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CONFLITO SANGRENTO

Quatro pontos importantes sobre a guerra civil no Iêmen

Em vigor desde 2015, o conflito iemenita tem raízes bem mais antigas, que remetem ao período pós-Primeira Guerra Mundial

Quatro pontos importantes sobre a guerra civil no Iêmen
Crianças em uma rua de Sanaa, capital do Iêmen (Foto: Flickr/Ahron de Leeuw)

Um ataque a um hotel próximo à capital iemenita Sanaa deixou pelo menos 41 mortos e 13 desaparecidos. Na noite da última quarta-feira, 23, dois bombardeios consecutivos atingiram o Muntazah al-Shabab li-Rihla wa-Nawm, um popular hotel localizado em Arhab, cidade a 40 quilômetros ao norte de Sanaa.

O primeiro bombardeio atingiu o prédio do hotel, matando quem estava dentro do edifício; o segundo atingiu os portões de entrada, e matou pessoas que se dirigiam ao prédio para prestar socorro aos primeiros atingidos. O prédio acabou desabando por conta do ataque.

Segundo moradores locais, o ataque foi perpetrado pela coalizão saudita que atua em uma operação militar no Iêmen, e tinha como alvo rebeldes houthis, movimento xiita que trava um embate para tomar todo o território iemenita.

O Iêmen é palco de um sangrento conflito entre os houthis e a coalizão saudita desde março de 2015, quando a Arábia Saudita lançou a operação Tempestade Decisiva, no intuito de restaurar o governo do presidente iemenita Abd Rabbuh Mansur Hadi.

Embora pareça atual, o conflito no Iêmen é resultado de uma série entraves que geraram inúmeros embates desde a Primeira Guerra Mundial. Veja abaixo quatro pontos importantes sobre a guerra civil no iemenita.

1) Reflexos da Primavera Árabe

Em 2011, o Iêmen foi um dos países varridos pelos protestos da Primavera Árabe. Naquele ano, protestos populares pediam a renúncia do ditador Ali Abdullah Saleh, que estava no poder há 33 anos.

Diferentemente de Egito, Tunísia e Líbia, onde os ditadores depostos foram expatriados ou executados, o Iêmen optou por uma transição de governo negociada. Saleh concordou em entregar o cargo em troca de imunidade e da manutenção de seu partido, o Congresso Geral do Povo, no poder. Foi então que Hadi, na época vice de Saleh, chegou ao poder. Sua missão era implantar um governo de transição que prepararia o país para eleições gerais em 2014.

A transição negociada fez o Iêmen ser apontado pela ONU e pelos EUA como país modelo na Primavera Árabe. Porém, a negociação falhou. Um dos motivos foi que a transição não foi liderada por atores locais nem teve participação dos jovens que protestaram pela saída de Saleh. Em vez disso, assumiram as conversas o chamado G10, grupo composto pelos cinco países com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (China, EUA, França, Reino Unido e Rússia), pelos cinco países do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã) e por um representante da União Europeia. O objetivo era instalar no Iêmen um governo alinhado à guerra ao terror dos EUA (foco dos países do Conselho de Segurança da ONU), e livre da influência do Irã (foco dos países do Golfo Pérsico).

Desta forma, foi criada uma nova Constituição para o Iêmen, endossada pela ONU e pelo G10. No entanto, a Constituição era completamente descolada da realidade iemenita. Em vez de fortalecer a representatividade dos diversos grupos sociais que existem no país, como pediam os manifestantes em 2011, ela concentrava o poder ao transformar o Iêmen em uma federação de seis regiões com pouca autonomia frente ao governo central.

2) Histórico de embates contra a centralização

A centralização de poder é a raiz dos conflitos no Iêmen desde 1918, época do colapso do Império Otomano decorrente da Primeira Guerra Mundial. Naquele ano, o país se dividiu em dois: o Iêmen do norte, um Estado independente; e o Iêmen do sul, uma colônia britânica. Em 1962, após uma guerra civil, a parte norte passou a se chamar República Árabe do Iémen. Já em 1967, a parte sul conquistou a independência após uma insurgência, passando a se chamar República Democrática Popular do Iêmen.

