, Bill Gates e George Soros) de redução populacional já documentado há décadas, e como eles estão acima de qualquer soberania nacional, com certeza para a aprovação disso é questão de tempo.

  3. Hivitality disse:

    Há 12 anos fiquei 8 meses internado no Hospital São Paulo por consequência de complicações decorrentes do HIV, e nunca pensei em tirar minha vida, como ainda não penso. Fui a coma por 2 oportunidades, e apesar de não ter visto um túnel com uma luz branca no final, estou de volta.

    O HIV, apesar de não causar diretamente qualquer dor, cria oportunidades fisiológicas para que doenças oportunistas maltratem o paciente tanto física quanto psicologicamente, a ponto até de fazê-lo desistir, haja visto o desgaste que sofre um doente internado, seja a instituição onde ele se encontra, de primeira categoria ou não.

    Por se tratar de uma decisão personalíssima, não acredito que fossem mais fracos espiritual ou fisicamente aqueles que no meu lugar tivessem optado por uma morte assistida por profissionais de saúde.

    A despeito do que possam pensar as pessoas mais religiosas, entendo que todo e qualquer direito conquistado para que tenhamos um maior controle sobre a quantidade de sofrimento que nos seja infligido por qualquer meio ou motivo, somente vem a acrescentar na gama de direitos a preservação da dignidade.

    Em suma, direitos são sempre positivos, proibições são sempre discutíveis, e nem sempre pelas pessoas que melhor as poderiam avaliar.

  4. Carlos Neves disse:

    Sou a favor da eutanásia. Cada cidadão com doença terminal e sem alguma qualidade de vida, nem sequer esperança de cura, sabendo que sua morte è inevitável, tem todo o direito de interromper sua vida. Ninguém pode impedi-lo ou falar por ele.

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