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Política e saúde

Quem precisa de um ministro da Comida?

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No início da II Guerra Mundial Adolf Hitler espalhou sob as águas do Atlântico Norte cerca de 60 dos seus temidos U-boats, como eram chamados os mortíferos submarinos da marinha alemã. O objetivo do Führer era torpedear os navios mercantes que tentavam chegar à Grã-Bretanha levando alimentos, remédios, combustíveis e demais suprimentos. Era a estratégia da inanição, com a qual os nazistas pretendiam vencer os britânicos pelo estômago, ou pela falta do que forrá-lo, e assim deixar a ilha comandada por Winston Churchill prostrada, de joelhos.

A maioria dos navios que faziam as rotas comerciais com a Grã-Bretanha de fato foram mandados pelos ares, a uma velocidade tal que as embarcações afundadas sequer conseguiam ser repostas para que outros marinheiros pudessem se aventurar naquelas águas para lá de arriscadas. Apesar de não ter surtido o efeito desejado por Hitler, ou seja, a rendição britânica, a estratégia nazista da inanição colocou milhões de pessoas em dificuldades extremas, definhando com a falta das proteínas e dos carboidratos necessários para levar a vida — na época, a dura vida em tempos de guerra.

Neste contexto, o papel do ministério britânico da Alimentação criado durante a guerra  foi decisivo para que a população e o próprio país tenham se mantido de pé. O órgão não se limitou a gerenciar a óbvia racionalização de comida que então se instituiu. Foi além. Encorajou-se o plantio de alimentos em jardins de inverno, praças, parques e demais áreas de lazer, e à medida que os homens iam para a guerra, as mulheres eram convocadas para o “exército da terra”. O crucial, no entanto, foi o esforço levado a cabo pelo governo para ajudar as famílias britânicas a comer da melhor forma possível; a se alimentar bem, apesar da carestia.

Ora, por que agora, quase 70 anos depois e em tempos de paz, a Grã-Bretanha pode ter novamente um ministro da Alimentação, ou ministro da Comida?

Por causa do McDonalds, do Burger King e, quem diria, porque os britânicos não sabem cozinhar. Quem garante é Jamie Oliver, o jovem, simpático e hiperativo cozinheiro natural do condado de Essex que ganhou o mundo com seus programas sobre culinária produzidos pela BBC e pelo Channel 4. No Brasil, pode-se ver o Oliver usando e abusando de laranjas, limões, codornas e alho-poró no canal GNT. Ele é um sucesso por aqui, com pelos menos quatro livros publicados em português. Outros tantos em inglês podem ser encontrados nas melhores livrarias. Entre eles, o mais recente: “Ministry of Food”.

A premissa e a proposta do livro são a mesmas que Oliver foi apresentar aos deputados britânicos no último mês de novembro, no Palácio de Westminster, em Londres. A premissa é que a maioria dos seus compatriotas têm pouca ou nenhuma idéia do que significa cozinhar adequadamente, e muito menos de como manter uma alimentação balanceada. A proposta é uma campanha para ensinar a população a se virar diante de um fogão, ou seja, dizer às pessoas como usar os ingredientes e as quantidades certas para preparar uma refeição tão saborosa quanto saudável.

A preocupação de Oliver é com a obesidade, que ele vê como uma das maiores ameaças à saúde dos britânicos nas últimas décadas. E esta não é primeira vez que o chef se aventura em campanhas deste tipo. Em 2005, ele se valeu da enorme audiência de seu programa para desencadear uma polêmica igualmente enorme a respeito da qualidade do que é servido às crianças nas escolas, o que obrigou o governo da Grã-Bretanha a se esmerar mais em prol da boa alimentação na hora do recreio.

Jamie Oliver é uma figura importante em seu país, e não por causa do talento que tem para cozinhar pratos sublimes. Foi por seu empenho em prol da saúde pública que recebeu da rainha Elizabeth a comenda de “Membro do Império Britânico”, e pelo mesmo motivo virou protagonista da seção “Man in the News” do jornal Financial Times. Apesar da influência que tem sobre os meios políticos e da popularidade de que goza junto à audiência, Oliver garante que não pensava em si próprio quando perguntou aos deputados britânicos: “Porque é que não existe um Ministério da Alimentação?”.

À parte sua motivação, a bola levantada pelo cozinheiro é legítima, principalmente quando se tem em conta que os gastos do Serviço Nacional de Saúde britânico com doenças relacionadas à obesidade já são maiores do que todo o dinheiro empregado para tratar os males causados pelo tabagismo.

Mas não deixa de ser curioso que uma proposta de tamanha envergadura, a sério, para que o Estado cuide melhor da alimentação do povo tenha surgido em um país onde as pessoas comem demais, e não de menos. É surpreendente que tenha aparecido na Inglaterra, e não na Índia ou no Sudão. Ou mesmo no Brasil do Fome Zero, onde, seis anos depois do lançamento do programa, a cidade escolhida para ser o símbolo do seu sucesso — Guaribas, no Piauí — tem o menor PIB per capita do território nacional, e continua afundada na mais absoluta miséria.

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2 Opiniões

  1. Dorival Silva disse:

    Esse Jamie Oliver, com seu ministério da comida, parece uma figura interessante. Mas vamos fugir da simplificação de achar que "fast-food" é necessariamente ruim. A expressão quer dizer "refeiçao rápida". Pode ser um cheeseburger com batata frita cheio de colesterol, ou pode ser uma salada saudável.

  2. heloisa disse:

    A obesidade é um problema sério na Inglaterra, o cozinheiro tem razão. E a miséria, sobretudo nas grandes cidades também é responsável pela alimentação barata, calórica e pouco saudável, já que salada não mata fome.

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