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ORIENTE MÉDIO

Relatório das Nações Unidas omite detalhes de ataques na Síria

As sete páginas que contam os pormenores dos ataques se transformaram em dois parágrafos no relatório divulgado

Relatório das Nações Unidas omite detalhes de ataques na Síria
Os detalhes foram descobertos por uma comissão das Nações Unidas que investigou os crimes de guerra nos sete anos de conflito (Foto: Twitter/@KenRoth)

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As forças sírias jogaram uma bomba química na varanda de um apartamento, matando 49 pessoas, incluindo 11 crianças. A pele delas ficou azul. Este é um dos detalhes que mostra as atrocidades cometidas pela Síria em Ghouta Oriental. Os detalhes foram descobertos por uma comissão das Nações Unidas que investigou os crimes de guerra nos sete anos de conflito. Porém, quando a comissão divulgou um relatório na última quarta-feira, 20, os detalhes foram omitidos.

O rascunho tinha sete páginas sobre os pormenores dos ataques. Apesar de omitido no relatório oficial, essa parte foi vazada ao New York Times (o rascunho está disponível no site do jornal americano). No documento divulgado, as sete páginas foram reduzidas a dois parágrafos.

As páginas vazadas mostram como o uso de armas químicas foi ainda pior do que se imaginava. Hanny Megally, membro da comissão, explicou as omissões, dizendo que muitos detalhes precisavam de confirmação adicional e que poderiam ser incluídos em outro relatório. O advogado de direitos humanos diz que não houve nenhuma pressão de fora para segurar a informação. No entanto, o jornal americano considera que as informações ali contidas não parecem ser ambíguas. Com detalhes meticulosos, o rascunho enumera seis ataques com armas químicas em civis de janeiro a 7 de abril, quando houve o ataque mais mortal.

Nos ataques de 13 de janeiro, 22 de janeiro e 1º de fevereiro, o rascunho diz que as forças do governo usaram agentes químicos, “muito provavelmente cloro” numa parte residencial de Ghouta Oriental, perto de um estádio. Algumas testemunhas descreveram que o agente cheirava como cloro.

Nos ataques de 22 de janeiro e 1º de fevereiro, a comissão teve evidência de que a os foguetes produzidos pelo Irã “só eram conhecidos por serem usados pelas forças do governo e, raramente, por milícias afiliadas”.

Nos primeiros três ataques, 31 pessoas, inclusive 11 crianças ficaram doentes, mas ninguém morreu. Nos ataques de 25 de fevereiro e 7 de março, com provável uso de cloro, 2 crianças morreram e 18 civis ficaram feridos.

Em 7 de abril, um explosivo aéreo improvisado atingiu um prédio residencial. Segundo testemunhas e “evidência material recebida e analisada pela comissão”, os mortos mostraram “sintomas consistentes com a exposição de um agente sufocante, incluindo sinais de espuma na boca e no nariz, pele azulada indicando circulação sanguínea prejudicada, miose (constrição das pupilas), assim como alguns casos de pupilas dilatadas”. Megally disse que o ataque em 7 de abril em particular, precisava de mais informações, incluindo precisamente o que matou as 49 pessoas.

A comissão, que compila evidências das atrocidades no conflito sírio desde pouco depois do início da guerra em 2011, desenvolveu extensivas formas de reunir informações, apesar do presidente sírio Bashar al-Assad não permitir investigadores no país. Liderado pelo diplomata brasileiro e ativista de direitos humanos Paulo Sérgio, a comissão até compilou uma lista confidencial de autoridades sírias e outros que podem ser levados ao tribunal um dia.

O rascunho foi vazado por uma pessoa próxima da comissão, que pediu anonimato. O vazamento mostra desacordo interno sobre a força das evidências. Também é possível que a comissão quisesse cautela para um esperado relatório sobre o ataque de 7 de abril pela Organização para a Proibição de Armas Químicas, que mandou investigadores ao local.

Armas químicas são proibidas por um tratado internacional que Assad assinou sobre pressão em 2013, quando seu governo foi acusado pela primeira vez de usar armas químicas no conflito, também em Ghouta Oriental.

O ataque de 7 de abril causou fúria internacional, especialmente devido a vídeos, divulgados por testemunhas e ativistas, de crianças se engasgando. O ataque resultou em ataques retaliatórios da Inglaterra, França e Estados Unidos. O governo de Assad, apoiado pela Rússia e Irã tentou lançar dúvidas sobre o ataque a Douma, sugerindo que foi falsificado ou feito pelos insurgentes.

O governo sírio e seus aliados controlaram Ghouta Oriental há dois meses, fazendo com que 140 mil pessoas deixassem suas casas e causando bombardeios que destruíram hospitais, mercados e escolas. Esses bombardeios mataram 1,1 mil civis e feriram 4 mil em menos de um mês.

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Fontes:
The New York Times-Horrific Details on Syria Chemical Attacks Left Out, for Now, From U.N. Report

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