Desde então, iniciou-se uma série de negociações para a reunificação, fracassadas por conta de embates entre o norte e o sul. A unificação veio em 1990, quando Saleh, presidente do Iêmen do norte desde 1978, se tornou chefe de Estado do Iêmen. A unificação, no entanto, não estava totalmente consolidada, e em 1994, o país passou novamente por uma guerra civil entre o norte e o sul. A guerra foi fomentada por grupos de oposição à reunificação de ambos os lados. No norte, a oposição era liderada pelos houthis, de origem xiita, que visavam contrapor a influência saudita na região. Já no sul, a oposição veio por parte de tribos que pregavam a independência de Sanaa. A guerra terminou em julho de 1994, com Saleh reafirmando sua posição de chefe de Estado e mantendo o cargo até a chegada da Primavera Árabe e a ascensão de Hadi.

No poder Hadi iniciou uma série de medidas impopulares, entre elas, o corte do subsídio a combustíveis, que gerou intensos protestos. Além disso, a insatisfação com a centralização do governo era latente e colocou o Iêmen em um caminho sem volta rumo à outra guerra civil.

O ex-ditador Saleh, que mesmo deposto manteve a lealdade de parte significativa do exército iemenita, formou uma aliança com os houthis que iniciaram sua marcha para tomar o controle do país. Primeiro, eles tomaram Sanaa, numa tentativa de obter, à força, as mudanças desejadas na Constituição. Sem sucesso, eles ocuparam vários prédios do governo e obrigaram Hadi  a deixar a capital. O presidente fugiu para o sul e declarou a cidade de Áden como nova sede do governo. A Arábia Saudita interveio a favor de Hadi, um aliado saudita, lançando a atual operação Tempestade Decisiva para esmagar a insurgência e restaurar o governo.

3) Disputa entre Arábia Saudita e Irã

O conflito no Iêmen também é fruto da disputa entre o governo sunita da Arábia Saudita e o governo xiita do Irã. Inimigos declarados, eles estão engajados em uma intensa campanha pelo posto de maior e mais influente potência do Oriente Médio. Tal disputa engloba agentes políticos, econômicos e diplomáticos.

A Arábia Saudita, cuja parte sul tem uma grande e porosa fronteira com o Iêmen, teme o avanço da influência iraniana no país. Isso porque a influência do Irã também avança no Iraque, que faz fronteira com a parte norte da Arábia Saudita.

Diante disso, a operação militar no Iêmen é uma tentativa da Arábia Saudita de evitar ser cercada por países aliados do Irã. Alguns especialistas acreditam que o governo saudita não descarta dividir novamente o Iêmen, caso não consiga restabelecer o governo de Hadi.

4) Tragédia totalmente criada pelo ser humano

Em um relatório apresentado na semana passada ao Conselho de Segurança da ONU, o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Stephen O’Brien, disse que o conflito entre rebeldes houthi e a coalizão pró-Hadi é uma “deplorável e evitável catástrofe, totalmente criada pelo ser humano”.

Desde que teve início, o conflito já matou mais de 10 mil pessoas e deslocou milhões. Segundo o relatório, recentemente, o número de ataques aéreos vem subindo e atualmente o país tem três vezes mais ataques aéreos por mês em relação ao ano passado. Enquanto isso, os embates por terra aumentaram 50%.

Além da guerra civil, o Iêmen atravessa uma epidemia de cólera. Mais de 2 mil pessoas já morreram em decorrência da doença e meio milhão foram infectadas. Segundo estimativas da ONU, cerca de 600 mil devem contrair a doença ainda este ano. O país também é um dos quatro do mundo ameaçados por uma crise de fome sem precedentes, gerada pela combinação de seca e conflito armado.

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